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abr 30, 2026 | Destaques, Notícias

Quase metade dos jovens de periferias brasileiras acredita que IA contribui para ampliar desinformação

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A percepção de que a inteligência artificial tem ampliado a desinformação já alcança 44% dos jovens das periferias brasileiras. Em contraste, apenas 17% enxergam a tecnologia como aliada no combate às fake news, enquanto 18% consideram que ela exerce um papel neutro. Outros 21% não souberam opinar.

Os dados fazem parte da pesquisa EntreVistas: percepções das juventudes periféricas de Belém, Natal e São Paulo na era da (des)informação, lançada pelo Aláfia Lab em parceria com a S19 – Associação 19 de Setembro. O estudo ouviu jovens das classes C, D e E para compreender como eles se informam, interpretam o cenário político e social e lidam com fenômenos como desinformação, educação midiática e inteligência artificial.

O estudo  revela um cenário marcado por desconfiança, circulação acelerada de conteúdos enganosos e crescente preocupação com os impactos das novas tecnologias sobre a vida cotidiana.

Redes sociais concentram o acesso à informação

O levantamento aponta que redes sociais e aplicativos de mensagem se consolidaram como a principal porta de entrada para a informação entre os jovens periféricos. No campo político, o consumo de informação acontece de maneira híbrida: a mídia tradicional aparece como principal fonte para 28% dos entrevistados, seguida pelas redes sociais (25%) e pela busca ativa de informações sobre candidatos durante períodos eleitorais (25%).

Ao mesmo tempo em que ocupam lugar central na rotina informacional dessas juventudes, as plataformas digitais também são vistas como espaços de intensa circulação de conteúdos enganosos.

A familiaridade com o tema da desinformação é ampla: oito em cada dez jovens afirmam já ter ouvido falar tanto em “fake news” quanto em “desinformação”, enquanto apenas 7% dizem nunca ter tido contato com nenhuma das expressões. Ainda assim, a pesquisa identifica uma diferença importante entre os termos. “Fake news” é muito mais reconhecido e utilizado pelos entrevistados, o que sugere uma compreensão mais popularizada — embora nem sempre aprofundada — sobre o fenômeno.

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IA ganha espaço no cotidiano, mas também gera desconfiança

A pesquisa mostra que ferramentas de inteligência artificial já fazem parte da rotina digital dessas juventudes. Mais da metade dos jovens entrevistados (53%) afirma já ter utilizado o ChatGPT, enquanto 36% dizem usar o Gemini. Apenas 21% responderam nunca ter utilizado ferramentas de IA ou não souberam responder.

Uma das jovens entrevistadas, que não foi identificada, admite: “Eu até uso um pouquinho… Ela [ferramenta de IA] cria a partir dos nossos comandos, então a gente fala o que a gente quer e acaba criando. Não perfeitamente igual a pessoa, mas já faz bastante coisa”.

O acesso é recorrente: 28% afirmam utilizar ferramentas de inteligência artificial diariamente e 23%, semanalmente. Os dados indicam que a IA já ocupa espaço relevante nos hábitos de busca, produção e consumo de informação entre jovens periféricos.

O estudo também investigou como os jovens identificam conteúdos produzidos por inteligência artificial. Os resultados indicam que a percepção desses materiais ainda está fortemente associada a falhas técnicas visuais e sonoras.

Entre os entrevistados, 40% afirmam reconhecer imagens ou vídeos gerados por IA por meio de erros de continuidade ou detalhes estranhos — como mãos deformadas, objetos inconsistentes ou problemas no fundo das imagens. Outros 19% dizem desconfiar quando a imagem “parece perfeita demais”, enquanto 19% identificam conteúdos artificiais pela voz ou fala robotizada.

Apenas 11% afirmam identificar esse tipo de material a partir da análise do conteúdo do que foi dito, o que indica que a leitura crítica sobre narrativas e contextos ainda aparece menos do que a observação de falhas técnicas.

Durante os grupos focais realizados nas três cidades, os jovens relataram preocupação com a rápida evolução dessas ferramentas e reconheceram que os sinais utilizados hoje para detectar conteúdos sintéticos tendem a desaparecer à medida que os sistemas se tornam mais sofisticados e realistas.

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Verificar, denunciar e bloquear

Quando entram em contato com conteúdos considerados falsos ou enganosos, os jovens dizem adotar diferentes estratégias de reação. A mais frequente é tentar verificar a informação, prática citada por 48% dos entrevistados.

Também aparecem entre as respostas denunciar o conteúdo à plataforma (28%) e bloquear o perfil responsável pela publicação (24%).

O debate sobre responsabilização das plataformas apareceu com uma diversidade de opiniões. Enquanto uma participante afirma: “Eu não sou muito favorável à regulamentação de nada. Porque eu acredito que a liberdade de expressão é muito importante para todos os indivíduos no geral.”, outra alega que responsabilidades são necessárias no atual cenário desinformativo. “Falta política pública de regulamentações e fiscalização para esse tipo de conteúdo, porque além de tudo, além das fake news, além dos conteúdos impróprios que são passados, tem crianças etc., vários e diversos públicos que usam essas redes sociais”, afirma.

A pesquisa mostra ainda que os jovens enxergam caminhos distintos para enfrentar a desinformação. Um quarto dos entrevistados (25%) defende leis mais rígidas para punir quem dissemina conteúdos falsos. Já 20% consideram que ações de educação midiática e conscientização são a melhor forma de combate ao problema.

Outra jovem entrevistada reflete sobre a dificuldade que pessoas idosas podem sofrer com o uso de tecnologias. “Os mais velhos têm mais dificuldades em mexer no celular. Hoje em dia é tudo digital, então eu ajudo eles. O letramento digital é importante nisso. Ensinar”, comenta.

Juventudes periféricas no centro da pesquisa

Com abordagem quali-quantitativa, o estudo reuniu grupos focais e uma pesquisa de opinião com mais de 500 jovens. Um dos diferenciais da pesquisa foi o caráter participativo do processo. Quinze estudantes de cursinhos populares de Belém, Natal e São Paulo participaram diretamente da formulação das perguntas, da construção metodológica e da interpretação dos resultados.

Segundo Liz Nóbrega, coordenadora de comunicação estratégica do Aláfia Lab, discussões com os estudantes foram produtivas ao longo da produção da pesquisa. “Sempre buscamos fazer oficinas bem participativas, com alguns textos norteadores para incluir uma formação no processo. Ao mesmo tempo, ouvimos as vivências deles. Conversamos sobre o que eles encontram nas redes e como eles reagem para que pudesse construir uma pesquisa mais alinhada com suas realidades.” 

Ao longo de cinco meses, os alunos passaram por um percurso formativo voltado à educação midiática e à pesquisa científica. Foram realizados 16 encontros online com oficinas sobre plataformas digitais, inteligência artificial, dinâmicas da desinformação e métodos de pesquisa quantitativos e qualitativos.

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