“É muito doloroso sentir que não podemos contar a verdade sem correr risco de retaliação. Tem casos que chegam pra nós e sentimos que decepcionamos as famílias.” Este relato é de um jornalista de Santa Catarina, que não foi identificado para a preservação da sua segurança. O desabafo faz parte do levantamento “Jornalismo local sob pressão do poder paralelo”, feito pelos jornalistas Gabi Coelho e Igor Soares, com apoio do Repórter Sem Fronteiras (RSF).
O levantamento, divulgado neste ano, mapeou pela primeira vez em escala nacional como diferentes agentes de poder atuam para silenciar o jornalismo local brasileiro. Entre os 38 jornalistas e comunicadores entrevistados nas cinco regiões do país, 89% relataram ter sofrido algum tipo de hostilidade durante o exercício da profissão.
Os episódios incluem ataques em redes sociais, intimidações presenciais, ameaças e pressões exercidas por autoridades. Os dados apontam para uma rotina de violência que afeta diretamente a produção de informação em pequenos municípios, periferias e comunidades.
Um dos reflexos mais evidentes desse cenário é a autocensura. Segundo a pesquisa, 60,5% dos entrevistados afirmaram já ter deixado de publicar pautas por medo de represálias. Temas relacionados à corrupção política, ao uso de recursos públicos e à violência policial aparecem entre os assuntos mais evitados.
Segundo Gabi Coelho, jornalistas que atuam em veículos locais vivem sob exposição e perigo constantemente. “Quando o jornalista local publica uma reportagem sobre corrupção municipal, não é um nome numa redação em São Paulo que assina, é uma pessoa que vai ser reconhecida na rua no dia seguinte”, afirma. Para a pesquisadora, essa dinâmica torna as ameaças mais concretas e contribui para a criação de um ambiente de medo que afeta diretamente o exercício da profissão.
Ao contrário do imaginário comum, os principais agentes de pressão identificados pelo estudo não são apenas organizações criminosas. Políticos corruptos aparecem como os atores mais citados pelos entrevistados, seguidos por empresários, forças de segurança e facções criminosas. Também foram mencionados garimpeiros, latifundiários, milícias e grupos religiosos fundamentalistas, dependendo da região do país.
Silenciamento e desinformação
Para Coelho, a pressão contra jornalistas locais não afeta apenas quem produz notícias. Ela também cria um ambiente favorável à desinformação.
“O ataque ao jornalista não serve apenas para silenciar aquele profissional. Serve também para desacreditar a informação que ele produz. Quando você deslegitima quem apura, abre espaço para que narrativas falsas ocupem o lugar da reportagem”, explica.
A pesquisadora avalia que esse movimento ganha ainda mais relevância em anos eleitorais. Segundo ela, justamente as pautas mais importantes para o debate público — como corrupção, gestão de recursos públicos e fiscalização de autoridades — estão entre aquelas que os jornalistas locais mais evitam publicar por receio de represálias.
“Os dados mostram que corrupção política e uso do dinheiro público estão entre os temas que mais sofrem autocensura. Ou seja, exatamente os assuntos que mais importam para o voto são aqueles que encontram mais obstáculos para chegar à população.”
Violência invisível
A pesquisa também chama atenção para um problema pouco documentado: a subnotificação. Entre os profissionais que sofreram ameaças ou pressões, 76,3% nunca formalizaram denúncias. Segundo Coelho, isso ajuda a explicar por que a violência contra jornalistas locais permanece invisível nas estatísticas oficiais.
“A maior parte da violência simplesmente não existe nos registros oficiais. Têm um Brasil inteiro de silêncio que a gente não conseguia ver porque não havia pesquisa estruturada sobre isso”, analisa.
LEIA TAMBÉM >> IVH documenta a realidade da violência contra jornalistas na Amazônia
Durante a investigação, os pesquisadores solicitaram informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Procuradoria-Geral da República (PGR) e Polícia Federal. Nenhum dos órgãos consultados possuía dados consolidados sobre violência contra jornalistas locais.
Para a jornalista, a ausência dessas informações revela um vazio que precisa ser enfrentado por meio de políticas públicas voltadas à proteção da imprensa.
Isolamento e falta de apoio
Outro dado que preocupa os autores é a fragilidade das estruturas de proteção disponíveis para os veículos locais. Quase 79% dos entrevistados afirmaram não ter apoio suficiente para continuar atuando em situações de risco, enquanto 84,2% apontaram a falta de suporte jurídico como principal necessidade.
“No momento em que o jornalista de um grande veículo sofre uma ameaça, ele tem uma redação por trás, um departamento jurídico, uma rede de apoio. O jornalista local, na maioria das vezes, está sozinho”, destaca Coelho.
O cenário favorece práticas como o assédio judicial, caracterizado pelo uso de processos para intimidar e desgastar financeiramente profissionais e veículos de comunicação. Mesmo quando as ações não prosperam, os custos de defesa podem comprometer a sobrevivência de pequenas redações.
LEIA TAMBÉM >> Brasil ganha novo protocolo de proteção a jornalistas e comunicadores
