Em um cenário marcado por instabilidade política, transformações tecnológicas aceleradas e disputas cada vez mais intensas pela atenção do público, o modo como as pessoas se informam está mudando rapidamente. É esse o retrato traçado pelo Reuters Institute Digital News Report 2026, pesquisa anual considerada uma das principais referências globais sobre consumo de notícias.
Produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, o levantamento ouviu quase 100 mil pessoas em 48 países e revela um ponto de inflexão no ecossistema informacional: pela primeira vez, redes sociais e plataformas de vídeo ultrapassaram os sites e aplicativos dos próprios veículos jornalísticos como principal porta de entrada para as notícias.
Mas essa mudança não ocorre isoladamente. O relatório aponta uma combinação de fatores que ajudam a explicar o cenário atual: a confiança no jornalismo atingiu o menor patamar desde o início da série histórica, cresce a preocupação com desinformação impulsionada pelo avanço da inteligência artificial e os criadores de conteúdo ganham protagonismo na mediação das informações.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores observam um aparente paradoxo. Embora a população esteja cada vez mais dependente de plataformas digitais para se informar, a demanda por um jornalismo imparcial e de qualidade permanece forte.
A confiança nas notícias chega ao menor nível da série histórica
A principal preocupação identificada pelo relatório está relacionada à deterioração da confiança no jornalismo. Globalmente, apenas 37% dos entrevistados afirmam confiar nas notícias na maior parte do tempo, o menor índice registrado desde que a medição começou, em 2015.
A queda foi observada em 29 dos 48 mercados analisados e, segundo o Reuters Institute, reflete uma fragilidade institucional mais ampla, impulsionada por fatores políticos, sociais e tecnológicos.
O documento destaca que a perda de credibilidade não pode ser atribuída exclusivamente ao jornalismo. A desconfiança também acompanha a redução da confiança em governos, lideranças políticas e outras instituições representativas. Ainda assim, o setor tem sido alvo direto de ataques por parte de políticos de grande projeção, o que contribui para desgastar a percepção pública sobre a imprensa.
Além disso, a mudança nos hábitos de consumo também influencia esse cenário. À medida que mais pessoas passam a acessar notícias por meio de redes sociais, vídeos e ferramentas de inteligência artificial – ambientes historicamente menos confiáveis do que os veículos tradicionais – a confiança geral tende a diminuir.
A era da plataformização se consolida
Outro marco importante do relatório é a consolidação da chamada “plataformização” do consumo de notícias.
Pela primeira vez, 54% dos entrevistados afirmam acessar notícias por meio de redes sociais e plataformas de vídeo, superando os 51% que utilizam sites e aplicativos dos próprios veículos de comunicação.
O movimento representa uma transformação estrutural na relação entre jornalismo e audiência. Em vez de acessar diretamente uma página de notícias, o público passa a depender cada vez mais dos algoritmos das grandes plataformas digitais.
Segundo o relatório, os caminhos entre o jornalismo e a população estão se tornando menos diretos e mais fragmentados. O consumo de notícias também deixa de ser uma atividade intencional e passa a ocorrer de forma incidental, enquanto as pessoas realizam outras atividades online.
Essa mudança atravessa todas as faixas etárias, mas é especialmente evidente entre os mais jovens. Entre pessoas de 18 a 24 anos, mais da metade afirma que redes sociais, plataformas de vídeo e ferramentas de inteligência artificial já são sua principal fonte de informação.
Ao mesmo tempo, o interesse pelo noticiário continua caindo. Desde 2021, a parcela de pessoas que se considera muito interessada em notícias caiu, em média, 13 pontos percentuais. Já os chamados usuários casuais – que consomem notícias apenas ocasionalmente e demonstram pouco interesse pelo tema – passaram de 16% para 25%.
Desinformação preocupa, mas a conveniência continua vencendo
Em meio à expansão das plataformas digitais, também cresce a preocupação com a qualidade das informações que circulam na internet.
Globalmente, 62% dos entrevistados afirmam estar preocupados em distinguir o que é verdadeiro do que é falso online, um aumento de quatro pontos percentuais em relação ao ano anterior.
O avanço da inteligência artificial aparece como um dos principais fatores por trás dessa percepção, especialmente na Europa Ocidental. O relatório destaca o temor em relação aos deepfakes, ao chamado AI slop, conteúdos produzidos em massa por ferramentas de IA, frequentemente de baixa qualidade, e à desinformação motivada por interesses políticos.
Apesar disso, há um paradoxo comportamental. Mesmo reconhecendo os riscos, o público continua utilizando intensamente as plataformas digitais para se informar.
Para os pesquisadores, a conveniência frequentemente supera a preocupação: as pessoas permanecem nos ambientes onde já estão presentes, ainda que reconheçam suas limitações em termos de confiabilidade.
A inteligência artificial avança, mas ainda enfrenta um déficit de confiança
O relatório também registra os primeiros sinais de incorporação da inteligência artificial às rotinas informativas.
Atualmente, 10% dos entrevistados afirmam utilizar chatbots de IA, como ChatGPT, Google Gemini ou Perplexity, para acessar notícias, um crescimento em relação aos 7% registrados no ano anterior.
O uso, porém, ainda é predominantemente exploratório e concentrado entre pessoas mais jovens e mais interessadas em notícias. Entre os menores de 35 anos, 16% já utilizam essas ferramentas para se informar.
As principais motivações envolvem resumir assuntos complexos, fazer perguntas complementares, reunir diferentes perspectivas sobre um mesmo tema e traduzir conteúdos produzidos em outros idiomas.
Ainda assim, a confiança permanece baixa. Apenas 20% dos entrevistados afirmam confiar nas respostas fornecidas por chatbots, tornando essa a fonte informativa com menor credibilidade entre todas as plataformas analisadas.
O Reuters Institute também alerta para possíveis impactos econômicos no setor jornalístico. Se os usuários encontrarem respostas suficientes dentro das próprias ferramentas de IA, a tendência é que diminuam ainda mais os acessos diretos aos veículos de comunicação, aprofundando o fenômeno que o mercado passou a chamar de “Google Zero“.
Criadores de conteúdo ganham espaço, mas não substituem o jornalismo
Outra tendência observada é o fortalecimento dos criadores de conteúdo e influenciadores digitais como intermediários da informação.
Globalmente, 27% dos entrevistados afirmam ter consumido notícias produzidas por criadores na última semana.
Embora sejam vistos como mais divertidos, acessíveis e fáceis de entender, esses produtores de conteúdo ainda são percebidos como menos confiáveis e menos imparciais do que os veículos jornalísticos tradicionais.
Ao contrário do que muitas vezes se imagina, o relatório mostra que a maioria das pessoas não substitui completamente o jornalismo profissional. Os criadores costumam funcionar como uma camada adicional dentro de dietas informativas cada vez mais diversificadas.
Ainda assim, o estudo chama atenção para um efeito relevante em países marcados por intensa polarização política, como Brasil e Estados Unidos: muitos dos criadores mais influentes atuam como comentaristas fortemente alinhados a posições ideológicas específicas, ampliando divisões já existentes no debate público.
Brasil registra mínima histórica de confiança
No Brasil, os dados reforçam algumas das tendências globais, mas também apresentam particularidades.
A confiança nas notícias caiu seis pontos percentuais, chegando a 36%, o menor patamar registrado nos 12 anos em que o país participa do levantamento.
O relatório associa esse cenário à persistente polarização política e aos sucessivos escândalos que marcaram o debate público nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, o Brasil foi o único mercado analisado em que a preocupação com a desinformação apresentou uma pequena queda, de três pontos percentuais, embora continue em níveis elevados.
Os pesquisadores também destacam a força do ecossistema de criadores de conteúdo no país, que reproduz as divisões políticas presentes no debate nacional.
Apesar das mudanças profundas no ambiente informacional, o Reuters Institute encerra o relatório apontando um dado que destoa do cenário de desconfiança generalizada: a maioria das pessoas continua defendendo a ideia de um jornalismo imparcial.
Em um ambiente cada vez mais fragmentado e mediado por plataformas digitais, o desafio não parece ser a perda de relevância do jornalismo em si, mas a reconstrução dos caminhos que conectam a produção jornalística ao público.