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Desinformação avança com IA e mantém STF no centro das narrativas, aponta estudo

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A proporção de peças desinformativas com uso de Inteligência Artificial saltou de 4,65% em 2024 para 25,77% em 2025, segundo apontou o I Panorama da Desinformação no Brasil publicado neste mês pela Agência Lupa. O número representa um crescimento de mais de cinco vezes em apenas um ano e marca o avanço acelerado do uso da tecnologia na produção de conteúdos falsos.

O aumento não foi apenas quantitativo, mas também qualitativo. Em 2024, a tecnologia aparecia majoritariamente associada a golpes e fraudes digitais. Já em 2025, houve uma migração estratégica para o campo político: quase 45% dos conteúdos com IA tinham viés político, contra 33% no ano anterior.

Beatriz Farrugia, analista de pesquisa da Agência Lupa e responsável pelo estudo, afirma que o crescimento surpreendeu até mesmo a equipe responsável pelo levantamento. “Eu não esperava um aumento tão grande como o que a gente constatou. É um aumento muito significativo”, diz.

O formato predominante foi a combinação de vídeo deepfake – isto é, um vídeo manipulado ou totalmente criado por inteligência artificial para simular que uma pessoa disse ou fez algo que nunca aconteceu – com texto de apoio, presente em cerca de 41% dos casos envolvendo IA. Segundo o Panorama, o vídeo tem forte apelo emocional e tende a gerar impacto imediato. Já o texto que acompanha a peça ajuda a contextualizar a cena, organizar a narrativa e dar aparência de credibilidade ao conteúdo falso, facilitando sua circulação nas redes.

Mais de três quartos dos conteúdos com IA exploraram a imagem ou a voz de figuras públicas. Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Donald Trump e o ministro Alexandre de Moraes estiveram entre os nomes mais recorrentes. O padrão, segundo o relatório, indica que a tecnologia tem sido utilizada para fabricar conteúdos com alto potencial de dano político e institucional.

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Para Farrugia, a preocupação é que, em ano eleitoral, esse avanço se torne ainda mais sensível. “Em 2025, conteúdos políticos passaram a ocupar o primeiro lugar no uso da tecnologia”, afirma. Ela também aponta lacunas estruturais: “A sociedade ainda não sabe exatamente definir o que é deepfake. Falta educação midiática”. Além disso, segundo a pesquisadora, “faltam ferramentas acessíveis” para que cidadãos consigam checar conteúdos produzidos com IA, o que amplia a vulnerabilidade do eleitorado diante de peças sintéticas cada vez mais sofisticadas.

Ataques ao STF

Se a inteligência artificial se consolida como ferramenta, o Supremo Tribunal Federal (STF) se firmou como alvo prioritário das narrativas falsas.

Em 2025, o Judiciário, sobretudo o STF, foi mencionado em 65 conteúdos checados pela Lupa, ocupando o topo entre as instituições mais citadas nas verificações. O padrão repete a tendência observada em 2024.

As narrativas frequentemente distorciam ou inventavam decisões da Corte, principalmente em temas ligados à elegibilidade eleitoral e a processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Entre as peças verificadas estavam falsas ordens atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes, como a suposta determinação para fechar o Congresso Nacional.

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Mesmo fora do calendário eleitoral, a integridade do sistema de votação continuou sob ataque. Em 2024, ano de eleições municipais, a Lupa identificou 21 conteúdos com inverdades sobre a integridade das eleições. Em 2025, foram seis registros, número menor, mas ainda relevante diante da ausência de pleito nacional.

Segundo Farrugia, o estudo identificou dois grandes eixos estruturantes da desinformação recente: a polarização política e o Judiciário. “A narrativa de ataque ao STF chamou a nossa atenção. Quando finalizamos o relatório, vimos que o STF estava no topo das organizações e instituições no eixo das narrativas, tanto no âmbito nacional quanto regional e até internacional”, afirma.

Para ela, o questionamento recorrente da credibilidade do sistema democrático se tornou transversal. “É quase uma narrativa institucionalizada, em termos de alcance. Tem como objetivo fragilizar a democracia, colocando em dúvida o sistema eleitoral.”

Polarização constante

A análise das 617 checagens realizadas em 2025 mostrou que a polarização política foi o fio condutor das mentiras mais virais ao longo de todo o ano.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi mencionado diretamente em 66 conteúdos desinformativos, ditos por ele ou sobre ele. Jair Bolsonaro apareceu em 49. Ambos estiveram presentes nas narrativas desinformativas em todos os 12 meses do ano.

Segundo o relatório, a polarização não se restringe à editoria política. Conteúdos sobre esporte, religião e sociedade foram frequentemente enquadrados sob lente ideológica, reforçando disputas entre campos políticos.

A desinformação exclusivamente nacional liderou o levantamento em 2025, concentrando quase 53% das checagens (325 conteúdos). Em 2024, essa proporção foi de cerca de 39%. Entre os exemplos citados pelo estudo estão boatos de que o governo teria encerrado o programa Farmácia Popular ou de que Lula teria assinado decreto tornando a primeira-dama Janja “co-presidenta”.

No recorte por editorias, política respondeu por mais da metade dos conteúdos nacionais verificados. Tecnologia e mídias ficaram em segundo lugar, reunindo conteúdos sobre redes sociais, golpes digitais e uso de IA.

Na avaliação de Farrugia, esse padrão indica que a polarização se consolidou como uma narrativa transversal. “Não é exclusiva do Brasil”, afirma. Segundo ela, trata-se de uma dinâmica “puxada por diferentes atores políticos” e que passou a circular por diversos grupos e países.

Esse tipo de narrativa, segundo a pesquisadora, se tornou “quase institucionalizada” e, quando associada a ataques ao Judiciário e ao sistema eleitoral, tem um objetivo claro: “fragilizar a democracia”, colocando em dúvida a legitimidade do processo democrático.

Golpes e economia

A desinformação econômica e monetária teve peso relevante em 2025. Segundo os dados sistematizados pela Lupa, os golpes cibernéticos representaram cerca de 20% de todo o conteúdo analisado no ano – um volume que, conforme destaca o relatório, não pode ser ignorado na formulação de estratégias de enfrentamento.

Janeiro foi um dos meses com maior volume de checagens, impulsionado por boatos sobre uma suposta taxação do Pix, informação falsa que gerou ao menos sete verificações e abriu espaço para fraudes digitais que exploraram a confusão.

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Novembro liderou o ranking anual de checagens, marcado por dois acontecimentos centrais: a realização da COP30, em Belém, e a decretação da prisão preventiva de Jair Bolsonaro. Cada um dos temas motivou ao menos dez verificações.

A comparação com 2024 evidencia o impacto do calendário eleitoral. Naquele ano, os maiores picos ocorreram entre julho e outubro, período das eleições municipais. Em 2025, sem pleito nacional, a dinâmica foi mais distribuída ao longo do ano, mas ainda fortemente marcada por eventos políticos e institucionais.

Rotas digitais

O Panorama também mapeou as plataformas de circulação da desinformação. Em 2025, o WhatsApp manteve-se como principal via de disseminação, mas sua participação caiu de 90% em 2024 para 46%, indicando maior dispersão dos fluxos.

A segunda posição passou a ser ocupada pela combinação WhatsApp–Facebook, mostrando que conteúdos falsos circulam simultaneamente nas duas plataformas da Meta. O X (antigo Twitter) e websites fraudulentos deixaram de figurar entre as dez principais rotas em 2025. Já o Kwai passou a integrar o ranking, ainda de forma modesta, na décima posição.

O mapeamento revela um ecossistema mais fragmentado e interconectado, no qual conteúdos transitam entre múltiplas plataformas antes de alcançar maior viralização.

Olhar estrutural

O I Panorama da Desinformação no Brasil analisou qualitativa e quantitativamente os 617 conteúdos verificados pela Agência Lupa em 2025, comparando-os aos 839 de 2024, com aplicação da Taxonomia Lupa para classificar temas, formatos, plataformas e estratégias.

O estudo parte da premissa de que combater a desinformação exige mais do que rotular conteúdos como falsos: é preciso compreender como são construídos, onde circulam e quais técnicas sustentam sua disseminação.

Para Farrugia, esse olhar estruturado permite identificar tendências e subsidiar políticas públicas mais eficazes. “Quando a gente olha para uma série histórica, consegue comparar temáticas e entender se há mais desinformação eleitoral, mais em saúde, mais em meio ambiente. Isso empodera a sociedade para desenvolver políticas mais assertivas, e não apenas respostas focadas em eventos pontuais”, afirma.

Ao colocar a inteligência artificial no centro do debate e evidenciar a consolidação de ataques institucionais e da polarização como eixos permanentes, o Panorama aponta que a desinformação no Brasil deixou de ser episódica. Trata-se de um fenômeno contínuo, adaptável e cada vez mais sofisticado — especialmente às vésperas de um novo ciclo eleitoral.

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