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Entrevista | Colômbia tem campanha eleitoral “carregada de desinformação” e uso de IA

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Com as eleições legislativas já realizadas em 8 de março e o primeiro turno presidencial marcado para o próximo dia 31, a Colômbia vive um ciclo eleitoral tenso e atravessado por um ecossistema informacional cada vez mais hostil. Nas pesquisas, Iván Cepeda, do governista Pacto Histórico, lidera com 44,3% das intenções de voto, mas a direita, representada pelo outsider radical Abelardo de la Espriella (21,5%) e pela senadora uribista Paloma Valencia (29,8%), pressiona por uma alternância de poder.

Para entender esse cenário, o *desinformante conversou em março com José Felipe Sarmiento, diretor do Colombiacheck. Jornalista e mestre em Estudos da Paz, ele chegou ao cargo depois de sete anos percorrendo todas as funções editoriais da organização.

O Colombiacheck integra o Consejo de Redacción, organização sem fins lucrativos que reúne mais de 100 jornalistas associados para promover o jornalismo investigativo na Colômbia, e é signatário da IFCN, a Rede Global de Fact-checkers, que certifica iniciativas comprometidas com os princípios internacionais de verificação.

Ao *desinformante, Sarmiento fez um diagnóstico inquietante. Inteligência artificial generativa já está sendo usada para retratar candidatos de esquerda vestidos de guerrilheiros e para forjar declarações de adversários sobre ateísmo e homossexualidade. Uma nova lei restritiva de pesquisas de opinião criou um vazio informativo rapidamente preenchido por sondagens fabricadas, metodologias opacas e dados de plataformas de apostas online. E, pela primeira vez, é o próprio presidente da República quem alimenta, de forma deliberada e sistemática, suspeitas de fraude eleitoral.

De acordo com o jornalista, a sociedade civil que deveria fazer frente a tudo isso está enfraquecida. O corte de recursos internacionais obrigou organizações de checagem e observação eleitoral a reduzir equipes e atividades. A resposta, diz Sarmiento, tem sido a colaboração, apesar das dificuldades.

Leia abaixo a entrevista completa com José Felipe Sarmiento.



*desinformante: Com base na experiência do Colombiacheck em ciclos eleitorais anteriores, quais são os principais riscos de desinformação que vocês antecipam para as eleições de 2026 na Colômbia?


José Felipe Sarmiento: Infelizmente, estamos enfrentando uma campanha muito carregada de desinformação, tanto para atacar diferentes candidaturas quanto para gerar dúvidas em relação ao sistema eleitoral.

A principal novidade, do ponto de vista técnico, é logicamente o uso ampliado de inteligência artificial generativa (IAG) em narrativas para as quais antes eram mais comuns as montagens tradicionais. Por exemplo, ela tem sido usada para apresentar um candidato de esquerda vestido de guerrilheiro, também para atribuir declarações ao principal candidato da direita sobre seu suposto ateísmo ou para mostrá-lo em situações associadas à homossexualidade.

Outra diferença em relação às campanhas anteriores é que, com a aprovação de uma nova Lei de Pesquisas em 2025, o exercício dessas medições foi muito mais limitado. O vazio informativo, sobretudo nos meses em que estiveram vetadas, foi preenchido com mais sondagens informais, dados sem contexto nem fonte, supostos cálculos com IA baseados em informações de redes sociais com metodologias opacas e informações de uma plataforma digital estrangeira de apostas online. Em alguns casos, a difusão desses conteúdos como supostas “pesquisas” foi alimentada pelas próprias campanhas presidenciais ou por jornalistas alinhados.

*desinformante: Quais outros pontos você destaca?

J. F. S.: Um risco enorme é que, diferentemente de outras ocasiões, o Executivo, e sobretudo o presidente da República, está alimentando de forma ativa e premeditada suspeitas de possível fraude com base em mentiras. É uma estratégia que ele historicamente já utilizava, mas agora a faz a partir do poder e não da oposição. Administrações anteriores, embora tenham cometido erros de comunicação que alimentavam narrativas do mesmo tipo, não o faziam de forma sistemática nem evidentemente intencional.

Por fim, o sucesso de várias candidaturas de influenciadores ao Congresso da República nas eleições de 2022 impulsionou partidos de todo o espectro político a reforçar, em suas listas, a presença de pessoas dedicadas à criação de conteúdo digital com muitos seguidores nas redes sociais, algumas já produtoras de conteúdo explicitamente proselitista e outras não. A maioria desses aspirantes tem antecedentes de criar ou difundir desinformação em suas plataformas, sobretudo os que buscam chegar por partidos de direita e ultradireita, caracterizados por alimentar narrativas negacionistas sobre crimes de Estado e discursos de ódio contra pessoas LGBTIQA+ e seus direitos.

*desinformante: Sobre o uso de inteligência artificial no debate político colombiano, como avaliam que isso pode impactar o processo eleitoral?

J. F. S.: Esta é de fato uma das principais novidades da campanha em comparação com as últimas eleições nacionais (nas regionais de 2023 já havíamos visto alguns casos, embora ainda fosse um fenômeno incipiente). Embora muitos dos exemplos sejam sátiras protegidas pela liberdade de expressão, é importante ressaltar que as narrativas de fundo costumam ser anti direitos, estigmatizantes, discriminatórias e até violentas. Isso não é muito diferente do que já se fazia com outras tecnologias, do Paint ao Photoshop, mas amplia muito mais a possibilidade de produzir e difundir esse tipo de conteúdo.

*desinformante: Como está atualmente o nível de polarização política no ambiente digital colombiano? Isso tende a intensificar a circulação de narrativas falsas ou enganosas?

J. F. S.: A Colômbia tem uma ampla gama de opções políticas, o que pode ser visto na composição do Congresso da República. No entanto, as pesquisas preveem que o esquerdista Pacto Histórico e o direitista Centro Democrático, junto com alguns partidos próximos, alguns ainda mais extremos em seus respectivos campos, serão as principais opções e poderão reduzir um pouco o espaço das legendas intermediárias que têm servido de “ponte” nos últimos oito anos.

A violência política, tristemente, não é estranha à nossa história. No ano passado, foi assassinado um pré-candidato presidencial (algo que não acontecia há 30 anos), neste caso de direita, e os conflitos armados que persistem apesar do Acordo de Paz de 2016 com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), fortemente associados a diversas economias ilegais, implicam um risco permanente de escalada, principalmente em regiões periféricas e para populações marginalizadas.

Tudo isso sempre foi um terreno fértil para a desinformação, que ganha ainda mais temperatura com a polarização. Mas também é preciso considerar que as narrativas digitais circulam mais intensamente em ambientes urbanos com melhor acesso à internet e não necessariamente são as mesmas que se disseminam em outros territórios.

*desinformante: A Colômbia está institucionalmente mais preparada para enfrentar campanhas de desinformação do que em eleições anteriores? Que avanços ou lacunas vocês destacariam?

J. F. S.: No caso do Estado, não há muita diferença em relação às eleições anteriores. O marco normativo sobre desinformação e liberdade de expressão não mudou.

Algumas instituições, sobretudo a Registraduría Nacional do Estado Civil (responsável pela organização técnica e logística das eleições), estão mais conscientes do problema e vêm adotando um pouco mais de ação, especialmente em pedagogia preventiva. Isso contrasta, como assinalei antes, com o papel desinformador que está cumprindo a Presidência da República, junto com algumas entidades sob seu controle, incluindo o sistema de meios públicos da nação, a RTVC, convertido em um órgão de propaganda governamental.

RTVC – Sistema de Medios Públicos: é a entidade estatal da Colômbia responsável por produzir, programar e transmitir conteúdos educativos, culturais e informativos em rádio e televisão, além de plataformas digitais.

Esse cenário nos encontra com uma sociedade civil enfraquecida, sobretudo economicamente, pela forte redução dos últimos anos na cooperação internacional, em especial em 2025 com o encerramento da USAID. Organizações como a Missão de Observação Eleitoral (MOE), os veículos que fazemos checagem, entre outras, fomos impactadas e tivemos que reduzir atividades e equipes, o que afetou, entre outras coisas, nossa capacidade de enfrentar a desinformação. Estamos tentando nos recompor por meio da colaboração, com alianças como VerazMente e outras semelhantes, para que nossos esforços sejam menos dispersos diante da escassez de recursos, mas não é fácil.

A USAID, Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, financiava programas de fortalecimento da sociedade civil, liberdade de imprensa e combate à desinformação em dezenas de países, incluindo iniciativas de checagem de fatos e observação eleitoral na América Latina. A agência foi desmantelada em 2025 pela administração Trump, interrompendo abruptamente esses financiamentos. 

*desinformante: Existem indícios de circulação transnacional de desinformação (influência regional ou global) afetando o debate político colombiano? Como vocês monitoram esse fenômeno?

J. F. S.: Claro que há interesses óbvios dos Estados Unidos e de setores alinhados ao atual governo norte-americano (por exemplo, há lideranças de ultradireita abertamente próximas não apenas da ala mais radical do Partido Republicano, mas também do espanhol Vox, do ex-presidente brasileiro Bolsonaro e dos governos de Milei e Bukele).

Também é preciso dizer que a guinada propagandística da RTVC contou com a participação e inclusive a liderança de pessoas com nexos chavistas que trabalharam ou colaboraram com a TeleSur e com a máquina desinformadora do regime venezuelano.

Para além disso, não detectamos campanhas massivas de influência originadas no exterior, pois a maior parte do conteúdo falso ou enganoso que identificamos se origina em contas nacionais.

Leia também >> IA, polarização e desinformação: os desafios das eleições de 2026 na América Latina

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