O uso de ferramentas de inteligência artificial já faz parte do cotidiano de milhões de brasileiros, mas ainda ocorre de forma desigual no país. É o que revela a pesquisa “Como os Brasileiros percebem a circulação da desinformação e o uso da Inteligência Artificial?”, realizada pelo Aláfia Lab em parceria com o Instituto IDEIA.
Segundo o levantamento, o uso de IA é mais frequente entre pessoas jovens, de maior renda e com maior escolaridade. Entre brasileiros de 18 a 29 anos, 51% já utilizaram o ChatGPT, enquanto entre pessoas com 45 anos ou mais o índice cai para 35%.
Nas classes altas AB, 58% afirmam usar a ferramenta, contra 29% nas classes mais baixas DE. Entre pessoas com ensino superior, o percentual chega a 58%, mais que o dobro do observado entre aqueles com ensino fundamental (26%). A pesquisa foi realizada entre os dias 24 e 25 de setembro de 2025, com 1.512 entrevistas em todo o Brasil.
A coordenadora da pesquisa, Vivian Peron, argumenta que realizar esta pesquisa às vésperas das eleições é fundamental para compreender como a população utiliza as tecnologias neste contexto.
“Estamos vivendo um momento de rápida expansão das ferramentas de inteligência artificial, com potencial enorme de transformar a produção, circulação e consumo de informação. Pesquisas contínuas e longitudinais permitem acompanhar a evolução do fenômeno ao longo do tempo, identificando tendências, riscos e mudanças de comportamento “, aponta.
Uma outra pesquisa do Aláfia, chamada “Desigualdades Informativas”, lançada no final do ano passado, mostrou que a IA já faz parte da dieta informacional do brasileiro. Pela primeira vez, ferramentas de IA tiveram quase 10% das menções como fonte de informação (9,7%), aproximando-se de jornais impressos (9,5%) e revistas (5,8%).
ChatGPT lidera uso de ferramentas de IA no Brasil
O estudo mostra que o ChatGPT é atualmente o chat de IA mais utilizado no Brasil, citado por 42% dos entrevistados, seguido pelo Gemini, com 25%. Ainda assim, mais de um terço da população (37%) afirma nunca ter utilizado esse tipo de ferramenta.
A pesquisa também aponta que o propósito do uso das tecnologias. Entre as principais finalidades estão: curiosidade e diversão (35%), aprendizado (31%), criatividade (30%), apoio ao trabalho (29%) e solução de problemas (28%).
Desinformação faz parte do cotidiano dos brasileiros
Além de mapear o avanço da IA, o relatório revela que a desinformação segue amplamente presente no cotidiano informacional dos brasileiros. Mais da metade dos entrevistados (55%) afirma encontrar fake news na internet “frequentemente” ou “sempre”, enquanto apenas 15% dizem raramente ou nunca se deparar com esse tipo de conteúdo. A percepção de exposição cresce entre pessoas mais velhas e entre indivíduos com maior escolaridade.
Entre os temas mais associados à circulação de notícias falsas, política e eleições lideram com folga, mencionadas por 43% dos respondentes. Em seguida aparecem conteúdos sobre celebridades, artistas e influenciadores (24%), saúde (23%) e economia (22%). Religião e segurança pública também aparecem entre os assuntos mais citados, ambos com cerca de 18%.
LEIA TAMBÉM >> Dois em cada três conteúdos políticos com IA circulam sem aviso nas redes
O estudo mostra ainda que, embora a maioria dos brasileiros afirme conseguir identificar notícias falsas, a confiança nessa habilidade é limitada. Cerca de 58% dizem identificar fake news “mas com dúvidas em alguns casos”, enquanto apenas 29% afirmam fazer isso com facilidade.
Estratégias de verificação ainda têm baixa adesão
Entre as estratégias mais comuns para reconhecer desinformação estão perceber incoerências na própria notícia (58%) e observar comentários nas redes sociais apontando possíveis erros (48%). Ferramentas especializadas ainda têm baixa adesão: apenas 17% utilizam agências de checagem de fatos e 18% recorrem a aplicativos de verificação de imagens.
Quando se deparam com conteúdos suspeitos, quase metade dos brasileiros (47%) afirma simplesmente ignorar a publicação. Apenas 32% dizem verificar se a informação é verdadeira, e somente 10% relatam denunciar o conteúdo às plataformas digitais.
De acordo com Vivian Peron, coordenadora da pesquisa, a falta de verificação de conteúdos suspeitos enfraquece a capacidade coletiva de enfrentar a desinformação. “Quando grande parte das pessoas apenas ignora conteúdos suspeitos, sem verificar, denunciar ou refletir criticamente sobre eles, o problema tende a permanecer circulando e alcançando outras pessoas. Em uma democracia, isso pode gerar efeitos estruturais negativos, como decisões políticas mal informadas, aumento da polarização, fortalecimento de injustiças e dificuldade na formulação de políticas públicas baseadas em evidências”, analisa.
LEIA TAMBÉM >> Quase metade dos jovens de periferias brasileiras acredita que IA contribui para ampliar desinformação
