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out 1, 2021 | Notícias

QAnon: das profundezas da internet ao Capitólio

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O QAnon, que começou como um movimento marginal de teorias da conspiração entre os apoiadores do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump – que a esta altura estava confinado nos cantos mais sombrios da internet, acabou virando um grupo digno de preocupação social e alvo de investigações importantes. O Departamento Federal de Investigação (FBI) chegou a classificá-lo como uma ameaça de terrorismo doméstico em 2019. Ao deslocar ideias marginais para o centro do debate público nos EUA,  Trump acabou por ensinar novas e perigosas lições sobre a manipulação da mídia social e de massa no mundo digital.

Desde então, o QAnon acumula milhões de apoiadores na internet, sendo que uma pequena parte adere a atos de violência. Embora tenha sido relativamente esporádica a violência dos seguidores do QAnon, o ecossistema do movimento é resiliente e há quem defenda que o grupo pode estar se militarizando.

O ataque ao Capitólio dos EUA, realizado em 6 de janeiro de 2021, foi liderado por um membro do grupo, apelidado de “Xamã do QAnon”. Jacob Chansley, da cidade Phoenix no estado de Arizona, ficou conhecido nas manchetes mundiais por ser fotografado dentro do Capitólio sem camiseta, corpo tatuado e usando um cocar com chifres. Chansley é um defensor da teoria da conspiração QAnon que, entre várias hipóteses que propõe, enxerga os membros do partido democrata como uma elite de pedófilos satanistas e canibais e coloca o ex-presidente Trump como uma figura salvadora.

 

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História do QAnon

Durante sua presidência, Trump frequentemente retuitava conteúdo conspiratório ligado ao QAnon. Embora nunca tenha endossado o QAnon publicamente, ele repetidamente se recusou a condenar a teoria da conspiração em entrevistas e chegou a elogiar os seguidores do grupo por seu apoio.

A pesquisadora de desinformação Joan Donovan, da Universidade de Harvard, em entrevista para a revista Nature, afirmou que o QAnon claramente ganhou terreno com Trump nos últimos anos. Sua equipe monitora protestos e comícios políticos que aconteceram nos EUA e identificaram “um crescente interesse ou dedicação a essas ideias”, ela explica.

A conspiração QAnon começou em 2017, quando um usuário anônimo usava a letra “Q” como pseudônimo no fórum da 4chan (um dos grupos mais radicais na internet) para postar mensagens enigmáticas sobre a prisão iminente de Hillary Clinton, que foi candidata a presidência em 2016. O usuário “Q” alegava ser um oficial militar de alta patente e, por isso, teria acesso a informações classificadas sobre oponentes do governo Trump, chegando a acusar pessoas públicas de se envolverem em um círculo internacional de tráfico sexual de crianças.

Até hoje, não se sabe quantas pessoas estavam por trás dessa iniciativa. O jornal norte-americano NBC News descobriu três pessoas que foram responsáveis por iniciar algumas das primeiras conversas sobre a teoria QAnon: o YouTuber TracyBeanz (Tracy Diaz) e os moderadores da 4chan Pamphlet Anon (Coleman Rogers) e BaruchtheScribe (Paul Furber). Ao incitar essas conversas, esses membros do movimento atraíam seguidores e pediam ajuda para financiar a “pesquisa” de QAnon, que seria uma teoria para atrair mais gente. Desde dezembro de 2020 não há mensagens postadas por esse usuário “Q”, mas o movimento QAnon continuou a subsistir por conta própria.

Conspiritualidade: De fonte de inspiração ao domínio de novos grupos

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O movimento QAnon bebe de várias fontes de teorias da conspiração anteriores. Uma dessas é a teoria da Nova Ordem Mundial, estabelecida pelo grupo de direita A sociedade de John Birch, da época da Guerra Fria, que defendia o anti-comunismo, governo limitado e liberdade pessoal. Dentro do mesmo espírito, o pânico satânico da década de 1980, o manifesto “Eis um cavalo pálido” da milícia de Bill Cooper em 1991 e os escritos de David Icke da década de 1990 também serviram de inspiração para o QAnon.

Ao adotar algumas dessas teorias, QAnon conseguiu atravessar os grupos de extrema direita e espalhar as teorias da conspiração em outras comunidades.  Reunindo teorias ligadas à Nova Ordem Mundial, o movimento QAnon conseguiu estabelecer conexões entre praticantes de ioga por exemplo. O “Xamã do QAnon” que atacou o Capitólio dos Estados Unidos, é adepto da dieta orgânica e de ioga.

As teorias da conspiração têm servido por muito tempo como um mecanismo de enfrentamento para lidar com um mundo incerto. Sempre houve crenças espirituais, o que levou a criação do termo “conspiritualidade,” em 2011, pelos pesquisadores Charlotte Ward e David Voas. A pandemia fez crescer novamente o interesse por este tipo de teoria, impulsionando discussões online sobre o tema. Os QAnons aproveitaram esses sentimentos de isolamento, impotência e medo para entrar em outros grupos e dominar as desinformações sobre Covid-19.

Expansão global do QAnon

Apesar da origem nos EUA, o QAnon já se espalhou pelo mundo. Diferente do início, quando era muito ligado a narrativas de pedofilia e rituais satânicos, o grupo passou a se promover através de teorias ligadas a vida cotidiana, disseminando desinformação sobre vacina e sobre o coronavírus, por exemplo.  No Reino Unido, o movimento QAnon se aproveitou das teorias antivacina e anti-reclusão para ganhar apoiadores. Os cartazes do QAnon com o símbolo “Q” puderam ser vistos pela primeira vez na Europa durante manifestações contrárias às restrições pandêmicas nas cidades de Berlim e Paris. Em Londres e Manchester, muitos manifestantes abandonaram o símbolo norte-americano “Q” e usaram faixas conclamando a sociedade: “Salve Nossas Crianças”.

O jornal britânico The Independent noticiou que o número de tuítes relacionados ao QAnon aumentou de 5 milhões em 2017 para 12 milhões em 2020, segundo dados do NewsGuard. Entre essas mensagens, podem ser identificados grupos simpatizantes na Alemanha, Áustria, França, Holanda, Itália, Portugal e Reino Unido. Inclusive, o alemão QAnon rapidamente se tornou o segundo maior grupo, depois dos Estados Unidos.

Alguns “gurus” ajudaram esse movimento a florescer na Europa. O teórico alemão de extrema direita Oliver Janich, por exemplo, alcançou sucesso ao transmitir um vídeo no qual acusa judeus de estarem roubando sangue de crianças, uma referência à crença fundamental do QAnon de que elites nefastas estão sequestrando crianças e bebendo seu sangue em rituais psicodélicos, satânicos ou canibais.

Mas não é só na Europa que o movimento vem ganhando força. Na Austrália, seguidores misturaram as alegações originais relacionadas aos canibais satânicos do governo  com outras teorias de conspiração desacreditadas, como a de que a tecnologia 5G espalha o coronavírus e que a pandemia global foi um evento orquestrado. O movimento também parece estar presente em marchas anti-5G e anti-reclusão australianas.

Em 2019, a versão australiana do The Guardian reportou que Tim Stewart, um teórico da conspiração QAnon, era amigo do primeiro-ministro australiano Scott Morrison. Stewart tuitava sob o usuário de @BurnedSpy34, acumulando 21 mil seguidores em seu primeiro ano ativo. Hoje a conta foi desativada, mas o movimento parece ainda ter influência no governo. Recentemente, o diretor administrativo da ABC, David Anderson, impediu que um programa sobre a influência de QAnon na política australiana fosse ao ar.

 

 

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