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maio 29, 2026 | Destaques, geral, Notícias

FIB 2026: soberania digital, IA e conectividade amazônica marcam debates

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Na última semana, Belém recebeu, pela segunda vez, o Fórum da Internet no Brasil (FIB), principal evento multissetorial sobre governança da internet no país. Promovida pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), a 16ª edição ocorreu entre os dias 25 e 29 de maio, no Hangar Convenções e Feiras da Amazônia, com transmissão online pelo canal do NIC.br no YouTube. 

Ao longo de cinco dias, o FIB reuniu pesquisadores, representantes do governo, sociedade civil, empresas e comunidade técnica para discutir os rumos da governança digital brasileira. A programação evidenciou como temas ligados à internet e à tecnologia passaram a ocupar posição central em debates sobre soberania nacional, democracia, segurança pública, desenvolvimento econômico, meio ambiente e direitos humanos.

Uma atividade do Aláfia Lab teve destaque no dia zero do Fórum ao promover o debate “Juventude periférica, pesquisa-ação e eleições 2026: formação crítica como estratégia de combate à desinformação”, em parceria com a Associação 19 de Setembro. O encontro reuniu pesquisadores, educadores e estudantes envolvidos no projeto “Educação Midiática, Direitos Humanos e Periferia” para discutir como jovens periféricos consomem informação, percebem a desinformação e se relacionam com tecnologias digitais e inteligência artificial.

Durante a atividade, foram apresentados resultados do estudo “EntreVistas: Percepção das juventudes periféricas de Belém, Natal e São Paulo na era da (des)informação”, que apontou que 23% dos jovens entrevistados utilizam ferramentas de inteligência artificial como fonte de informação, percentual superior à média identificada em outras pesquisas nacionais.

Em atividade paralela ao fórum, o Aláfia Lab também realizou na Univerisdade Federal do Pará (UFPA), em parceria com a Data Privacy Brasil, o seminário “IA nas eleições: impactos na desinformação e na violência política de gênero”, que debateu os impactos da inteligência artificial generativa sobre a integridade eleitoral, a circulação de desinformação e a violência política de gênero, especialmente diante do avanço do uso dessas ferramentas por campanhas e atores políticos.

Soberania digital no centro do debate

A soberania digital foi um dos conceitos mais recorrentes da programação. Em um contexto marcado pelo avanço da inteligência artificial, pelas disputas geopolíticas envolvendo infraestrutura tecnológica e pela crescente dependência de grandes plataformas estrangeiras, o tema apareceu associado à autonomia tecnológica do país, à proteção de dados e ao controle sobre infraestruturas críticas.

Na sessão principal Mecanismos multissetoriais para Soberania Digital brasileira, o professor da Universidade Federal do ABC, Sérgio Amadeu, destacou o avanço da concentração global de infraestrutura digital nas mãos dos Estados Unidos.

“Em 2020, os Estados Unidos concentravam 39% dos data centers de hiperescala do planeta. Quatro anos depois, esse número subiu para 54%, numa estratégia clara de liderança em inteligência artificial”, afirmou. Segundo Amadeu, iniciativas de soberania de dados vêm sendo diretamente confrontadas pelo governo norte-americano, especialmente na América do Sul.

Os debates também relacionaram soberania digital à expansão da infraestrutura física da internet, incluindo data centers, mineração e recursos estratégicos para a indústria tecnológica.

No workshop Da Terra à CPU: minérios raros e sustentabilidade na infraestrutura física da Internet, Julivânia Olegário, diretora do Departamento de Desenvolvimento Sustentável na Mineração do Ministério de Minas e Energia, explicou que embora o Brasil possua uma das maiores reservas de terras raras do mundo, isso não significa capacidade imediata de produção ou autonomia tecnológica.

“O Brasil é muito forte na extração mineral, mas ainda engatinha quando se trata de agregar valor e transformar esses recursos em produtos de maior complexidade tecnológica”, afirmou.

A representante do MME também destacou que o país ainda carece de uma política consolidada para minerais críticos e estratégicos e defendeu a criação de políticas públicas capazes de estimular o desenvolvimento tecnológico nacional e a verticalização da cadeia produtiva.

“Se os recursos minerais pertencem à União, os benefícios econômicos dessa exploração também precisam ser compartilhados com a sociedade”, disse.

Inteligência artificial, fraudes e deepfakes

A inteligência artificial atravessou diferentes debates do Fórum e apareceu associada a temas como desinformação, transparência algorítmica, trabalho, segurança digital e proteção de crianças e adolescentes.

A centralidade do tema dialoga diretamente com o cenário político nacional, marcado por disputas em torno do Projeto de Lei 2338/2023, que propõe um marco regulatório para a inteligência artificial no Brasil.

No painel Deepfakes e golpes financeiros: quando a realidade paralela vira risco real, Anna Martha, do Instituto de Ciência e Tecnologia do Itaú (ICTi), destacou que o uso malicioso de deepfakes representa um desafio crescente para instituições financeiras. Segundo ela, o avanço recente das ferramentas de geração de imagens e vídeos sintéticos reduziu drasticamente as barreiras técnicas para criação de fraudes sofisticadas.

“Hoje existe uma combinação inédita entre técnicas de deep learning e métodos avançados de geração de imagens, o que ampliou significativamente os riscos relacionados a fraudes digitais”, explicou.

A pesquisadora citou dados do Banco Central que apontam que 25 dos 33 incidentes de segurança registrados nos últimos cinco meses estavam relacionados a fraudes. Ressaltou também que sistemas de detecção enfrentam dificuldades diante da velocidade com que novas técnicas de manipulação são desenvolvidas. “Existe uma dinâmica constante de ‘gato e rato’ entre quem produz as fraudes e quem tenta detectá-las”, afirmou.

Proteção de crianças e adolescentes

A proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital também ocupou espaço central na programação, especialmente após a aprovação do chamado ECA Digital (Lei nº 15.211/2025) e da Lei nº 15.100/2025, que restringe o uso de celulares nas escolas.

As discussões evidenciaram dúvidas sobre a implementação prática das novas normas, incluindo temas como verificação etária, responsabilização de plataformas e moderação de conteúdo.

No painel Combate às deepfakes contra crianças e adolescentes: respostas multissetoriais ao IA CSAM, Gustavo Souza, especialista em Estratégia de Inteligência Artificial no PNUD/ONU, alertou para o crescimento de redes organizadas de produção e circulação de conteúdo sexual envolvendo crianças e adolescentes gerado por inteligência artificial. “Muitos abusadores utilizam imagens reais de crianças e adolescentes disponíveis nas redes sociais para transformá-las em conteúdos pornográficos gerados artificialmente”, afirmou. 

Souza destacou que, embora as ferramentas tenham mudado, a legislação brasileira já prevê punição para esse tipo de prática. “O foco da legislação é o dano causado. Não importa se alguém utilizou Photoshop, inteligência artificial generativa ou qualquer outra ferramenta: o crime continua sendo crime”, disse.

Amazônia, conectividade e desigualdade digital

A Amazônia ocupou papel central nos debates do Fórum. A escolha de Belém como sede do evento reforçou uma tentativa de aproximar as discussões sobre governança digital da realidade amazônica, em um contexto marcado pelos debates da COP30 que ainda reverberam no território e pela crescente centralidade da região nos debates globais sobre clima.

Painéis sobre inclusão digital, infraestrutura regional e conectividade significativa evidenciaram que o acesso à internet permanece profundamente desigual, especialmente na região Norte. 

No painel Conectividade & Inclusão Digital na Amazônia Brasileira, pesquisadores do Cetic.br apresentaram os primeiros resultados de um estudo sobre conectividade e inclusão digital na Amazônia, que busca produzir indicadores mais precisos sobre acesso à internet na região.

Já na mesa Entre rios e redes: a disputa da infraestrutura digital na Amazônia, Samilly Valadares, do Instituto Perpetuar, defendeu que o debate sobre conectividade precisa partir da realidade dos territórios tradicionais. “A Amazônia também é negra e quilombola. Não faz sentido discutir conectividade sem considerar os territórios e as comunidades que historicamente foram colocadas à margem”, afirmou.

Segundo ela, o debate sobre infraestrutura digital precisa considerar desigualdades históricas relacionadas à titulação de territórios, acesso à energia elétrica e ausência de políticas públicas. “Hoje existem comunidades quilombolas, indígenas e rurais sem acesso à energia elétrica. Não é possível discutir conectividade ignorando essa realidade”, disse.

Valadares também criticou o avanço de grandes projetos econômicos sobre territórios tradicionais sem que as comunidades tenham acesso digno à infraestrutura digital. “As Amazônias não podem continuar sendo tratadas como zonas de sacrifício e expropriação”, afirmou.

Diversidade e justiça social

A edição de 2026 também evidenciou uma crescente incorporação de pautas ligadas à justiça social na agenda da governança da internet brasileira.

Debates sobre raça, gênero, periferias, acessibilidade, educação midiática, juventude periférica e população LGBTQIAPN+ apareceram em diferentes atividades, indicando um esforço de ampliar a discussão sobre inclusão digital para além da infraestrutura técnica.

O Fórum da Internet no Brasil funciona como etapa preparatória nacional para o Fórum de Governança da Internet (IGF), encontro global promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), que neste ano chega à sua 21ª edição e será realizado entre os dias 14 e 18 de dezembro, em Nairóbi, no Quênia. 

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