A liberdade de imprensa no mundo atingiu em 2026 seu pior patamar desde a criação do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), há 25 anos. Entre os 180 países avaliados, mais da metade (52,2%) aparece agora em situação considerada “difícil” ou “muito grave” para o exercício do jornalismo, um salto expressivo em relação a 2002, quando esse grupo representava apenas 13,7% dos territórios analisados. O dado aprofunda um alerta já emitido pela organização no ano passado, quando a média global caiu para abaixo dos 55 pontos.
“Estados autoritários, poderes políticos cúmplices e incompetentes, atores econômicos predatórios e plataformas insuficientemente reguladas são direta e amplamente responsáveis pelo declínio global da liberdade de imprensa”, afirma Anne Bocandé, diretora editorial da RSF, ao comentar a deterioração contínua registrada pela entidade.
O levantamento mostra que o enfraquecimento da liberdade de imprensa não está concentrado apenas em regimes autoritários ou zonas de guerra. Segundo a RSF, democracias também vêm ampliando restrições ao trabalho jornalístico por meio de mecanismos legais, perseguição política, asfixia econômica e falhas persistentes na proteção a profissionais da mídia.
Criminalização do jornalismo e violência agravam quadro global
Nesta edição, o indicador legislativo teve a pior deterioração entre os cinco critérios usados pela RSF para medir a liberdade de imprensa: político, jurídico, econômico, social e de segurança. Em 110 dos 180 países avaliados, houve piora no ambiente legal para o jornalismo entre 2025 e 2026, em um movimento que a organização define como uma crescente criminalização da atividade.
Na prática, isso significa o avanço de leis de segurança nacional, normas antiterrorismo, dispositivos contra “notícias falsas” e processos judiciais usados para intimidar, censurar ou prender jornalistas. A RSF aponta que o fenômeno, antes mais associado a regimes fechados, passou a se consolidar também em países formalmente democráticos.
Ao mesmo tempo, conflitos armados e violência política seguem impondo custos severos à imprensa. Países como Sudão (161º), Iêmen (164º), Iraque (162º), e Palestina (156º) permanecem entre os cenários mais hostis, enquanto ditaduras como Eritreia (180º), Coreia do Norte (179º) e China (178º) mantêm níveis extremos de repressão.
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Nas Américas, o relatório chama atenção para uma inflexão negativa. Os Estados Unidos (64º) perderam sete posições em meio ao recrudescimento dos ataques políticos à imprensa sob o governo de Donald Trump. Já países latino-americanos como Equador (125º), Peru (144º) e El Salvador (143º) registraram quedas acentuadas impulsionadas por assassinatos de jornalistas, repressão estatal e fortalecimento do crime organizado.
Brasil sobe no ranking, mas avanço convive com entraves estruturais
Na contramão de parte do continente, o Brasil avançou 11 posições no ranking deste ano e passou da 63ª para a 52ª colocação. A melhora reforça uma tendência de recuperação observada pela RSF desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, após o período de hostilidade aberta à imprensa marcado pelo governo de Jair Bolsonaro.
Segundo a organização, o atual governo promoveu uma “normalização das relações entre as organizações estatais e a imprensa”, reduzindo a confrontação institucional que havia se tornado recorrente nos anos anteriores. Ainda assim, a RSF ressalta que o país segue distante de um ambiente plenamente seguro e saudável para o jornalismo.

Os dados por indicador ajudam a explicar esse movimento ambíguo. O Brasil melhorou de forma significativa no contexto econômico, passando da 66ª para a 56ª posição; no arcabouço jurídico, saindo da 71ª para a 53ª colocação; e no indicador sociocultural, com salto da 86ª para a 63ª posição. Isso sugere redução de parte das pressões institucionais, legais e sociais que vinham comprometendo o trabalho da imprensa.
Por outro lado, o país permaneceu estagnado no indicador político, mantendo a 42ª colocação, e apresentou piora no quesito segurança, caindo da 78ª para a 81ª posição.
Na leitura da RSF, isso revela que, embora a relação entre governo federal e mídia tenha se tornado menos conflituosa, persistem problemas mais profundos, como a violência estrutural contra jornalistas, a fragilidade dos mecanismos de proteção, a alta concentração privada no setor de comunicação e o peso contínuo da desinformação no debate público.
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Menos de 1% da população mundial vive hoje em ambiente favorável para a imprensa

O mapa traçado pela RSF em 2026 mostra que a erosão da liberdade de imprensa deixou de ser episódica para se tornar sistêmica. Se há 25 anos cerca de 20% da população mundial vivia em países classificados como de situação “boa” para o jornalismo, hoje esse percentual caiu para menos de 1%.
No topo do ranking, a Noruega permanece pelo décimo ano consecutivo como o país com melhores condições para a imprensa. Na outra ponta, a Eritreia segue na última colocação pelo terceiro ano seguido. A maior recuperação foi registrada pela Síria (141ª), que subiu 36 posições após a queda do regime de Bashar al-Assad.
Por dentro dos indicadores
Para calcular a posição de cada país, a Repórteres Sem Fronteiras considera cinco indicadores que medem as condições de exercício do jornalismo.
- Indicador político: avalia a autonomia da imprensa diante de pressões de governos e outros grupos de poder, além da capacidade de fiscalização sobre autoridades.
- Indicador jurídico: examina se as leis protegem ou restringem a atividade jornalística, incluindo censura, sanções, acesso à informação e proteção de fontes.
- Indicador econômico: observa o impacto de interesses financeiros, verbas públicas, anunciantes e proprietários na independência editorial.
- Indicador sociocultural: mede pressões sociais e culturais que estimulam hostilidade ou limitam a cobertura de determinados temas.
- Indicador de segurança: analisa os riscos físicos, psicológicos e profissionais impostos a jornalistas, como ameaças, violência, vigilância, prisões e intimidações.
A pontuação final de cada país é uma média dos 5 indicadores, podendo variar de 0 a 100, sendo que valores mais altos indicam ambientes mais favoráveis ao exercício do jornalismo.
