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dez 8, 2021 | boas polêmicas

O que o caso Facebook Papers ensina sobre a cobertura dos veículos de comunicação? Colaboração é sempre o melhor caminho?

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Caso Facebook Papers mostra como colaboração ainda não é "natural"

Lúcia Mesquita

Desde 2016, com a divulgação do até então maior projeto colaborativo da história dos veículos de mídia de todo o mundo, o mundo passou a conhecer melhor uma prática do jornalismo que já há muito existia, mas que mais recentemente passou a ser conhecida como jornalismo colaborativo. O Panama Papers representou para o jornalismo praticado globalmente um ponto de inflexão. Dali para adiante os jornalistas e os veículos de comunicação viriam que o jornalismo investigativo e o jornalismo como um todo ganhavam um novo aliado. Isso fez com que estes reconhecessem na colaboração uma forma de continuarem a fazer um trabalho de qualidade e de inegável impacto social, econômico e político e, ao mesmo tempo, superar deficiências internas e dificuldades financeiras.

 

O Panama Papers, mais recentemente, o Pandora Papers  e outras investigações globais são baseados em um formato do jornalismo há muitos anos conhecido: o jornalismo investigativo. Esse formato tem uma importância e um valor para a sociedade muitas vezes difícil de mensurar, mas que, efetivamente, é capaz de trazer para a sociedade informações essenciais para o controle social das instituições e a promoção da democracia. Além disso, é capaz de gerar pensamento crítico na população e, através disso, combater a desinformação, por exemplo.

 

No entanto, o Panama Papers, assim como outras investigações globais, foi pouco divulgado pelos veículos de comunicação e teve ainda menos impacto na população latinoamericana. Em contrapartida, o projeto foi responsável por diversos impactos , como a renúncia do primeiro-ministro Islandês  e a recuperação de bilhões  de dólares em impostos por governos de todo o mundo, mas, infelizmente, muito pouco foi reportado pelos colegas latinoamericanos.

 

Além disso, o jornalismo investigativo  é historicamente visto como uma prática jornalística muito solitária, que gera um ganho de reputação tanto para o jornalista, quanto para a empresa jornalística. É o tão conhecido furo, o sonho de todo jornalista de ter acesso a informações ou a uma fonte a quem ninguém mais tem. No jornalismo investigativo feito em colaboração, essa lógica se inverte. O que é mais importante é a investigação e o seu valor social. Nem todos os veículos de comunicação e jornalistas entenderam que, no mundo atual, em que o jornalismo enfrenta uma crise sem precedentes em termos de financiamento e precarização das condições de trabalho, a colaboração não é mais uma escolha, mas, sim, uma necessidade. Isso sem falar na quantidade de informação e dados que o mundo está gerando e que torna cada vez mais difícil que um único jornalista ou mesmo uma única equipe seja capaz de revelar tudo e com a rapidez necessária. Portanto, mais uma vez, a cultura da colaboração é essencial para a sobrevivência de investigações jornalísticas que são tão importantes para a sociedade.

 

Agora, por que faço essa introdução?

 

Porque é importante entender o contexto no qual o Facebook Papers está inserido. O Facebook Papers, assim como a maior parte das recentes investigações globais seguem um padrão de comportamento e de processos muito similar. Esse padrão conhecido em inglês como Radical Sharing  (compartilhamento radical, em português) que foi construído por experiências como a do International Consortium of Investigative Journalists ( ), ganhou notoriedade com o Panama Papers e, consecutivamente, foi replicado mundialmente. Nesse modelo de trabalho, os dados e informações obtidas por uma organização de mídia, como no caso do Panama Papers, o jornal alemão Suddeutsche Zeitung , foram compartilhados indiscriminadamente para todos os veículos de comunicação participantes do consórcio estabelecido pelo ICIJ. O ICIJ foi o responsável por coordenar a ação e “convidar” os demais veículos da imprensa a participarem do projeto.

 

Coloquei a palavra “convidar” entre aspas, pois, de fato, se sabe muito pouco sobre os processos e critérios de escolha do ICIJ para convidar veículos da imprensa a participarem de seus projetos e serem membros da sua organização. O que se sabe é que os critérios incluem capacidade técnica e a busca por veículos que não sejam diretos competidores em seus respectivos mercados.

 

Por que é importante salientar isso?

 

Porque recentes estudos  evidenciam que a maioria das organizações que participam ou conduzem projetos de colaboração acabam fazendo isso com organizações que eles já conhecem, com quem já têm uma relação de amizade, com os quais compartilham códigos de conduta e processos. É claro que não há mal algum nisso, mas restringir-se aos seus amigos pode fazer com que você perca a noção daquilo que te cerca, da realidade e da necessidade daqueles que são os mais importantes atores do trabalho jornalístico, que é o leitor, que é a audiência. Em última análise, aliar-se aos jornalistas e às organizações de sempre faz com que você se feche em sua bolha e não veja o que realmente importa (veja esse estudo  sobre essa prática e suas consequências no jornalismo de dados).

 

E não é só isso, não. O jornalismo colaborativo é muito mais do que uma parceria entre colegas jornalistas para a realização de grandes investigações que envolvem veículos de diversos países e que trabalham com dados e informações vazadas por whistleblowers. Estudos vêm demonstrando que é cada vez mais comum colaborações que saem das redações ou que até são criadas fora da redação, como aquelas que são criadas com a   comunidade para criar dados que representem a realidade dessas pessoas. Há colaborações regionais, com veículos de uma região do globo, como a América Latina e a África, como foi o caso da Investiga Lava Jato , uma investigação coordenada por uma organização do Peru, a Convoca.

 

Há também investigações nacionais e os exemplos mais emblemáticos são a Vaza Jato  e o consórcio dos grandes veículos de imprensa brasileiros para ter acesso a dados do COVID-19. E ainda temos as colaborações locais, como as organizações das periferias  que se juntam aos moradores para conduzir investigações que mudam a vida das pessoas nas comunidades. Exemplos dessas colaborações cotidianas, com moradores de comunidades, entidades da sociedade civil, ONGs e movimentos sociais são cada vez mais comuns e não deixam de ser colaboração só por não envolverem grandes veículos de mídia. Então, colaboração é, sim, para todos os casos, para os pequenos e para os grandes projetos.  E é essencial para que se entregue o que é mais importante nessas e outras investigações que é informação boa e de qualidade, que informe, mas que também instrumentalize o cidadão para que ele possa fazer a pressão política para a mudança.

 

O Facebook Papers tem um papel essencial na luta pela regulamentação das plataformas e como tem sido recentemente reportado, a “bancada do like”  mostra que há muitos interessados na desregulamentação e na “livre” operação dessas grandes plataformas de redes sociais, por isso é vital que essa investigação seja capitalizada e espalhada para todos os lados.

 

Mas então o que faltou para que o Facebook Papers tivesse o impacto que deveria?

 

Uma das respostas está na discussão anterior, de que jornalistas ainda têm preferido trabalhar com colegas que já conhecem, com quem têm relações de amizade e/ou proximidade de agendas e compromissos. Mas outro fator que tem sido muito discutido atualmente é a necessidade de uma coordenação. Assim como o Panama Papers, outras investigações se beneficiaram desse papel que é o de coordenador . Esse profissional ou grupo de profissionais que estará dedicado à logística e administração do fluxo de trabalho, entregas e assistência aos jornalistas parte de um consórcio, tem sido cada vez mais adotado em investigações grandiosas, transnacionais, mas, como podemos ver, pelo exemplo do Facebook Papers e outros, o papel de coordenação é essencial para todos os tipos de colaboração.

 

O que se espera desse trabalho de coordenação não é meramente um controle de entradas e saídas, mas a garantia de que todos terão acesso igual, que outros que podem colaborar com outras capacidades sejam acionados, que mais e melhores reportagens sejam realizadas de forma a serem complementares e não concorrentes. Esse é não é o trabalho de um editor que vai dizer o que sai e o que entra, mas, sim, o trabalho que vai coordenar ações para que elas se potencializem e se massifiquem.

 

Diversas organizações ao redor do mundo têm se utilizado dessa função para maximizar colaborações. Os exemplos latinoamericanos são diversos, como o Connectas , que também é representante do ICIJ na região, o Consejo  de Redacción, que conduz diversas investigações transnacionais, e o Projeto Comprova , aqui no Brasil.

 

O fato é que esse e outros casos de investigações globais, regionais e até locais mostram que colaborar ainda não é natural entre os jornalistas e as empresas de jornalismo e, para resolver o problema, duas coisas devem ficar bem claras: jornalistas e organizações dos mídia têm que sair das suas bolhas e criar, incentivar e fortalecer o cargo de coordenação de colaborações. Há diversos materiais disponíveis sobre o tema da coordenação editorial de projetos colaborativos. Eu indico o material produzido pelo Center for Cooperative Media, mas há diversos materiais à disposição nos sites da Abraji , do IJNET  e do GIJN . Bom proveito!

Lucia Mesquita é doutoranda e pesquisadora, Marie Skłodowska-Curie Fellow na Dublin City University, sob a supervisão de Jane Suiter. Também faz parte do projeto JOLT – Harnessing Digital and Data Technology for Journalism, uma Rede Europeia de Treinamento Marie-Skłodowska-Curie, onde investiga as mudanças na economia política do jornalismo digital e seu impacto na pluralidade e no papel cívico do jornalismo. Antes de ingressar na DCU foi aluna de mestrado na Escola Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa. Também é jornalista, formada pela Universidade Metodista de São Paulo (Brasil), em 2001. Seus interesses são jornalismo colaborativo, sistemas de mídia, jornalismo de dados, jornalismo investigativo, entre outras áreas.

 

 

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Colaboração nem sempre é possível, mas deve ser tentada

Laís Martins

Os Facebook Papers, um conjunto de milhares de documentos internos vazados por uma ex-funcionária, é um ótimo caso para discutir colaboração no jornalismo e o que ela pode produzir. Mais de uma dúzia dos maiores veículos de jornalismo dos Estados Unidos, instituições centenárias, formaram consórcio para trazer à luz informações até então desconhecidas sobre a operação da maior empresa de rede social do mundo. 

 

Mas antes mesmo da publicação das primeiras reportagens do Facebook Papers, o consórcio ruiu. No canal de Slack, ferramenta de mensagens usada pelo grupo, o repórter de tecnologia do New York Times Ryan Mac deixou um aviso de que o jornal iria publicar em breve um material sobre a conduta do Facebook no que antecedeu a invasão ao Capitólio dos Estados Unidos, em janeiro deste ano, com base em documentos que obtiveram fora do consórcio.

 

O aviso não caiu bem com os outros repórteres. Embora estivesse jogando pelas regras, muitos viram a decisão do NYT como uma forma de se antecipar à concorrência, que teria que respeitar a data de embargo estabelecida pelo time legal da ex-funcionária da Meta e whistleblower Frances Haugen. A NBC News respondeu com a publicação de uma reportagem usando os documentos cedidos por Haugen antes do embargo cair. 

 

Se por um lado o que estremeceu o consórcio foi justamente a dificuldade de alguns veículos de trabalharem sob a lógica da cooperação, o resultado pode ter sido, contraintuitivamente, mais colaboração. Depois que o principal acordo do consórcio foi rasurado, outros veículos passaram a esticar as regras para o bem. 

 

Uma das motivações iniciais de Haugen para vazar os documentos foi sua crença de que o Sul Global estaria em perigo. Mas na primeira oportunidade de trazer jornalistas do Sul Global para acessarem o que o Facebook fez ou deixou de fazer com relação a seus países — dos quais eles entendem melhor do que ninguém — Haugen falhou.

 

O consórcio, em sua versão original pensada pela equipe legal de Haugen, contava apenas com veículos dos Estados Unidos e da Europa ocidental. Se quiséssemos ver algo sobre, por exemplo, o Brasil na cobertura dos FB Papers, ficaríamos à mercê de algum repórter lá fora achar o material importante o suficiente para publicar. 

 

Alguns veículos do consórcio reconheceram essa problemática. No fim de outubro, a repórter do Gizmodo Shoshana Wodinsky publicou no Twitter que alguns veículos já tinham começado a vazar os documentos para veículos fora do grupo, mas que havia uma demora por conta do cuidado com nomes nos documentos. Veículos fora do “mundo ocidental” que estivessem tentando acessar o documento e falhando poderiam entrar em contato com ela. 

 

Um dia depois de entrar para o consórcio, o jornalista Alex Kantrowitz, da newsletter independente Big Technology, publicou um texto no Nieman Lab defendendo a dissolução do consórcio. Os documentos “são simplesmente importantes demais para o interesse público para serem mantidos às escuras”, escreveu. 

 

Engrossando o coro, em 3 de novembro, poucos dias antes do Núcleo entrar para o consórcio, a Wired publicou um editorial defendendo que os documentos fossem compartilhados com veículos ao redor do mundo. “Apesar do fato de que muitos dos piores abusos do Facebook estão acontecendo no sul Global, todos os veículos de notícias inicialmente analisando esse olhar sem precedentes para dentro das operações do Facebook foram da América do Norte ou Europa ocidental”, escreveu a Wired. 

 

No Brasil, o Núcleo foi um dos primeiros veículos a acessar os documentos do FB Papers, junto à Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo. Mas como escreveu Sérgio Spagnuolo, editor e fundador do Núcleo, a cobertura estava “toda errada”. “Em vez de nos unirmos para produzir reportagens colaborativas e consequentes, que efetivamente colocariam o Facebook no seu lugar de responsabilidade por muito dos problemas online que temos, especialmente desinformação, nos isolamos para cada um num canto, cada um com sua ideia”, escreveu Spagnuolo em artigo no site do Núcleo.

 

Ele acerta também em dizer que de consórcio, a estrutura do #FBPapers formado nos EUA tinha pouco. Não sabemos se houve alguma iniciativa de veículos trabalharem juntos em uma reportagem, verdadeiramente unindo esforços. Se houve, não resultou em nenhuma matéria. Foi cada um para o seu canto. 

 

No Brasil, o Núcleo liderou o esforço de abrir os documentos para mais veículos brasileiros. Ainda vemos organizações trabalhando isoladamente em suas reportagens, mas já é possível vislumbrar um caminho diferente adiante. Na semana passada, publicamos uma reportagem sobre justiça racial, parceria entre Núcleo e Folha de S. Paulo. A reportagem só foi possível porque tínhamos três pessoas com mentalidades, bagagens e visões diferentes olhando para centenas de documentos. Era um esforço que sozinha seria difícil de executar e, francamente, traria um resultado empobrecido. 

 

A ideia do jornalismo colaborativo é óbvia, mas sob a ótica de negócios, em que notícias são produtos à venda, se tornou ilógica. Digo que é óbvia porque se o objetivo do jornalismo é oferecer um material informativo, de qualidade e com potencial de impacto para a maior audiência possível, me parece lógico que quanto mais mãos e cabeças pensantes estiverem envolvidas nesse processo, melhor será o resultado final. 

 

Ainda há espaço para otimizar a colaboração na cobertura do #FBPapers no Brasil. Seria interessante ver mais veículos locais, de fora do nicho da tecnologia, somando à essa cobertura. Por vezes faltam mãos e até mesmo entendimento do tema para trabalhar com esses documentos (que não são simples até para aqueles que cobrem plataformas rotineiramente), mas é para isso que existe a colaboração. Um lado soma com o conhecimento de nicho e o outro soma com o acesso à audiência e habilidade de explicar algo complexo em uma linguagem mais simples e acessível. 

 

É prepotência pensar que as implicações do Facebook Papers são mais importantes para o leitor do Núcleo ou da Folha do que para um usuário comum leitor de um jornal local em uma cidade pequena. São igualmente importantes. 

 

A colaboração nem sempre é possível e são muitos os fatores que jogam contra essa forma de trabalho. Mas sempre que possível, ela deve ser tentada.

Laís Martins é jornalista pela PUC-SP e mestra em comunicação política pela Universidade de Amsterdam. Suas reportagens focam em direitos humanos, política e tecnologia. No Núcleo, atua como repórter.

 

 

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