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O cabo de guerra dos data centers: empresas aumentam impacto ambiental e comunidades resistem

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Os custos ambientais da corrida global pela inteligência artificial (IA) voltaram ao centro do debate.Nas últimas semanas, Google, Amazon e Microsoft – algumas das principais empresas do setor –divulgaram seus relatórios anuais de sustentabilidade apontando um mesmo cenário: apesar dos avanços em eficiência energética e dos investimentos em fontes renováveis, o consumo de eletricidade, água e as emissões de gases de efeito estufa seguem crescendo em ritmo acelerado, impulsionados principalmente pela expansão dos data centers que sustentam os modelos de IA. 

Os documentos chegam em um momento em que diferentes países começam a questionar os limites dessa expansão. Na última semana, o estado de Nova York tornou-se o primeiro dos Estados Unidos a suspender, por até um ano, a construção de novos data centers de grande porte, enquanto comunidades brasileiras ampliam a resistência à instalação desses empreendimentos em estados como Ceará, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

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Os impactos em números

Os relatórios ambientais divulgados neste mês por grandes empresas de tecnologia oferecem um retrato da dimensão física da inteligência artificial. Embora cada companhia utilize indicadores próprios e destaque estratégias distintas para reduzir seus impactos, todas convergem em um ponto: a infraestrutura necessária para sustentar a IA continua crescendo mais rapidamente do que os ganhos de eficiência obtidos até agora.

O caso do Google chama atenção pela velocidade desse avanço. Em 2025, a demanda por eletricidade da empresa aumentou 37%, enquanto as emissões de gases de efeito estufa cresceram 18%, o maior salto anual já registrado pela companhia.

O consumo de água também bateu recorde, alcançando 10,9 bilhões de galões, mais que o dobro do registrado em 2021, com os data centers respondendo pela maior parte desse aumento. Ao divulgar os resultados, a empresa reconheceu que a rápida expansão da IA representa uma nova realidade para suas metas climáticas e afirmou que o crescimento da tecnologia “não deve servir como justificativa para reduzir os padrões ambientais”.

Na Amazon, as emissões cresceram mais de 16% no último ano, impulsionadas principalmente pelo aumento de 34% no consumo de eletricidade associado à expansão da infraestrutura digital. Pela primeira vez, a empresa também informou o volume de água utilizado por seus data centers: 2,48 bilhões de galões.

Embora destaque melhorias na eficiência hídrica dessas instalações, o relatório reforça uma tendência observada em todo o setor: a capacidade instalada para IA cresce mais rapidamente do que as reduções proporcionadas por ganhos tecnológicos.

Sinais semelhantes foram apresentados pela Microsoft. As emissões totais da empresa aumentaram 25%, enquanto o consumo de eletricidade cresceu 24%. Um dos dados mais expressivos foi o salto de 945% nas emissões relacionadas à eletricidade adquirida, resultado de uma mudança na estratégia de compra de energia limpa, que passou a priorizar investimentos em novos projetos de geração renovável.

Ainda assim, a própria diretora de sustentabilidade da companhia reconheceu que as soluções ambientais atualmente disponíveis “não estão crescendo rápido o suficiente para acompanhar a expansão da infraestrutura de IA”.

Quando os data centers chegam ao território

A publicação quase simultânea dos relatórios ambientais das três empresas evidencia um paradoxo que tende a marcar os próximos anos da inteligência artificial. Se por um lado elas reforçam compromissos com a transição energética e defendem o potencial da IA para enfrentar desafios ambientais, de outro os seus próprios indicadores mostram que a expansão dessa tecnologia vem exigindo volumes cada vez maiores de eletricidade, água e infraestrutura física.

No Brasil, o avanço dos data centers acompanha um movimento global de busca por locais capazes de oferecer grandes volumes de energia, disponibilidade de água e segurança para novos investimentos. Embora a maior parte dos projetos ainda esteja em fase de licenciamento, o trabalho do jornalismo investigativo, de organizações da sociedade civil e das próprias comunidades evidenciam os impactos que esses empreendimentos podem provocar nos territórios. 

O estado do Ceará se tornou um dos principais símbolos dessa discussão. Em Caucaia, onde o TikTok pretende instalar um data center, o povo indígena Anacé só tomou conhecimento do empreendimento após uma reportagem do Intercept Brasil. A comunidade, segundo a repórter Laís Martins, não foi submetida ao processo de consulta livre, prévia e informada antes do avanço do projeto.

A partir daí, os indígenas Anacé passaram a reivindicar acesso às informações sobre o empreendimento e participação nas decisões relacionadas ao projeto. 

Mobilização pública no Ceará

Em julho, uma audiência pública realizada pelo Ministério Público do Trabalho, em Fortaleza, reuniu representantes de comunidades, pesquisadores, órgãos públicos e movimentos sociais para discutir os impactos socioambientais dos data centers voltados à IA e da infraestrutura que costuma acompanhá-los, como linhas de transmissão, parques eólicos, usinas solares e empreendimentos de mineração.

Audiência Pública realizada pelo MPT-CE. Imagem: MPT-CE

A atividade integrou uma missão da Relatoria de Inteligência Artificial do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) e do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos do Ceará (CEDDHC), que investigam denúncias relacionadas à instalação desses empreendimentos no estado. Antes da audiência, a missão realizou oitivas em Caucaia para ouvir comunidades tradicionais e moradores potencialmente afetados pelos projetos. 

Para Laís Martins, a principal mudança observada nos últimos meses está na forma como a população passou a enxergar esses empreendimentos. 

“A ficha está começando a cair no Brasil de que eles não são empreendimentos livres de impacto e de que as promessas com as quais eles chegam, de emprego, renda e progresso, não se cumprem”, afirma.

Na avaliação da repórter, esse processo foi influenciado tanto pela crescente mobilização registrada nos Estados Unidos quanto pela repercussão dos primeiros casos brasileiros. “Comunidades que estão para receber data centers começam a ligar isso ao que está acontecendo lá fora e passam a se questionar sobre esses empreendimentos”, explica.

Muito além das big techs

Outro aspecto que vem recebendo atenção é o número de setores econômicos envolvidos nessa corrida da IA. Além das empresas de tecnologia, o mercado financeiro e o setor de energia são apontados como atores centrais. 

“Enquanto no resto do mundo as empresas procuram energia para alimentar essas infraestruturas, no Brasil estamos vendo o movimento inverso: empresas de energia procurando data centers para consumir o excedente de energias renováveis que existe principalmente no Nordeste”, observa Laís Martins.

Em reportagem publicada na semana passada, o Intercept Brasil mostrou que um data center em Uberlândia será instalado em um terreno pertencente a um fundo imobiliário administrado por empresas ligadas ao escândalo do Banco Master. 

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Resistência em outros estados

Movimentos organizados em municípios como Pindamonhangaba (SP) e Uberlândia (MG) e no estado do Rio Grande do Sul, onde moradores e representantes políticos passaram a cobrar maior transparência sobre os impactos ambientais e econômicos dos data centers.

Entre os dias 25 e 29 de março de 2026, a Relatoria de IA do CNDH realizou uma missão no Rio Grande do Sul para discutir os projetos previstos para Eldorado do Sul e Charqueadas. 

A partir da análise do megaprojeto Scala AI City, planejado para o município de Eldorado do Sul, o grupo apontou preocupações relacionadas ao elevado consumo de energia, capaz de representar parcela significativa da demanda elétrica do estado, além do uso intensivo de água, que pode atingir níveis comparáveis ao consumo de parte relevante da população local. 

No caso de Uberlândia, ocorreu uma audiência pública mobilizada pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para discutir o assunto. 

Audiência pública sobre data-centers realizada em Minas Gerais. Imagem: Guilherme Dardanhan

Para Laís, um dos principais efeitos do jornalismo investigativo tem sido justamente oferecer informações que permitam às comunidades e legisladores questionarem as promessas apresentadas pelas empresas. “É mostrar que a empresa promete, por exemplo, três mil empregos, mas que, na prática, depois de pronto, o data center vai empregar cerca de 50 pessoas.”

Na avaliação da repórter, esse trabalho ajuda não apenas a qualificar o debate público, mas também a pressionar empresas e autoridades a prestar mais informações sobre empreendimentos que costumam ser negociados antes mesmo que as populações potencialmente afetadas tenham acesso aos detalhes dos projetos. “As empresas que quiserem desenvolver data centers vão ter que conversar com as comunidades, apresentar os projetos e prestar mais contas.”

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