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mar 27, 2026 | Destaques, Notícias

Plataformas de mensageria assumem papel central no debate sobre desinformação e eleições

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As plataformas de mensageria privada, como Whatsapp, Telegram e Signal, deixaram de ser apenas espaços de conversas individuais. Hoje, funcionam como verdadeiras infraestruturas de informação, e, cada vez mais, como canais estratégicos para campanhas de desinformação.

É o que aponta o novo relatório do Forum on Information and Democracy (FID), lançado neste mês, que identifica soluções para a proteção da integridade da informação em plataformas de mensageria privadas. O documento reúne evidências de diferentes países e propõe caminhos para lidar com um problema crescente: o uso de aplicativos de mensagem privada como vetores de manipulação informacional, especialmente em contextos eleitorais.

Segundo o relatório, esses ambientes combinam escala, rapidez e criptografia, criando um cenário paradoxal: se tornaram essenciais para a comunicação privada e a organização social, mas também são “cada vez mais explorados como vetores de desinformação, manipulação estrangeira e comportamento coordenado inautêntico” .

Quando o privado vira público

Uma das principais conclusões do relatório é que a distinção entre comunicação privada e pública está se tornando cada vez mais difusa.

Grupos com milhares de membros, listas de transmissão e canais com audiência ilimitada permitem que conteúdos circulem em escala massiva, mas com aparência de comunicação pessoal. Esse modelo cria o que o relatório chama de “cadeias de amplificação invisíveis”, nas quais mensagens “podem alcançar milhares de pessoas em minutos, frequentemente por meio de intermediários confiáveis” . E esse fenômeno tem impacto direto em processos eleitorais.

Estudos citados no relatório mostram que campanhas coordenadas utilizam três estratégias principais:

  • uso de funcionalidades de “broadcast” para simular comunicação orgânica;
  • exploração de contas comerciais para envio massivo de conteúdo político;
  • redes de perfis falsos (“sock puppets”) para criar sensação de consenso.

O efeito é significativo: em uma pesquisa com usuários de aplicativos de mensagem em nove países, 52% disseram que conteúdos políticos recebidos nesses ambientes influenciaram suas opiniões .

No Brasil, o relatório dialoga diretamente com evidências empíricas. Dados do Aláfia Lab, citados no documento, mostram que, durante as eleições municipais de 2024:

  • 17% dos links compartilhados no WhatsApp continham desinformação;
  • esse número chegou a 40% em conteúdos sobre o Supremo Tribunal Federal;
  • houve padrões claros de coordenação e amplificação;
  • conteúdos opinativos foram frequentemente apresentados como notícias, com manchetes enganosas.

A pesquisa também identificou estratégias sofisticadas de engano, como textos parcialmente verdadeiros usados para dar credibilidade a narrativas falsas, um padrão que reforça a dificuldade de moderação nesses ambientes.

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Arquitetura que favorece a desinformação

O relatório argumenta que o problema não está apenas nos conteúdos, mas no próprio design das plataformas.

A lógica de funcionamento desses aplicativos privilegia a velocidade e a circulação horizontal de informações, dificultando qualquer tipo de monitoramento externo. Como resume o documento, trata-se de um ambiente que “espelha o alcance das redes sociais, mas difere em termos de responsabilização, já que sua circulação é amplamente invisível” .

Além disso, novos elementos agravam o cenário:

  • Monetização da desinformação: modelos baseados em engajamento incentivam conteúdos sensacionalistas;
  • Publicidade: a falta de transparência no mercado de anúncios pode financiar desinformação;
  • Inteligência artificial: ferramentas de IA generativa podem tornar campanhas mais baratas, rápidas e convincentes.

O relatório alerta que essas transformações “modificam o caráter ‘privado’ dessas plataformas” e evidenciam que a regulação atual “não está adequada ao cenário” .

Limites da regulação e o papel da educação midiática

Regular plataformas de mensageria segue sendo um dos maiores desafios apontados pelo relatório. De um lado, a criptografia de ponta a ponta é essencial para a proteção de direitos fundamentais, mas também limita a capacidade de monitoramento e moderação, tornando inviáveis medidas como a varredura automática de mensagens sem comprometer a segurança dos usuários. De outro, a ausência de definições claras sobre o que é “público” ou “privado” gera uma fragmentação regulatória entre países, criando uma “zona cinzenta” que dificulta a responsabilização das plataformas.

Diante dessas limitações, muitos governos têm apostado na educação midiática como principal resposta, buscando fortalecer a capacidade crítica dos usuários. O relatório, no entanto, alerta que, embora indispensável, essa estratégia não é suficiente por si só: sem enfrentar os mecanismos estruturais de viralização e amplificação, a resiliência social tende a operar sempre em desvantagem frente à escala e à velocidade da desinformação.

Recomendações

O relatório propõe uma série de recomendações voltadas a governos e plataformas, com foco em soluções apontadas como proporcionais e compatíveis com direitos fundamentais.

Entre os principais pontos estão:

Para governos

  • Regular funcionalidades (como encaminhamento e canais), e não plataformas inteiras;
  • Definir com clareza o que é “público” e “privado”;
  • Proteger a criptografia;
  • Exigir maior transparência das plataformas;
  • Investir de forma contínua em educação midiática;
  • Fortalecer a cooperação internacional.

Para plataformas

  • Separar claramente funções de mensagem privada, transmissão pública e IA;
  • Reduzir a viralização (por exemplo, limitando encaminhamentos);
  • Combater contas falsas e redes coordenadas;
  • Criar ferramentas de verificação dentro dos aplicativos;
  • Apoiar iniciativas de fact-checking, como “tiplines”;
  • Ampliar a transparência e o acesso a dados para pesquisadores.

O relatório também sugere que plataformas considerem dividir seus serviços em dois ambientes distintos: um totalmente privado e criptografado, e outro voltado à comunicação em larga escala, com maior moderação.

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