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Quase metade dos brasileiros desconfia da mídia tradicional, aponta Painel TIC

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O recém-lançado Painel TIC – Integridade da Informação, produzido pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), revela um cenário de desconfiança relevante no ambiente informacional brasileiro. Segundo o estudo, 48% dos usuários de internet no país afirmam desconfiar das informações produzidas pela mídia tradicional. O índice é ainda mais elevado entre homens (52%) e pessoas com apenas os anos iniciais do Ensino Fundamental (59%).

A pesquisa indica que a confiança tende a ser maior em círculos sociais próximos do que em instituições. Entre os entrevistados, 39% afirmam desconfiar de conteúdos compartilhados por amigos e familiares nas redes sociais, percentual menor do que o registrado para a mídia tradicional. Já em relação a fontes oficiais e mídias públicas, o nível de desconfiança também chega a 39%, mas varia conforme o perfil: atinge 45% entre homens e cai para 32% entre mulheres. Em áreas rurais, esse índice é significativamente menor, chegando a 28%.

O relatório aponta ainda que o acesso à informação no Brasil é amplamente mediado por plataformas privadas, o que contribui para uma experiência informacional fragmentada. Aplicativos de mensagem lideram esse consumo, sendo utilizados diariamente por 60% dos usuários, seguidos por feeds de vídeos curtos (53%), sites ou aplicativos de vídeo (50%) e feeds de notícias em redes sociais (46%).

Nesse contexto, 13% dos brasileiros afirmam acessar notícias exclusivamente por redes sociais ou aplicativos de mensagem, proporção que sobe para 18% nas classes DE e 17% entre jovens de 16 a 24 anos. O estudo sugere que esse padrão pode estar associado a práticas como o zero-rating, em que operadoras permitem o uso de aplicativos como o WhatsApp mesmo após o fim da franquia de dados, limitando a possibilidade de acesso a outras fontes e a verificação de informações fora dessas plataformas.

Embora o indicador não permita identificar a origem dos conteúdos – se produzidos por jornalistas profissionais, influenciadores ou outros atores, os dados dialogam com achados do estudo Desigualdades Informativas 2025, do Aláfia Lab, que aponta mudanças nos hábitos de consumo informacional. No Instagram, por exemplo, a proporção de usuários que seguiam perfis de jornalistas caiu de 41,3% em 2024 para 32,4% em 2025. Entre perfis de meios de comunicação, a queda foi de 46,4% para 35,4% no mesmo período.

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Contato com deepfakes e desafios na identificação

Outro dado que chama atenção no painel é a presença crescente de conteúdos manipulados por inteligência artificial no cotidiano dos brasileiros. De acordo com o estudo, 41% dos usuários relatam ter contato diário com deepfakes – imagens, vídeos ou áudios fabricados para parecerem reais. A percepção desse tipo de conteúdo é mais frequente entre jovens, enquanto apenas 16% das pessoas com mais de 60 anos dizem se deparar com deepfakes várias vezes ao dia.

O relatório ressalta que a capacidade de reconhecer esse tipo de manipulação depende de habilidades digitais prévias. Nesse contexto, 13% dos usuários afirmam não saber se já tiveram contato com deepfakes ou sequer conhecem o termo, percentual que sobe para 20% nas classes DE.

Um dos achados mais relevantes do estudo é que os brasileiros tiveram melhor desempenho ao identificar conteúdos gerados por inteligência artificial do que aqueles produzidos por humanos. A taxa média de acerto foi de 70% para enunciados elaborados por IA, contra 60% para conteúdos de autoria humana. Segundo o painel, a principal dificuldade está justamente em reconhecer informações verdadeiras, o que evidencia o papel central das habilidades digitais no discernimento informacional.

Autoconfiança não reflete capacidade real de identificar desinformação

Outro achado central do relatório é o descompasso entre a percepção dos usuários e sua capacidade efetiva de avaliar informações. Embora 41% dos brasileiros usuários de internet se declarem confiantes ou muito confiantes em sua habilidade de identificar desinformação, os dados indicam que essa segurança não se traduz, necessariamente, em melhor desempenho.

A partir de um exercício de classificação de notícias baseado na Teoria de Resposta ao Item (TRI), o estudo mostra que não há correlação direta entre autoconfiança e acerto. Usuários que se consideram muito confiantes tiveram desempenho inferior à média da população, enquanto aqueles com confiança moderada apresentaram os melhores resultados.

Os dados também revelam uma assimetria na capacidade de julgamento: os brasileiros têm mais facilidade em identificar conteúdos falsos, com taxa de acerto de 72%, do que em reconhecer informações verdadeiras, que registram 59%. Segundo o relatório, esse resultado reforça a importância das habilidades digitais para validar conteúdos confiáveis, considerada a etapa mais desafiadora do processo de discernimento informacional.

Desengajamento marca relação com a verificação de informações

A checagem de conteúdos ainda enfrenta barreiras importantes no Brasil, marcadas por ceticismo e desinteresse, mostra o estudo. Somente um em cada cinco usuários de Internet (20%) demonstra uma postura ativamente “engajada” com a verificação, o que significa que eles discordam da percepção de que checar não é necessário ou eficaz. O engajamento é drasticamente menor entre os jovens de 16 a 24 anos (apenas 10% são engajados) e entre as classes DE (13%), enquanto idosos (30%) e pessoas da classe AB (30%) apresentam maior disposição para verificar conteúdos.

A percepção de que checar não compensa é relativamente disseminada. Cerca de 34% dos brasileiros concordam que não vale a pena investigar se uma informação é verdadeira ou falsa. Outros 33% avaliam que a checagem não muda a opinião das pessoas, enquanto 30% consideram que a polarização torna esse esforço irrelevante.

O estudo também mostra que a baixa verificação não está necessariamente associada a limitações técnicas. Entre os principais motivos apontados estão o esquecimento (36%), a falta de tempo (33%) e a falta de interesse (33%).

Quase metade da população já usa chatbot de IA, mas desconhece a lógica algorítmica

A ampla disseminação das ferramentas de IA no país também é evidenciada no estudo, com 47% dos usuários de internet afirmando utilizar o ChatGPT, enquanto 42% recorrem à inteligência artificial integrada ao WhatsApp. A Meta Ai, integrada ao Whatsapp, se destaca especialmente entre quem acessa a internet exclusivamente pelo celular, sendo mencionada por 38% desse grupo.

Apesar da popularização dos chatbots, ferramentas associadas às formas mais recentes de IA generativa, o estudo aponta uma lacuna importante na compreensão sobre o papel mais amplo da inteligência artificial no ambiente digital. Isso porque a IA não se limita a essas ferramentas: ela também estrutura a lógica algorítmica que organiza buscadores, define os feeds de redes sociais e personaliza conteúdos e respostas.

Essa limitação de entendimento aparece nos dados do painel. Mais da metade dos usuários (56%) acredita que o principal fator que faz um conteúdo circular na internet é o fato de ele ser “interessante”, e não necessariamente confiável. Além disso, 45% consideram que todas as pessoas encontram os mesmos resultados ao realizar buscas no Google, desconsiderando a personalização algorítmica, elemento central para compreender como a informação é distribuída, priorizada e ganha visibilidade nas plataformas digitais.

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