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Eleitores pedem checagem de fatos ao vivo no último debate presidencial

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Após o debate entre os candidatos à presidência da república Luís Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na Band, no último domingo (18), e às vésperas do último confronto entre os candidatos antes do segundo turno, marcado para a noite desta sexta-feira (23), na TV Globo, usuários passaram a reivindicar nas redes sociais a adoção de checagem de fatos ao vivo nos debates eleitorais. Um abaixo-assinado com mais de 1 milhão de assinaturas pede que a TV Globo adote o recurso já neste debate. Em resposta à repercussão, a Globo anunciou que o projeto Fato ou Fake fará verificações durante o debate, mas as publicações serão disponibilizadas em seus sites, e não exibidas na televisão.

No abaixo-assinado é argumentado que o debate da Band foi marcado pela “desinformação e propagação de fake news, mesmo na presença de jornalistas experientes”. Segundo o texto, a circulação de informações falsas “não apenas afeta o resultado das eleições, mas também enfraquece a confiança das pessoas em nosso sistema democrático”.

A dimensão do problema também aparece na checagem realizada pela Agência Lupa sobre o debate: foram identificadas ao menos 11 informações falsas nas declarações dos candidatos, além de outras 19 consideradas descontextualizadas, exageradas, subestimadas ou sem sustentação.

“Este procedimento [checagem de fatos ao vivo] garantiria que, ao assistir um debate, o público possa perceber imediatamente se um candidato está deturpando dados ou apresentando informações incorretas”, traz o abaixo-assinado.

A emissora, porém, não adotará o formato reivindicado. Segundo a emissora, o Fato ou Fake – seu projeto de checagem – publicará as primeiras verificações durante o debate nos sites do g1, de O Globo, do Valor Econômico e do Extra, além da rádio CBN. Uma equipe de mais de 30 jornalistas acompanhará as declarações dos candidatos, selecionará afirmações verificáveis e as classificará como #FATO, #FAKE ou #NÃOÉBEMASSIM. O trabalho continuará durante a madrugada, e a GloboNews exibirá um programa especial após o confronto para apresentar os resultados da apuração.

Pesquisadora analisa importância do debate e da checagem

Para Liz Nóbrega, jornalista, doutoranda em Comunicação na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e diretora de Estratégia e Inovação do Aláfia Lab, os debates eleitorais continuam sendo espaços importantes para a democracia, pois permitem que os eleitores conheçam as propostas dos candidatos e observem como eles interagem, ao vivo e sem os cortes e filtros das redes sociais.

Esse papel, porém, vem sendo afetado por mudanças na dinâmica das campanhas. Segundo a pesquisadora, os debates têm perdido espaço para a contraposição de propostas e se tornado, em alguns casos, oportunidades para os candidatos produzirem conteúdo para suas redes sociais, em vez de efetivamente confrontarem suas ideias com as dos adversários.

Nesse contexto, Liz considera relevante discutir a adoção da checagem de fatos durante as transmissões. Como os moderadores têm a função de conduzir o debate, e não necessariamente de questionar cada declaração, os candidatos podem apresentar informações sem um contraponto imediato. “O telespectador fica muito à mercê do que é dito”, avalia.

Embora as agências de checagem já verifiquem declarações feitas em debates há anos, esse trabalho costuma ser publicado em seus próprios sites, exigindo que o público procure as informações por conta própria. Para Liz, incorporar a checagem à transmissão permitiria que os espectadores tivessem acesso às verificações no momento em que as declarações são feitas.

A pesquisadora pondera, entretanto, que implementar esse modelo exige planejamento e responsabilidade editorial. A checagem demanda tempo e nem sempre pode acompanhar a velocidade de uma transmissão ao vivo, especialmente porque os jornalistas não sabem antecipadamente quais afirmações serão feitas nem quais argumentos os candidatos apresentarão.

“É algo que também precisa ser visto com muito cuidado e parcimônia”, afirma. Para ela, é fundamental garantir o rigor da apuração e evitar verificações imprecisas ou que não apresentem todos os elementos necessários para contextualizar uma declaração. O desafio, portanto, é encontrar formas de oferecer informações confiáveis durante o debate sem comprometer a qualidade da checagem.

Checagem ao vivo em debate não é novidade

A checagem de fatos durante debates eleitorais não é inédita. Em setembro de 2024, no debate presidencial entre Donald Trump e Kamala Harris nos Estados Unidos, os moderadores da emissora ABC corrigiram informações falsas apresentadas pelos candidatos enquanto a transmissão ainda estava no ar.

Trump classificou o debate como uma disputa de “três contra um”, em referência a Harris e aos dois moderadores. Integrantes do Partido Republicano também acusaram a ABC de parcialidade. As reações ilustraram uma dificuldade enfrentada por iniciativas de checagem em debates: a correção de informações falsas pode ser apresentada por candidatos e aliados como uma forma de favorecimento político, mesmo quando se baseia em informações verificáveis.

A experiência reacendeu no Brasil a discussão sobre o papel das emissoras diante de declarações falsas em debates eleitorais. Na época, a jornalista Tai Nalon, fundadora do Aos Fatos, defendeu, em uma análise publicada pela agência, que os debates brasileiros incorporassem a checagem ao vivo.

Para ela, as emissoras tinham capacidade de adaptar o formato e precisavam se comprometer com a valorização da verdade factual durante as transmissões e defendeu que a checagem ao vivo pode contribuir para debates mais informativos e proteger o próprio jornalismo, desde que seja sustentada por pesquisa sistemática, fontes confiáveis e revisão humana.

Nalon argumentou ainda que a checagem feita ao vivo ajuda a distinguir erros de informações deliberadamente falsas e impede que candidatos usem o espaço do debate para disseminar alegações enganosas sem contestação. Também destacou que a prática exige preparação prévia: para verificar declarações com agilidade, as equipes precisam pesquisar políticas públicas, reunir dados e documentar fontes antes dos eventos.

O próprio Aos Fatos já protagonizou uma experiência de checagem em ao vivo no Brasil, em 2024, no programa Roda Viva, da TV Cultura. Na ocasião, a redação do Aos Fatos enviava as verificações durante as entrevistas dos candidatos à Prefeitura de São Paulo, e a apresentadora Vera Magalhães lia as conclusões ao vivo para corrigir informações ou acrescentar contexto ao que era dito.

Agência Lupa também defende a implementação da checagem ao vivo

Em editorial publicado em 19 de outubro, a Agência Lupa defendeu a adoção da checagem de fatos ao vivo nos debates eleitorais e afirmou que a ausência desse recurso não decorre da falta de interesse das agências, mas de obstáculos políticos, comerciais e jurídicos. Segundo a organização, há mais de uma década são feitas tentativas de negociar o modelo com emissoras e organizadores, mas as conversas frequentemente esbarram na resistência das campanhas.

A Lupa relata que as negociações já avançaram até a apresentação de propostas como a exibição de alertas na tela, intervenções de checadores entre os blocos e resumos das principais informações falsas após os programas. Em muitos casos, porém, os organizadores recuaram diante da oposição dos candidatos.

Para a agência, a preocupação com a igualdade de tratamento entre candidaturas não deve impedir a verificação de declarações. “Tratamento isonômico não significa necessariamente resultados iguais”, argumenta o editorial, que defende a aplicação dos mesmos critérios de checagem a todos os participantes, ainda que o número de correções seja diferente.

A Lupa reconhece que o modelo exige critérios transparentes, planejamento e cuidados jurídicos, além de admitir que nem toda afirmação pode ser verificada imediatamente. Essas dificuldades, contudo, não justificam abrir mão da iniciativa. “A verificação de fatos precisa fazer parte desses encontros, não como uma concessão dos candidatos, mas como um compromisso dos organizadores com o público”, afirma a agência.

Agências de checagem mantêm cobertura durante o debate

Além da cobertura do Fato ou Fake, as agências Lupa e Aos Fatos seguirão verificando declarações dos candidatos em seus sites oficiais e redes sociais. A Lupa também compartilhará checagens ao vivo em seu canal de transmissão no WhatsApp, com cards e links para facilitar o acesso às verificações durante o debate.

As duas agências integram o Programa Permanente de Enfrentamento à Desinformação da Justiça Eleitoral e participam da iniciativa de franquia zero nas 48h antes do pleito e nas 24h depois, que permite acessar gratuitamente, sem consumir dados móveis, os sites do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e de agências de checagem vinculadas ao programa. A medida, que já foi implementada no primeiro turno, também estará disponível durante o segundo turno, e busca facilitar a consulta a informações verificadas em um período decisivo para as eleições.

Universidades e entidades jornalísticas organizam checagem de fatos ao vivo

A mobilização em torno da checagem nos debates também estimulou outras iniciativas. A Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação), a Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) farão uma checagem ao vivo, com transmissão pelos canais da Fenaj e da RNCD no YouTube.

Já uma equipe formada por professores e estudantes do curso de Jornalismo da Universidade de São Paulo (USP) acompanhará o debate em uma transmissão paralela pelo canal do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) no YouTube, a partir das 21h. Nos intervalos, professores da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP) também farão análises críticas do confronto.

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