O avanço da inteligência artificial e a centralidade de influenciadores digitais estão redefinindo a forma como jovens consomem notícias. Entre pessoas de 18 a 24 anos, o uso de ferramentas de IA para acessar notícias já se destaca: cerca de 15% afirmam utilizar essas tecnologias semanalmente, contra apenas 3% entre pessoas com 55 anos ou mais.
Os dados são de um relatório publicado neste mês pelo Reuters Institute for the Study of Journalism em parceria com a Universidade de Oxford, que analisa como o público jovem consome notícias em um cenário de rápidas transformações. O estudo mostra que, além de mais frequente, o uso de IA entre jovens também é mais sofisticado: quase metade desse grupo (48%) afirma recorrer à tecnologia especificamente para tornar conteúdos jornalísticos mais fáceis de compreender.
Esse comportamento está ligado a uma maior familiaridade geracional com tecnologias digitais. O relatório indica que jovens tendem a enxergar a IA como uma extensão natural de ferramentas já incorporadas ao cotidiano, o que também se reflete em atitudes mais positivas em relação ao uso da tecnologia no jornalismo.
Em cenários hipotéticos, 30% dos jovens dizem se sentir confortáveis com notícias produzidas majoritariamente por IA, e 43% com conteúdos feitos por humanos com apoio da tecnologia, índices significativamente superiores aos observados entre os mais velhos.
O estudo mostra que o uso de chatbots de IA generativa, assim como o consumo de conteúdos de criadores individuais, vem se consolidando como dois novos intermediários na mediação da informação, especialmente entre os jovens. Em muitos casos, ambos operam a partir da reinterpretação, adaptação ou síntese de conteúdos originalmente produzidos por veículos tradicionais.
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Consumo de informação produzida por influenciadores
No caso dos influenciadores, o impacto é direto na atenção do público: entre jovens de 18 a 24 anos que consomem notícias nas redes sociais, 51% dizem prestar mais atenção a criadores ou personalidades, enquanto 39% priorizam veículos jornalísticos e jornalistas. O estudo ressalta que esse ecossistema é diverso e fragmentado, reunindo desde comentaristas com posicionamentos políticos marcados até criadores que se especializam em “traduzir” o noticiário para formatos mais acessíveis.
Embora esse movimento levante preocupações sobre a precisão da informação e a circulação de conteúdos não verificados, o relatório aponta que ele também revela uma demanda clara: jovens querem notícias mais fáceis de navegar, entender e consumir, papel que tanto influenciadores quanto ferramentas de IA começam a ocupar.
Do consumo intencional ao social-first
Esse cenário de maior protagonismo da IA e de criadores individuais se conecta a uma transformação mais ampla na forma como jovens acessam e percebem o noticiário. Segundo o relatório, pessoas de 18 a 24 anos consomem notícias principalmente pelas redes sociais, sendo 39% em 2025, superando sites e aplicativos de veículos jornalísticos, que caíram para 24%.
Nesse ambiente, o contato com o noticiário tende a ser mais incidental, ou seja, ocorre enquanto o usuário está nas plataformas por outros motivos. Apenas 14% dos jovens dizem acessar notícias diretamente em sites ou apps de veículos, bem abaixo dos 40% que chegam a elas via redes sociais. Esse padrão ajuda a explicar a queda no consumo diário de notícias entre jovens, que recuou 15 pontos percentuais desde 2017.
Apesar das mudanças no acesso, as atitudes em relação ao jornalismo não são completamente distintas das de outras faixas etárias, mas apresentam nuances importantes. O relatório mostra que os jovens têm, em média, menor interesse por notícias: 35% dizem estar muito ou extremamente interessados, proporção inferior à observada entre pessoas mais velhas.
Além disso, há uma percepção recorrente de falta de representação, já que uma parcela maior desse grupo avalia que pessoas da sua idade aparecem pouco ou são retratadas de forma injusta na cobertura jornalística.
O estudo indica ainda que entre jovens que dizem evitar notícias, 21% afirmam que elas não parecem relevantes para sua realidade e 15% relatam dificuldade para compreendê-las. Esses índices são superiores aos das faixas etárias mais velhas e ajudam a explicar por que formatos mais explicativos, acessíveis e contextualizados têm ganhado espaço entre esse público.
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Preferência por vídeo, áudio e formatos mais dinâmicos
O relatório aponta ainda mudanças nos formatos dos conteúdos consumidos, com um crescimento consistente da preferência por notícias em vídeo e áudio entre pessoas de 18 a 24 anos. Em 2025, 32% dizem preferir assistir notícias online, proporção maior do que entre os mais velhos.
Esse movimento se reflete no comportamento: 73% dos jovens afirmam consumir vídeos curtos de notícias semanalmente, impulsionados por plataformas como redes sociais e aplicativos de vídeo. Ao mesmo tempo, há maior adesão a podcasts e conteúdos em áudio, muitas vezes consumidos de forma simultânea a outras atividades.
Desafios para o jornalismo
Na conclusão, o relatório aponta que o principal desafio para veículos de imprensa não é a falta de consumo de informação entre jovens, mas a mudança nas formas de acesso, formatos e expectativas. Com a perda de acesso direto e o avanço de redes sociais, criadores e ferramentas de IA como intermediários, empresas jornalísticas enfrentam dificuldades para manter visibilidade, construir relação com o público e gerar receita.
Entre as recomendações, o estudo destaca a necessidade de adaptar formatos, com maior investimento em vídeo, áudio e conteúdos mais dinâmicos, além de explorar o uso de IA para resumir e tornar o noticiário mais compreensível. Também aponta a importância de repensar a própria definição de notícia, incorporando temas, linguagens e abordagens mais relevantes para jovens, sem abrir mão dos princípios do jornalismo.
O relatório conclui que, em um ambiente cada vez mais fragmentado e competitivo, a capacidade de adaptação, experimentação e conexão com as demandas do público jovem será central para a sustentabilidade do setor.
Metodologia do estudo
O relatório se baseia na análise de dados coletados ao longo de mais de uma década pelo Reuters Institute, reunindo pesquisas quantitativas e qualitativas realizadas entre 2013 e 2025. A principal fonte são os levantamentos do Digital News Report, complementados por estudos sobre IA e consumo de notícias, todos conduzidos por meio de surveys online com apoio da YouGov.
A análise combina dados de até 48 países, além de entrevistas qualitativas com jovens, para identificar padrões de comportamento e atitude. O foco está em tendências gerais entre pessoas de 18 a 24 anos, o que permite mapear mudanças ao longo do tempo, embora o próprio relatório reconheça limitações, como a dificuldade de capturar diferenças internas dentro desse grupo e os efeitos geracionais que influenciam o consumo de notícias.
