Nas últimas semanas, o termo “machosfera” ganhou notoriedade nas redes sociais devido a uma nova onda de casos de repercussão envolvendo crimes de misoginia, violência contra mulheres e o envolvimento de influenciadores do gênero “coach de masculinidade” nesses episódios. Mentorias, venda de cursos e outros produtos digitais voltados aos homens são uma das principais características desse movimento crescente, que tem como base o desprezo às mulheres e estímulo à insurgência masculina.
Lançado em dezembro de 2024, o relatório “Aprenda a Evitar ‘Esse Tipo’ de Mulher”: Estratégias Discursivas e Monetização da Misoginia no YouTube”, do NetLab UFRJ, ganha nova relevância em 2026, já que entre os 137 canais de YouTube que veiculavam conteúdo com discurso de ódio sobre as mulheres naquele ano, 123 deles seguem disponíveis na plataforma.
Os dados atualizados mostram não apenas a permanência desses conteúdos, mas também sua expansão. Em 2024, os canais somavam pouco mais de 19,5 milhões de inscritos. Em 2026, esse número ultrapassa os 23 milhões — um crescimento de cerca de 18,5%, com mais de 3,6 milhões de novos seguidores. A produção também se intensificou: são atualmente cerca de 130 mil vídeos publicados, 25 mil a mais do que no levantamento anterior.
Para a pesquisadora do NetLab UFRJ, Luciane Belin, o crescimento não indica apenas aumento de público, mas também falhas na moderação das plataformas. “O crescimento de inscritos mostra que conteúdos misóginos seguem circulando e sendo monetizados, mesmo quando utilizam termos explícitos para atacar mulheres. Isso indica que, mesmo quando violam os termos do YouTube, alguns canais não são afetados pela moderação”, afirma.
A análise da série histórica mostra que esse crescimento é recente e acelerado: embora o vídeo mais antigo identificado seja de 2018, 88% das publicações ocorreram a partir de 2021, com um salto mais expressivo desde 2023. Apenas entre janeiro de 2023 e abril de 2024, concentram-se cerca de 52% de todo o corpus analisado, evidenciando a rápida intensificação dessas narrativas nos últimos anos.
Mesmo com a remoção de 14 canais, que juntos concentravam 1,37 milhão de inscritos, o ecossistema segue ativo e em crescimento. Parte dessa permanência se dá por estratégias de adaptação: ao menos 20 canais mudaram de nome desde 2024 e passaram a retirar referências explícitas à “machosfera”, dificultando sua identificação.
O que é misoginia em rede?
No Brasil, a chamada “Lei Lola” (Lei 13.642/2018) atribui à Polícia Federal a investigação de crimes que disseminam misoginia na internet. A legislação entende como conteúdo misógino aquele que promove o ódio, o desprezo ou a inferiorização das mulheres em ambientes digitais.
Nesse contexto, pesquisadores utilizam o conceito de “misoginia em rede” para descrever um fenômeno que vai além de publicações isoladas: trata-se de uma misoginia que se dissemina em ecossistemas interconectados de plataformas, comunidades e algoritmos, com forte capacidade de amplificação e engajamento.
A lógica da machosfera
Entre as principais vertentes da misoginia em rede identificadas no relatório está a chamada “Red Pill”, uma subcultura que parte da premissa de que os homens estariam vivendo sob uma suposta dominação feminina e precisariam “despertar” para essa realidade. O termo faz referência ao filme Matrix, no qual o protagonista escolhe uma pílula vermelha para enxergar a “verdade”. No ambiente digital, essa ideia é apropriada como uma falsa filosofia que distorce relações de gênero e legitima discursos de ressentimento.
Outra sigla recorrente é MGTOW (“Men Going Their Own Way”, ou “homens seguindo seu próprio caminho”), que representa grupos que defendem o afastamento total de relações com mulheres como resposta a uma suposta opressão contra os homens. Segundo esta perspectiva, os homens seriam os verdadeiros subjugados devido ao seu gênero, pois a sociedade estaria organizada de maneira a beneficiar as mulheres.
No mapeamento temático realizado pelo estudo, o eixo predominante da machosfera brasileira no YouTube gira em torno de relacionamentos e sexualidade, frequentemente associados a narrativas de controle, disseminando uma visão de que é preciso diminuir e menosprezar a mulher para conquistá-la.
Homens com posturas progressistas ou que defendem igualdade de gênero são frequentemente classificados de forma pejorativa nesses espaços, com termos que os associam à fraqueza ou submissão, como “beta”, “gado” e “escravoceta”.
Plataformas e monetização
O relatório aponta que a própria arquitetura do YouTube pode favorecer a disseminação desse tipo de conteúdo. Sistemas de recomendação baseados em engajamento tendem a impulsionar vídeos mais polarizadores, criando ciclos de consumo que reforçam visões extremas e ampliam o alcance de narrativas tóxicas.
Além disso, há um modelo estruturado de monetização. Canais da machosfera lucram por meio de anúncios, clubes de membros, venda de ebooks e mentorias, muitas vezes baseados na promessa de sucesso amoroso ou financeiro.
Crescimento e padrões
A pesquisa, desenvolvida com apoio do Ministério das Mulheres, utilizou técnicas de análise computacional e qualitativa para examinar mais de 76 mil vídeos e identificar padrões discursivos e comunidades associadas.
Para preservar a segurança das pesquisadoras e evitar a amplificação dos canais analisados, o laboratório não divulga a lista completa dos perfis mapeados. Ainda assim, o protocolo metodológico está disponível publicamente, permitindo a replicação dos achados.
Os dados reforçam um cenário em que a misoginia não apenas persiste, mas se adapta, cresce e se monetiza, colocando desafios cada vez maiores para plataformas digitais, pesquisadores e desenvolvedores de políticas públicas no enfrentamento à violência de gênero online.
Para Belin, os efeitos desse ecossistema vão além do ambiente digital. “Esse tipo de conteúdo naturaliza o ódio e comportamentos violentos contra mulheres, fazendo parecer aceitável que elas sejam punidas ou subjugadas. Não à toa, vemos o crescimento de índices de violência de gênero, incluindo feminicídios e agressões em diferentes espaços”, afirma.
