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ago 5, 2026 | Destaques, Notícias

Fraude sem provas: a arquitetura da desinformação sobre urnas e eleições

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As palavras “fraude” e “urna eletrônica” voltaram recentemente ao centro da agenda pública brasileira, puxadas, principalmente, pela família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). No dia 21 de julho, o presidenciável do Partido Liberal (PL), senador Flávio Bolsonaro (RJ), disseminou informações falsas sobre as urnas eletrônicas durante um encontro com diplomatas em Brasília. Dois dias depois, em 23 de julho, foi a vez do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) lançar suspeitas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro, repetindo uma estratégia semelhante à adotada por seu pai, que está preso após condenação no processo da trama golpista.

Na capital federal, o pré-candidato à presidência disse que as urnas eletrônicas brasileiras teriam a mesma origem das utilizadas pela empresa venezuelana Smartmatic. “Há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela”, compartilhou o senador, citando uma documentação do serviço de inteligência norte-americano, a CIA, sobre possíveis vulnerabilidades no sistema de votação venezuelano.

A alegação foi desmentida pela imprensa brasileira e por agências de checagem. Embora a empresa tenha participado de licitações e prestado outros serviços no Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esclareceu que as urnas utilizadas nas eleições brasileiras nunca foram fornecidas pela Smartmatic.

Já Eduardo Bolsonaro, irmão do pré-candidato à presidência e ex-deputado federal, voltou a lançar suspeitas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro durante uma transmissão ao vivo com o consultor político argentino Fernando Cerimedo, que participou da campanha do presidente Javier Milei.

As declarações às vésperas das eleições brasileiras acendem um alerta: a desinformação sobre urnas eletrônicas e a integridade do pleito ainda continua viva e pode ter efeito concreto no processo que está às vésperas de começar. A pesquisa Meio/Ideia, divulgada nesta quarta-feira, por exemplo, revelou que 74% dos simpatizantes da candidatura de Flávio Bolsonaro desconfiam das urnas eletrônicas em algum grau.

Mas como a desinformação sobre a integridade das eleições brasileiras ganhou tração no debate público nos últimos anos? Qual o papel das plataformas? E como as estratégias mudaram com o tempo? Abaixo, explicamos a arquitetura da dúvida em relação às urnas e às eleições brasileiras.

O ano era 2014. O Brasil vivia um dos segundos turnos mais acirrados da história da redemocratização. A então presidente Dilma Rousseff (PT) foi reeleita com 51,64% dos votos válidos, numa diferença de apenas 3,28 pontos percentuais em relação ao concorrente, Aécio Neves (PSDB). Mas o resultado apertado não foi a única marca daquele pleito.

Ao longo da campanha, narrativas que colocavam em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas começaram a ganhar espaço e atingiram seu auge nas redes sociais durante o mês da votação. Esse movimento foi documentado na tese de doutorado do pesquisador Marcelo Alves, atual professor do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, defendida em 2019 na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Na pesquisa, Alves identifica o ano de 2014 como um ponto de inflexão no ecossistema informacional brasileiro, trazendo mudanças como a perda do alcance hegemônico da imprensa tradicional em relação às plataformas de mídias sociais. É nesse momento também que a polarização entre direita e esquerda e a construção da imagem de Jair Bolsonaro começam a ganhar corpo ao menos no Facebook.

Outro estudo, publicado por pesquisadores doutores para a Fundação Getulio Vargas (FGV), analisou a literatura acadêmica e a disseminação de conteúdos sobre supostas fraudes nas urnas entre 2014 e 2020. Segundo os autores, “o argumento de que a fraude nas urnas e a manipulação eleitoral seriam capazes de perpetuar o PT no poder saiu fortalecido desse ambiente”, marcado por uma discussão pública online cada vez mais “polarizada, radicalizada e intolerante”.

Para entender como essas narrativas se consolidaram, os pesquisadores mapearam mais de 103 mil publicações com links, em língua portuguesa, compartilhadas no Facebook e no YouTube entre 2014 e 2020 que incentivaram a crença em fraudes eleitorais. Eles identificaram que esse tipo de conteúdo atingiu seu maior patamar em 2018, ano da eleição que levou Jair Bolsonaro à Presidência da República.

Exemplo de publicação destacada no estudo da FGV que mostra a mudança da estratégia em 2018 do uso de links com chamada à ação utilizando instrumentos oficiais de consulta pública.

Já o ano de 2020, quando ocorreram as eleições municipais, aparece como o segundo período com maior volume de publicações. Naquele momento, também cresceram conteúdos que convocavam apoiadores a pressionar o Congresso Nacional por mudanças no sistema de votação por meio de mecanismos oficiais de consulta pública.

Os resultados apontam um padrão recorrente: a desinformação sobre a integridade das eleições se intensifica durante os anos eleitorais, mas não desaparece entre um pleito e outro. Ela continua circulando, mantendo elevado potencial de engajamento e alimentando um ambiente permanente de desconfiança sobre o sistema eleitoral brasileiro, formando uma base narrativa que pode ser rapidamente reativada sempre que o contexto político favorece sua disseminação.

Essa tendência também aparece nos levantamentos da Agência Lupa, uma das primeiras agências de checagem do país, que monitora a desinformação eleitoral desde as eleições municipais de 2016. Segundo levantamento do Observatório Lupa, foram produzidas 286 verificações sobre desinformação eleitoral desde aquele pleito. Dessas, 209 (ou 73,1%) envolvem alegações relacionadas às urnas eletrônicas, voto impresso, supostas fraudes, apuração, boletins de urna, código-fonte, Tribunal Superior Eleitoral (TSE), problemas em seções eleitorais e resultados das eleições. 

Reprodução: “Anatomia da desinformação eleitoral” do Observatório Lupa.

A editora-chefe da Agência Lupa, Luciana Corrêa, confirma que essas narrativas deixaram de ser fenômenos restritos aos períodos de campanha. “Em 2024, durante o período pré-eleitoral e eleitoral, a desinformação sobre eleições foi o grande destaque. Mas, em 2025, quando não tivemos eleições no país, esse tipo de conteúdo continuou circulando. Ou seja, trata-se de um tema permanente”.

Os ataques ao sistema eleitoral produziram consequências concretas nos últimos anos. Se nos Estados Unidos, o ataque ao Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2022, ganhou respaldo em alegações falsas de fraude eleitoral, aqui não foi diferente.

Enquanto presidente do país, entre 2019 e 2022, Bolsonaro chegou a atacar as urnas 183 vezes. O questionamento ao processo eleitoral também foi utilizado como campanha sistemática durante as eleições presidenciais de 2022 e deu respaldo para os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Golpistas invadem prédios públicos na praça dos Três Poderes. Vandalos na rampa de acesso do Palácio do Planalto. Foto: Joedson Alves/Agencia Brasil

Jair Bolsonaro foi declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação ao difundir informações falsas sobre o sistema eleitoral e, mais tarde, acabou condenado e preso no âmbito das investigações sobre a trama golpista.

No Brasil, um deputado estadual também já teve seu mandato cassado por desinformação sobre o processo eleitoral. Fernando Francischini, deputado estadual eleitoral pelo Pará em 2018, foi cassado pelo TSE em 2021 por divulgar notícias falsas contra o sistema eletrônico de votação.

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As recentes declarações de Flávio e Eduardo Bolsonaro sobre a integridade das eleições brasileiras não surgem isoladamente. Tampouco representam uma estratégia inédita. Esse cenário se repete em diferentes países das Américas e adapta um repertório que ganhou projeção internacional após a campanha Stop the Steal, utilizada por Donald Trump para contestar o resultado das eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2020. 

Segundo Luciana Corrêa, a fala de Flávio Bolsonaro reproduz justamente essa lógica de utilizar fatos reais, porém descontextualizados, para alimentar suspeitas sem apresentar evidências.

“Ele fez referência a uma desinformação que também foi utilizada por Trump. O relatório da CIA existe, é verdadeiro e cita a empresa venezuelana. Mas eles deixam de dizer que esse mesmo relatório não comprova fraude nem apresenta elementos que indiquem que a empresa venezuelana possa interferir ou manipular eleições fora da Venezuela.”  Luciana Corrêa.

Alexsander Chiodi, doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e analista de dados do Instituto Democracia em Xeque, explica que essa estratégia vem sendo apropriada por diferentes lideranças políticas na América Latina. “Tem um padrão internacional, e isso vem de uma exportação dos Estados Unidos não só para o Brasil, mas para a América Latina como um todo. É um discurso modulado de acordo com a realidade de cada país.”

Ele explica que, embora os sistemas eleitorais sejam diferentes, a lógica permanece semelhante: adaptar as acusações às características institucionais de cada país para construir, antecipadamente, uma narrativa de ilegitimidade caso o resultado das urnas seja desfavorável. “É como uma vacina: a narrativa fica preparada para ser utilizada caso perca. Caso ganhe, tudo bem”, avaliou.

Em reportagem publicada no início deste ano, o *desinformante mostrou que especialistas já apontavam que campanhas de desinformação voltadas a desacreditar os sistemas de votação provavelmente voltariam a ganhar força nas eleições latino-americanas de 2026. A previsão se confirmou nas recentes eleições da Colômbia e do Peru e já havia sido observada, em 2025, durante os pleitos no Equador e no Chile

O atual ciclo de desinformação sobre a integridade das eleições brasileiras começou a ganhar força após um pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 17 de julho. Na ocasião, ele voltou a defender alegações já desmentidas sobre supostas fraudes nas eleições presidenciais norte-americanas de 2020 e mencionou um relatório da CIA sobre as eleições venezuelanas de 2012.

A partir daí, perfis nas redes sociais passaram a sustentar, sem provas, que a próxima fraude a ser revelada seria a das eleições brasileiras de 2022, mostra relatório do Instituto Democracia em Xeque.

Outro levantamento do Instituto Democracia em Xeque revelou que o pronunciamento de Trump impulsionou a circulação dessas narrativas entre perfis da extrema direita brasileira. Depois da fala de Flávio Bolsonaro, o tema ganhou novo fôlego e alcançou seu maior pico de menções nas redes sociais. A maior parte das publicações, contudo, foi de defesa do sistema eleitoral e de repúdio às declarações do senador.

“Depois da fala do Flávio, a maior parte do volume das menções às urnas foi de defesa do sistema eleitoral e de repúdio às declarações, que foram vistas como um recall das falas do próprio Jair Bolsonaro em ano eleitoral”, afirma Alexsander Chiodi. 

Especialistas avaliam que as narrativas falsas sobre urnas e processo eleitoral não desapareceram, apenas passaram por um processo de adaptação. “Havia uma expectativa de que um candidato do PL não retomasse essa narrativa. Mas isso já aconteceu. Embora o Flávio tenha dito que não levantou suspeitas sobre as urnas, foi justamente isso que ele fez: um ataque ao sistema de votação”, explica Luciana Corrêa. 

Alexsander Chiodi avalia que a responsabilização judicial, sobretudo dos envolvidos no 08 de janeiro de 2023, elevou o custo político de acusações diretas de fraude, mas não eliminou a estratégia. “O custo da desinformação hoje é muito maior. O foco deixou de ser denunciar uma suposta fraude e passou a ser pedir lisura, melhores apurações e mais segurança.” 

Segundo ele, a narrativa hoje se apoia menos em acusações explícitas e mais na construção de dúvidas sobre a confiabilidade do processo eleitoral. Nesse contexto, ganha força a defesa de uma suposta “validação internacional” das eleições brasileiras, sobretudo por autoridades ou instituições dos Estados Unidos.

“É pedir para que outros venham aqui ver como funciona o sistema. É um pouco parecido com o que aconteceu em 2022, quando se buscava atribuir às Forças Armadas um papel de fiscalização do processo eleitoral. A ideia continua sendo encontrar alguém que diga que existe a possibilidade de fraude e, com isso, capitalizar politicamente.”

Estátua da Justiça em frente ao STF. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Para Rodrigo Carreiro, co-diretor executivo do Aláfia Lab, a resposta das instituições brasileiras foi importante, mas não suficiente para desmontar a base social que sustenta esse tipo de discurso. 

“Em parte, o sistema judicial brasileiro conseguiu dar respostas aos acontecimentos do 8 de janeiro, que foi o extremo da polarização e a concretização do discurso antissistema. Porém, acredito que esse discurso apenas adormeceu e, em 2026, já acordou. Isso ficou evidente na fala de Flávio Bolsonaro.”

Carreiro avalia que o cenário atual traz um elemento novo em relação aos pleitos anteriores: a atuação mais explícita de atores estrangeiros no debate político brasileiro. 

“O que piorou neste ano é a tentativa clara de interferência estrangeira, tanto do ponto de vista ideológico quanto por ações concretas de governos de outros países, principalmente dos Estados Unidos. Ainda que a população tenha vivenciado o 8 de janeiro e conheça esses discursos, vivemos em um país extremamente polarizado, e isso faz com que essas narrativas continuem encontrando espaço.”

Essa semana, o TSE iniciou uma campanha de conscientização sobre a urna eletrônica. A chamada “Semana nacional do Sistema Eletrônico de Votação” acontece entre os dias 3 a 9 de agosto com ações para ampliar o conhecimento da população sobre o funcionamento, a segurança e a transparência da urna eletrônica.

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