As plataformas de mensageria privada, como Whatsapp, Telegram e Signal, deixaram de ser apenas espaços de conversas individuais. Hoje, funcionam como verdadeiras infraestruturas de informação, e, cada vez mais, como canais estratégicos para campanhas de desinformação.
É o que aponta o novo relatório do Forum on Information and Democracy (FID), lançado neste mês, que identifica soluções para a proteção da integridade da informação em plataformas de mensageria privadas. O documento reúne evidências de diferentes países e propõe caminhos para lidar com um problema crescente: o uso de aplicativos de mensagem privada como vetores de manipulação informacional, especialmente em contextos eleitorais.
Segundo o relatório, esses ambientes combinam escala, rapidez e criptografia, criando um cenário paradoxal: se tornaram essenciais para a comunicação privada e a organização social, mas também são “cada vez mais explorados como vetores de desinformação, manipulação estrangeira e comportamento coordenado inautêntico” .
Quando o privado vira público
Uma das principais conclusões do relatório é que a distinção entre comunicação privada e pública está se tornando cada vez mais difusa.
Grupos com milhares de membros, listas de transmissão e canais com audiência ilimitada permitem que conteúdos circulem em escala massiva, mas com aparência de comunicação pessoal. Esse modelo cria o que o relatório chama de “cadeias de amplificação invisíveis”, nas quais mensagens “podem alcançar milhares de pessoas em minutos, frequentemente por meio de intermediários confiáveis” . E esse fenômeno tem impacto direto em processos eleitorais.
Estudos citados no relatório mostram que campanhas coordenadas utilizam três estratégias principais:
- uso de funcionalidades de “broadcast” para simular comunicação orgânica;
- exploração de contas comerciais para envio massivo de conteúdo político;
- redes de perfis falsos (“sock puppets”) para criar sensação de consenso.
O efeito é significativo: em uma pesquisa com usuários de aplicativos de mensagem em nove países, 52% disseram que conteúdos políticos recebidos nesses ambientes influenciaram suas opiniões .
No Brasil, o relatório dialoga diretamente com evidências empíricas. Dados do Aláfia Lab, citados no documento, mostram que, durante as eleições municipais de 2024:
- 17% dos links compartilhados no WhatsApp continham desinformação;
- esse número chegou a 40% em conteúdos sobre o Supremo Tribunal Federal;
- houve padrões claros de coordenação e amplificação;
- conteúdos opinativos foram frequentemente apresentados como notícias, com manchetes enganosas.
A pesquisa também identificou estratégias sofisticadas de engano, como textos parcialmente verdadeiros usados para dar credibilidade a narrativas falsas, um padrão que reforça a dificuldade de moderação nesses ambientes.
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Arquitetura que favorece a desinformação
O relatório argumenta que o problema não está apenas nos conteúdos, mas no próprio design das plataformas.
A lógica de funcionamento desses aplicativos privilegia a velocidade e a circulação horizontal de informações, dificultando qualquer tipo de monitoramento externo. Como resume o documento, trata-se de um ambiente que “espelha o alcance das redes sociais, mas difere em termos de responsabilização, já que sua circulação é amplamente invisível” .
Além disso, novos elementos agravam o cenário:
- Monetização da desinformação: modelos baseados em engajamento incentivam conteúdos sensacionalistas;
- Publicidade: a falta de transparência no mercado de anúncios pode financiar desinformação;
- Inteligência artificial: ferramentas de IA generativa podem tornar campanhas mais baratas, rápidas e convincentes.
O relatório alerta que essas transformações “modificam o caráter ‘privado’ dessas plataformas” e evidenciam que a regulação atual “não está adequada ao cenário” .
Limites da regulação e o papel da educação midiática
Regular plataformas de mensageria segue sendo um dos maiores desafios apontados pelo relatório. De um lado, a criptografia de ponta a ponta é essencial para a proteção de direitos fundamentais, mas também limita a capacidade de monitoramento e moderação, tornando inviáveis medidas como a varredura automática de mensagens sem comprometer a segurança dos usuários. De outro, a ausência de definições claras sobre o que é “público” ou “privado” gera uma fragmentação regulatória entre países, criando uma “zona cinzenta” que dificulta a responsabilização das plataformas.
Diante dessas limitações, muitos governos têm apostado na educação midiática como principal resposta, buscando fortalecer a capacidade crítica dos usuários. O relatório, no entanto, alerta que, embora indispensável, essa estratégia não é suficiente por si só: sem enfrentar os mecanismos estruturais de viralização e amplificação, a resiliência social tende a operar sempre em desvantagem frente à escala e à velocidade da desinformação.
Recomendações
O relatório propõe uma série de recomendações voltadas a governos e plataformas, com foco em soluções apontadas como proporcionais e compatíveis com direitos fundamentais.
Entre os principais pontos estão:
Para governos
- Regular funcionalidades (como encaminhamento e canais), e não plataformas inteiras;
- Definir com clareza o que é “público” e “privado”;
- Proteger a criptografia;
- Exigir maior transparência das plataformas;
- Investir de forma contínua em educação midiática;
- Fortalecer a cooperação internacional.
Para plataformas
- Separar claramente funções de mensagem privada, transmissão pública e IA;
- Reduzir a viralização (por exemplo, limitando encaminhamentos);
- Combater contas falsas e redes coordenadas;
- Criar ferramentas de verificação dentro dos aplicativos;
- Apoiar iniciativas de fact-checking, como “tiplines”;
- Ampliar a transparência e o acesso a dados para pesquisadores.
O relatório também sugere que plataformas considerem dividir seus serviços em dois ambientes distintos: um totalmente privado e criptografado, e outro voltado à comunicação em larga escala, com maior moderação.
