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Valter Campanato/Agência Brasil

nov 26, 2025 | Destaques, geral, Notícias

Desinformação sobre prisão de Bolsonaro ganhou as redes nos últimos dias

Valter Campanato/Agência Brasil
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Nesta terça-feira (25), o Supremo Tribunal Federal concluiu o processo de trama golpista envolvendo Jair Bolsonaro e confirmou o cumprimento da sua pena de 27 anos e 3 meses. Desde sábado (22), o ex-presidente estava preso preventivamente devido a violação da tornozeleira eletrônica que usava e pela convocação de uma vigília pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O episódio gerou uma disputa de narrativas nos aplicativos de mensagens e nas redes sociais, dividindo apoiadores e opositores entre acusações de perseguição e defesa da legalidade da medida.

De acordo a Palver, empresa especializada em monitoramento e análise de redes sociais e plataformas de mensagens, grupos bolsonaristas inicialmente defenderam, no Whatsapp e Telegram, que não teria ocorrido qualquer tentativa de violação da tornozeleira, mas sim um mau funcionamento – e que a ação de Moraes seria excessiva. 

Após a divulgação de um vídeo de Bolsonaro confessando a violação do equipamento, o discurso dos apoiadores do ex-presidente mudou: a evidência foi questionada e indicada como gerada por inteligência artificial. Mais de 38% dos usuários que falaram sobre o tema em cerca de 100 mil grupos analisados, entre 21 e 23 de novembro, continuaram negando que o ex-presidente tenha tentado violar a tornozeleira mesmo após a confissão.

Publicações nas redes sociais também têm gerado desinformação nesse cenário. Posts com o conteúdo falso acumulavam mil compartilhamentos no X e dezenas de compartilhamentos no Facebook e de curtidas no Instagram até a tarde desta segunda-feira (24), segundo a agência de checagem Aos Fatos. Usuários argumentam que Bolsonaro acionou agentes de segurança para realizar a troca de sua tornozeleira eletrônica após constatar a falta de bateria do dispositivo. No TikTok, um vídeo com cerca de 50 mil visualizações sugere que o registro da tornozeleira com marcas de queimadura foi gerado por inteligência artificial.

Essas afirmações vão de encontro ao relatório da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seape) do Distrito Federal. O documento aponta que agentes se deslocaram até a residência do ex-presidente por volta da meia noite do último sábado (22) após alerta de violação da tornozeleira emitido pelo Cime (Centro Integrado de Monitoração Eletrônica). Bolsonaro, que estava em regime domiciliar desde 4 de agosto, foi levado pela PF sob justificativa de garantia da ordem pública.

Segundo a Agência Lupa, três linhas de discurso baseiam o cenário da repercussão: 

  • uma comoção de tom fúnebre, centrada em especulações sobre o estado de saúde de Bolsonaro;
  • uma caça às bruxas interna, marcada por ataques a aliados apontados como “traidores”; 
  • e uma onda conspiratória, que alimenta a hipótese de um possível assassinato na prisão.

IA turbina ambiente de desinformação após a prisão

O Aos Fatos também identificou conteúdos adulterados com IA, criados para potencializar o ambiente desinformativo. “São mentirosos os vídeos que afirmam que Trump mandou expor a bandeira do Brasil na Times Square, em Nova York, em um gesto de apoio a Bolsonaro”, apontou o projeto jornalístico. Os posts adulteram um vídeo da jornalista Renata Vasconcellos, inserindo uma voz falsa sobre a chamada da edição do dia 14 de julho de 2025 e editaram uma fala de Roberto Cabrini, veiculada na edição de 19 de agosto de 2024.

Ainda no sábado (22), repórteres pediram que Trump comentasse sobre a prisão. Ele, no entanto, disse não estar sabendo dos últimos acontecimentos no Brasil. “Foi isso o que aconteceu? Acho isso uma pena”.

Integrante do Observatório de IA nas eleições, projeto lançado nesta semana e desenvolvido pelo Aláfia Lab e Data Privacy Brasil, a repórter Ethel Rudnitzki afirma que casos como este se aproveitam da possibilidade de gerar conteúdos hiper realistas para manipular a opinião pública em um contexto de pré-campanha. A jornalista também reflete que, com a popularização de ferramentas de geração de imagens por IA, como o Sora 2, Veo 3 e a Meta AI, é possível observar que quase todos os grandes acontecimentos políticos de 2025 foram acompanhados pela criação de conteúdo sintético nas redes sociais –  e no caso da prisão do Bolsonaro não foi diferente.

“Grandes acontecimentos políticos sempre foram seguidos de publicações desinformativas, porém a popularização das ferramentas de IA tem o agravante de trazer conteúdos mais difíceis de serem desmentidos, manipulando a realidade mais profundamente”, pontua. 

Outro recurso utilizado pelos bolsonaristas foi a descontextualização de vídeos antigos. Duas gravações virais mostram protestos que teriam sido realizados contra a prisão preventiva. Em uma delas, o que parece ser o engarrafamento causado pela suposta manifestação, é na verdade a comemoração do título da Copa do Mundo Sub-20 pelo Marrocos. Na ocasião, o país venceu a Argentina por 2 a 0 em partida disputada no Chile.

A fé como escudo da vigília

Uma onda alternativa de conteúdos foi focada no discurso de perseguição religiosa no país. Em sua conta do X, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez uma postagem afirmando que “oração virou crime”, se referindo à vigília que ocorreu onde o ex-presidente cumpria prisão domiciliar. Em um grupo de apoiadores do ex-presidente no Telegram, que tem 32 mil membros, um dos vídeos que circularam na manhã do último domingo (23) diz que “gente orando virou ameaça ao Estado (…) Agora, versículo virou crime, versículo virou golpe”. Outro afirma que “Lula [foi] preso por roubar” e “Bolsonaro [foi] preso por orar”.

Durante entrevista no podcast Café da Manhã, Oscar Vilhena Vieira, professor de direito na FGV argumentou que, apesar das pessoas terem o direito de protestar, o histórico de ação violenta por parte do movimento bolsonarista também foi levado em conta na decisão. “Este foi um elemento mais subjetivo, não há nenhum impedimento para que isso [a vigília] ocorra”, alega. 

STF conclui processo de golpe

Nesta terça-feira (25), Moraes determinou o trânsito em julgado dos processos de Bolsonaro e outros réus do núcleo 1 da trama golpista (Alexandre Ramagem, Anderson Torres e Almir Garnier). Ele iniciará o cumprimento da pena de 27 anos e 3 meses na Superintendência da Polícia Federal. Considerado líder do grupo que tentou executar um golpe de Estado, o ex-presidente também foi condenado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de patrimônio tombado.

Como mostramos em reportagem anterior, a desinformação apareceu de forma recorrente no conjunto de evidências reunido pela Procuradoria-Geral da República (PGR) – desde a live de Bolsonaro em 29 de julho de 2021 até os ataques às sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.

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