À medida que as eleições de 2026 se aproximam, pesquisadores brasileiros que estudam o ambiente digital ainda enfrentam dificuldades para acessar dados das principais plataformas para monitorar e analisar o debate público. Cenário pode dificultar observação pública sobre desinformação e violência política de gênero, além de criar disparidade entre pesquisas do Norte e Sul global.
No Brasil, mais de 86% dos domicílios têm acesso à internet, segundo o Cetic.br, e os usuários passam, em média, mais tempo por dia nas redes sociais do que os de qualquer outro país, de acordo com o Digital Report 2025. “As plataformas se tornaram um espaço relevante para acompanhar as disputas políticas e compreender as dinâmicas de formação da opinião pública brasileira”, explica Natasha Bachini, professora da Universidade de São Paulo (USP) e associada ao Núcleo de Estudos da Violência (NEV-USP).
Segundo a pesquisadora, embora não seja possível estabelecer uma relação direta entre o que acontece nas redes e a decisão de voto, o debate digital oferece um retrato do cenário eleitoral. Isso permite observar disputas de narrativas e tendências, em um contexto no qual candidatos e militantes também utilizam as plataformas para fazer campanha.
É justamente a possibilidade de realizar esse tipo de observação de forma independente que vem sendo afetada pelas mudanças nas políticas de acesso das plataformas. O Twitter/X inaugurou esse movimento em 2023, com o encerramento do acesso gratuito à sua API e passou a adotar um modelo pago.
Já a Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, encerrou nas vésperaras das eleições de 2024 o CrowdTangle, ferramenta utilizada por pesquisadores e jornalistas para monitorar conteúdos e tendências nas plataformas. Desde então, a empresa mantém a Biblioteca de Conteúdo e de Anúncios, voltada principalmente à consulta de conteúdos e anúncios disponibilizados publicamente, mas com características diferentes e mais restritivas de monitoramento que as oferecidas pela funcionalidade anterior.
Nos casos de Google, YouTube e Telegram, estão disponíveis mediante critérios e limites específicos. Kwai e WhatsApp não oferecem, para pesquisadores brasileiros, programas específicos de acesso a dados equivalentes aos mantidos por outras plataformas. O TikTok, que até março deste ano permitia apenas o acesso a “pesquisadores qualificados dos EUA, Europa, Canadá”, passou a permitir, no Brasil, que organizações que objetivam estudar a segurança de jovens na plataforma solicitem o acesso, além do Conselho Consultivo de Segurança no Brasil. O acesso é semelhante ao de outras plataformas: depende do cumprimento dos requisitos estabelecidos pela empresa e de sua aprovação.
As diferenças entre plataformas e territórios aparecem também em estudos que analisam a transparência desses serviços. Uma pesquisa de 2025 do NetLab/UFRJ em parceria com o Minderoo Centre for Technology and Democracy, da Universidade de Cambridge, avaliou o acesso a dados em 15 grandes plataformas digitais com atuação no Brasil, no Reino Unido e na União Europeia.Considerando tanto dados de usuários quanto informações de publicidade, o estudo aponta que o Brasil apresenta, de forma consistente, os menores níveis de acesso entre os três territórios analisados.
O que se perde sem acesso às APIs?
Uma API, sigla para Application Programming Interface, é uma interface criada pela própria plataforma que permite que outros programadores façam solicitações e recebam determinados dados de maneira estruturada e autorizada. Na prática, isso possibilita automatizar a coleta e trabalhar com volumes maiores de informações.
A alternativa, quando não há uma API disponível ou quando o pesquisador não consegue acesso a ela, pode ser a raspagem de dados (scraping), que é quando um programa coleta informações a partir da interface que está disponível para o usuário, ou até mesmo fazer a inspeção manual de conteúdos. Mas esses métodos têm limitações importantes, especialmente quando a pesquisa precisa acompanhar grandes volumes de informações ou observar determinados dados que não estão disponíveis para o usuário comum.
Para Viktor Chagas, professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF), o principal gargalo das pesquisas sobre redes sociais reside justamente na etapa de coleta: “A análise em si normalmente não é exatamente o gargalo desse tipo de operação. O grande problema reside numa etapa anterior, que é a coleta de dados.”Um exemplo é a personalização do conteúdo. “Se você tiver logado na sua conta no seu navegador, você vai raspar basicamente informações que são enviesadas pela sua própria conta de usuário”, explica. A raspagem também não permite acessar metadados que não estejam disponíveis para o usuário final.
A coleta por API, por outro lado, tende a ser mais estável. Como a interface é fornecida pela própria plataforma, mudanças no código ou no layout da página não necessariamente afetam os sistemas desenvolvidos pelos pesquisadores. Na raspagem, uma alteração na estrutura da página pode fazer com que um código deixe de funcionar.
Transparência em escala
O cientista da computação Humberto Marques, professor do Programa de Pós-Graduação em Informática e do curso de Ciência da Computação da PUC Minas, explica que, quando uma pesquisa depende apenas da observação manual, se limita drasticamente a quantidade de conteúdos que uma pessoa consegue acompanhar.
Com uma API, explica, um pesquisador pode desenvolver um programa capaz de fazer solicitações diretamente à plataforma e coletar grandes volumes de dados de forma automatizada. Para Humberto, disponibilizar APIs por meio de processos de credenciamento permite que pesquisadores externos observem o funcionamento desses ambientes, ao mesmo tempo em que protegem os dados pessoais de quem produz os conteúdos. “Na minha avaliação, o credenciamento é fundamental para verificar quem está realizando a pesquisa, a partir de qual instituição e com qual finalidade”.
O acesso controlado, nesse sentido, pode funcionar como uma forma de mediação entre a proteção dos usuários e a possibilidade de escrutínio externo. A plataforma mantém mecanismos para controlar o acesso aos dados, enquanto pesquisadores credenciados podem utilizá-los para produzir conhecimento sobre o que acontece nesses ambientes.
Pesquisadores precisam se virar com alternativas
A professora Natasha Bachini destaca que, diante da dificuldade de acesso às APIs, uma das alternativas adotadas por pesquisadores brasileiros tem sido buscar ferramentas comerciais que permitam acessar e sistematizar parte dos dados disponíveis nas plataformas.
Foi a alternativa adotada pelo NEV/USP para as eleições de 2026: “Nessas eleições, levantamos recursos por meio de nosso projeto e assinamos um software de gestão de marca”, explica Bachini.
A pesquisadora também chama atenção para uma dimensão mais ampla do problema: a desigualdade no acesso aos dados pode aprofundar as assimetrias na produção científica entre diferentes regiões do mundo. Segundo ela, enquanto as plataformas passaram a restringir o acesso ou cobrar pelos dados, pesquisadores do Sul Global, que frequentemente dispõem de menos recursos, enfrentam maiores dificuldades para acompanhar esses ambientes.
Para Viktor Chagas, a questão ultrapassa as condições de trabalho dos pesquisadores. As plataformas, argumenta, deixaram de ser apenas serviços tecnológicos e passaram a ocupar um papel relevante na vida social e política.“Essas plataformas não são apenas plataformas tecnológicas, elas são também plataformas sociais, com efeitos políticos muito evidentes”, afirma. Para ilustrar, ele cita as eleições brasileiras de 2018, marcadas pelo uso intenso do WhatsApp, um ambiente no qual pesquisadores têm acesso muito limitado aos dados.
“Sem mecanismos que permitam compreender o que circula nesses espaços, parte dos fenômenos que afetam o debate público permanece difícil de observar, avalia. Para o pesquisador, portanto, a questão não é apenas saber quais ferramentas estarão disponíveis para acompanhar as eleições de 2026, mas quais aspectos da dinâmica política nas plataformas poderão ser efetivamente observados e transformados em conhecimento científico.
O impacto sobre o monitoramento da violência política de gênero e raça
As restrições ao acesso a dados também mudaram a forma como organizações da sociedade civil conseguem monitorar fenômenos específicos nas plataformas. É o caso do MonitorA, iniciativa do InternetLab e Núcleo, que acompanha a violência política de gênero e raça na internet. Segundo Clarice Tavares, diretora de pesquisa da organização, o monitoramento conseguiu utilizar as APIs das plataformas em 2020 e 2022. Em 2024, porém, essa possibilidade já havia deixado de existir.N
aquele ano, a única plataforma em que o grupo conseguiu realizar a coleta foi o YouTube, além de uma análise do Bluesky. Para Clarice, as duas alternativas apresentam limitações para compreender o debate político brasileiro em sua dimensão mais ampla. O YouTube concentra parte das discussões, mas não é, segundo ela, onde se concentra o debate político cotidiano. Já o Bluesky ainda tem uma base de usuários pequena.
Para o monitoramento deste ano, o InternetLab passou a trabalhar em parceria com o Instituto Democracia em Xeque, que mantém uma infraestrutura própria de raspagem de dados. A mudança também exigiu uma adaptação metodológica: em vez de coletar todo o conteúdo disponível, como em edições anteriores, o grupo passou a trabalhar com amostras representativas.“A gente não está coletando, como já fez no passado, tudo que era publicado, mas está coletando amostras”, explica Clarice. A estratégia permite produzir dados comparáveis, mas representa uma mudança importante em relação à capacidade de observação que o monitoramento tinha quando o acesso às APIs era mais amplo.
A pesquisadora destaca que o acesso a esses dados não serve apenas para dimensionar um fenômeno. Nas primeiras edições do MonitorA, em 2020, candidatas relataram que os resultados do monitoramento ajudaram a comprovar que a violência que sofriam era real e tinha características desproporcionais. Os dados, portanto, podem funcionar também como evidência para as próprias vítimas e para instituições responsáveis por oferecer respostas.“Ter esses dados é muito importante para conseguir provar e evidenciar que a violência acontece”, afirma Clarice. Segundo ela, informações quantitativas e qualitativas ajudam a dar maior sustentação ao debate público e podem contribuir para que candidatas compreendam os riscos a que estão expostas, pensem estratégias de proteção e busquem respostas institucionais.
Essa produção também pode subsidiar a discussão sobre políticas públicas e regulação das plataformas. Para Clarice, o combate à violência política de gênero online passa não apenas pela possibilidade de acessar dados, mas por uma discussão mais ampla sobre transparência: como conteúdos são recomendados, quais são os mecanismos de moderação e quais características do desenho das plataformas podem favorecer ou reduzir a circulação de violência.“Você perde a possibilidade de organizações da sociedade civil, jornalistas, quem são esses outros interessados e que seriam legitimados a ter essas informações”, afirma.
