Um experimento realizado pela Anistia Internacional encontrou falhas nos sistemas de moderação de anúncios do Facebook, plataforma da Meta, para identificar conteúdos de desinformação relacionados às eleições brasileiras. Dos 15 anúncios produzidos pela organização para testar os mecanismos da empresa, oito foram aprovados para publicação mesmo contendo informações falsas. Os outros sete foram rejeitados, mas por serem classificados como anúncios relacionados a questões sociais, eleitorais ou políticas, e não especificamente por violarem as regras contra a desinformação.
O teste foi realizado às vésperas das eleições presidenciais brasileiras, marcadas para 4 de outubro, e buscou reproduzir diferentes narrativas de desinformação que circulam no debate político do país.
Entre os conteúdos submetidos à plataforma estavam alegações de fraude eleitoral, ataques à legitimidade de candidatos e instituições, informações falsas capazes de confundir eleitores sobre como ou quando votar e mensagens que defendiam uma intervenção militar. A Anistia Internacional programou os anúncios para veiculação futura e cancelou os que foram aprovados antes que pudessem chegar ao público.
O resultado, divulgado em 25 de agosto, indica que os mecanismos empregados pela Meta podem não estar identificando de maneira confiável conteúdos capazes de interferir no processo eleitoral.
A organização também encontrou brechas nos procedimentos de segurança para a veiculação de publicidade política: os anúncios puderam ser enviados sem que a conta utilizada tivesse concluído a verificação de identidade exigida pela própria plataforma e sem a indicação de quem havia pago pelo conteúdo.
A preocupação ganha peso porque a publicidade é parte central do modelo de negócios da Meta. A Anistia Internacional argumenta que 98% da receita da empresa no primeiro trimestre de 2026 veio de publicidade e que a companhia utiliza dados como localização, informações demográficas, interesses e comportamento on-line para direcionar anúncios a públicos específicos.
Para Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, o fato de o sistema de moderação da Meta não ter detectado mais da metade dos anúncios de desinformação eleitoral enviados pela organização é “profundamente alarmante”.
“Isso mostra que a Meta não está fazendo o suficiente para impedir que sua plataforma seja um vetor de desinformação, ao mesmo tempo em que continua lucrando com os sistemas de conteúdo e publicidade que possibilitam sua disseminação”, pontuou.
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O que passou pelos filtros da Meta
Dos 15 anúncios enviados, 14 continham desinformação e um era neutro. Os conteúdos falsos foram construídos a partir de narrativas reais identificadas pela Anistia Internacional em conversas on-line, redes sociais e publicações em português no Facebook e no X entre janeiro e maio de 2026.
A organização agrupou os anúncios em três tipos de estratégias associadas ao apoio a práticas autoritárias:
- “deslegitimação eleitoral”, que reúne conteúdos destinados a minar a confiança nas eleições, nos sistemas de votação ou nos resultados eleitorais.
- “construção do inimigo”, apresenta adversários políticos ou instituições, como tribunais, como ameaças à nação ou como atores ilegítimos.
- “autoritarismo com foco na segurança”, utiliza argumentos relacionados à criminalidade ou à desordem política para apresentar a força, uma intervenção militar ou o governo de um líder autoritário como respostas necessárias.
Metade dos anúncios com desinformação — sete — apresentava alegações enganosas sobre candidatos e instituições eleitorais. Eram conteúdos que, por exemplo, acusavam determinados candidatos de fraudarem as eleições ou colocavam em dúvida a integridade do sistema de votação. Os outros sete continham informações falsas com potencial de afetar diretamente a capacidade das pessoas de participar do processo eleitoral, incluindo dados incorretos sobre quando votar, como votar ou quais candidatos disputavam a eleição.
Entre os oito anúncios aprovados pelo Facebook, quatro tratavam exclusivamente de deslegitimação eleitoral. Outros dois se enquadravam apenas na categoria de autoritarismo com foco na segurança e incluíam conteúdos que defendiam uma intervenção militar ou a não participação nas eleições. Os dois restantes combinavam elementos das três estratégias identificadas pela organização.
O que os pesquisadores observaram
A diferença entre os tipos de conteúdo chamou a atenção dos pesquisadores. A Anistia identificou que os sistemas da plataforma pareciam reconhecer com mais facilidade anúncios que apresentavam adversários políticos como “criminosos”, “traidores” ou “atores ilegítimos”. Cinco dos sete anúncios com esse tipo de narrativa foram rejeitados. Um deles afirmava que “Lula vai roubar esta eleição”.
Já os conteúdos com retórica militar tiveram um desempenho oposto. Três dos quatro anúncios que defendiam que os militares tomassem o poder e utilizavam argumentos contrários ao Estado de Direito foram aprovados pelos mecanismos de moderação.
Um dos anúncios testados dizia que seria necessária uma “revolução militar”, incentivava as pessoas a não votarem e afirmava que os militares retomariam o poder caso menos de 50% da população participasse da eleição.
A diferença não significa que a plataforma tenha considerado um tipo de conteúdo permitido e outro proibido. O que o experimento mostra é que a capacidade de detecção variou conforme a narrativa empregada. Para a Anistia Internacional, isso levanta dúvidas sobre a consistência com que as salvaguardas eleitorais da Meta estão sendo aplicadas.
Sete anúncios foram barrados, mas por outro motivo
Os outros sete anúncios foram rejeitados porque a conta não havia concluído a verificação de identidade exigida pela Meta para conteúdos relacionados a questões sociais, eleitorais ou políticas e não porque a plataforma identificou a desinformação. Por isso, o teste não permite saber se eles seriam barrados pelo conteúdo caso a conta estivesse verificada.
O experimento também revelou que era possível enviar anúncios eleitorais sem a verificação de identidade, sem a indicação “Pago por” e sem declarar que os conteúdos se enquadravam nas Categorias Especiais de Anúncios. Os envios foram feitos de Londres, sem VPN, o que, segundo a Anistia, expõe uma vulnerabilidade que poderia ser explorada por atores brasileiros ou estrangeiros interessados em interferir no processo eleitoral.
O pesquisador e consultor em Inteligência Artificial e Direitos Humanos da Anistia Internacional, Ummar Bashir, considera que “embora o Facebook tenha rejeitado sete dos 15 anúncios, eles foram sinalizados com base em sua política sobre questões sociais, eleições ou política, e não especificamente por conterem desinformação eleitoral”. Na avaliação dele, “isso suscita sérias preocupações sobre se as salvaguardas eleitorais do Facebook estão sendo aplicadas de forma consistente”.
Moderação automatizada não identificou todos os riscos
A Meta usa inteligência artificial para identificar anúncios que possam violar suas políticas, que depois podem ou não passar por análise automatizada ou humana. Quando uma violação é confirmada, a empresa pode remover, restringir ou rejeitar o anúncio.
O experimento da Anistia, porém, sugere que esse sistema não reconheceu de maneira consistente as diferentes formas pelas quais a desinformação eleitoral pode aparecer em uma publicidade.
Essa questão é especialmente importante porque a interferência no processo eleitoral não depende apenas de uma informação falsa sobre uma data ou procedimento de votação. Narrativas que colocam em dúvida a legitimidade das eleições, atacam instituições responsáveis pelo processo eleitoral ou defendem a ruptura da ordem democrática também podem afetar a participação política e a confiança pública.
A organização relaciona a falha encontrada à responsabilidade das empresas de tecnologia de avaliar e reduzir os impactos de seus produtos sobre os direitos humanos. De acordo com normas internacionais citadas no relatório, empresas devem adotar medidas para identificar, prevenir e mitigar impactos adversos associados às suas atividades, independentemente da existência de uma regulamentação estatal específica. No caso de plataformas como a Meta, isso inclui avaliar os riscos produzidos por sistemas de publicidade e moderação que possam afetar o direito à informação e à participação nos assuntos públicos.
As regras para as plataformas
O relatório também relaciona as falhas encontradas às responsabilidades das empresas de tecnologia em relação aos direitos humanos. A Anistia defende que a Meta identifique e reduza os riscos de seus sistemas de publicidade e moderação à participação política e ao acesso à informação. A organização pede ainda mais recursos para a moderação em português brasileiro e uma avaliação pública e específica sobre os riscos da empresa no Brasil.
As cobranças ocorrem enquanto o Brasil amplia as regras para plataformas durante as eleições. Para 2026, o TSE determinou regras mais rigorosas para a remoção de conteúdos falsos ou descontextualizados sobre o sistema de votação, a Justiça Eleitoral e outros processos eleitorais, além de restringir o uso de IA generativa para classificar, recomendar ou priorizar candidatos, campanhas e partidos.
A organização afirma que ainda há tempo para a Meta corrigir as vulnerabilidades identificadas antes do primeiro turno. Para Jurema Werneck, “permitir que esse tipo de conteúdo circule sem controle pode induzir eleitores ao erro, corroer a confiança nos processos eleitorais e comprometer a capacidade das pessoas de exercer livre e efetivamente seu direito de votar”, analisou.
