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abr 14, 2026 | Destaques, Notícias

Aposte no futuro: o impacto dos mercados de previsões no ambiente informacional

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Apostar em qual filme ganhará o Oscar ou em qual seleção conquistará a Copa do Mundo está longe de ser novidade. Nos últimos anos, porém, um novo tipo de plataforma passou a expandir o universo de previsões ao permitir a negociação  sobre quaisquer eventos futuros, inclusive sobre temas sensíveis como política e geopolítica. Nesse modelo, usuários podem operar posições sobre desfechos como eleições, possíveis ataques militares a países como o Irã ou até na morte de lideranças políticas globais, como o aiatolá Ali Khamenei.

Esse tipo de operação acontece dentro dos chamados mercados de previsões (do inglês prediction markets), um segmento altamente lucrativo, com origem e forte presença nos Estados Unidos e que começa a chegar ao Brasil levantando dúvidas não apenas regulatórias, mas também sobre seus possíveis efeitos no ecossistema informacional e no debate público.

A experiência norte-americana acende alertas importantes. Entre eles, o uso de estratégias desinformativas como forma de atrair usuários – muitas vezes explorando conteúdos que engajam emocionalmente, polarização política e ideológica e até discurso de ódio, elementos recorrentes em dinâmicas de desinformação.

Também há registros de investigações envolvendo usos de informações privilegiadas para orientar apostas, além de um movimento crescente de parcerias com veículos de comunicação, que passaram a incorporar dados dessas plataformas em tempo real em suas coberturas.

Na prática, os prediction markets operam com os chamados contratos de evento (do inglês event contracts), um tipo de operação financeira cujo valor está atrelado à ocorrência ou não de um evento verificável, como uma eleição, um indicador econômico, condições climáticas ou resultados esportivos.

De forma simplificada, os usuários compram posições equivalentes a “sim” ou “não” para determinado cenário. Se o evento acontecer, quem apostou no “sim” recebe um retorno proporcional ao valor investido; se não acontecer, o ganho fica com quem apostou no “não”. Esses contratos podem ser comprados e vendidos a qualquer momento, com preços variando conforme novas informações entram no mercado.

Diferentemente das apostas tradicionais, em que o usuário joga contra a “casa”, com probabilidades previamente definidas, aqui os participantes negociam entre si, por intermédio de uma plataforma digital, e os preços são formados pela dinâmica de oferta e demanda. Isso também os distingue de jogos de azar digitais, como caça-níqueis, em que os resultados não dependem de eventos reais.

Na percepção do público, essa distinção tende a ser pouco evidente. Como observa David Nemer, professor nos Departamentos de Estudos de Mídia e Antropologia da Universidade da Virgínia, “para o usuário comum, todos monetizam incerteza e podem ser consumidos como microespeculação permanente.”

A chegada dos mercados de previsões ao Brasil vem ganhando tração com iniciativas de grandes instituições financeiras, como B3, XP Investimentos e BTG Pactual, além da entrada de startups nacionais. A expectativa é significativa: analistas do Itaú BBA consultados pelo jornal O Globo indicam que o mercado pode movimentar entre R$ 20 bilhões e R$ 40 bilhões por ano no país.

O movimento, no entanto, ocorre em meio a uma indefinição central: afinal, quem deve regular esse mercado?

Na prática, essas iniciativas têm buscado caminhos distintos para operar, ainda segundo apuração do Globo. A B3, por exemplo, já obteve autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para lançar contratos atrelados a indicadores financeiros, como Ibovespa, dólar e Bitcoin, restritos, ao menos neste primeiro momento, a investidores profissionais.

A XP, por sua vez, firmou parceria com a plataforma americana Kalshi para oferecer contratos ligados a variáveis econômicas brasileiras a clientes com conta internacional. Já o BTG Pactual lançou uma plataforma própria, a BTG Trends, com acesso limitado a investidores de perfil mais experiente. 

Plataformas internacionais como Polymarket e Kalshi, duas das principais do setor – sendo a segunda co-fundada pela brasileira Luana Lopes Lara – já operam no exterior com contratos envolvendo o Brasil. Esses contratos abrangem desde temas de entretenimento, como o resultado do Big Brother Brasil, até questões políticas e institucionais, como a permanência de ministros do Supremo Tribunal Federal e eleições presidenciais.

Mesmo antes do início oficial da disputa eleitoral no Brasil neste ano, que só começa em agosto, a Polymarket já opera contratos sobre o resultado das eleições presidenciais no país. Só nesse tipo de contrato, a plataforma já movimentou pouco mais de US$ 46 milhões (cerca de R$ 230 milhões).

Nesses mercados de previsões, nomes como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro aparecem com diferentes probabilidades de vitória, que mudam constantemente conforme o comportamento dos usuários.

Em determinado momento, Lula pode concentrar cerca de 41% das posições, enquanto Flávio Bolsonaro aparece com cerca de 37%; dias depois, esses números podem se inverter, sem que necessariamente haja uma mudança equivalente no cenário político ou nas pesquisas eleitorais.

Reprodução: plataforma Polymarket.

Essas variações refletem, sobretudo, o fluxo de dinheiro e as expectativas dentro da própria plataforma, e não uma medição científica da opinião pública. Ainda assim, especialistas apontam riscos relevantes, especialmente porque, nesses mercados de previsões, quanto mais improvável um resultado, maior o potencial de ganho. 

O pesquisador e co-diretor da Associação Data Privacy Brasil, Rafael Zanatta, avalia que essa dinâmica pode criar incentivos problemáticos no ambiente informacional. Para ele, trata-se de uma lógica “perversa”, na qual atores interessados podem gerar “estímulo para factoides e processos de desinformação justamente para alavancar o candidato que não tem tantas chances de ganhar”, e, assim, obter vantagens econômicas ao influenciar os preços dos contratos.

Zanatta também destaca que esse tipo de operação entra em tensão com a legislação eleitoral brasileira, que não prevê nem autoriza esse tipo de prática. “Há espaço para atuação do TSE em analisar a existência desses mecanismos de aposta e de eventual intervenção ou solicitação de remoção de páginas que operam esse tipo de mercado envolvendo eleições brasileiras”, afirma.

Em fevereiro de 2026, a Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão regulador dos mercados de derivativos nos Estados Unidos, divulgou ações de fiscalização envolvendo negociações na plataforma Kalshi.

Em um dos casos, um candidato político foi punido por negociar contratos ligados à própria candidatura, prática proibida por configurar influência direta sobre o resultado do evento. Em outro, um editor de um canal no YouTube foi sancionado por operar com base em informações não públicas às quais tinha acesso antecipado. As penalidades incluíram multas financeiras e suspensão de acesso à plataforma.

Os episódios evidenciam um problema mais amplo: o uso de informação privilegiada nesses mercados, que vem se associando a movimentações atípicas e altamente lucrativas, sobretudo em temas geopolíticos sensíveis. Em alguns casos, os padrões de ganho e acerto ultrapassam de forma significativa o que seria esperado em cenários de mera especulação, levantando suspeitas de acesso prévio a informações relevantes não públicas.

Estudo recente conduzido por pesquisadores das universidades de Columbia (EUA) e Haifa (Israel) evidenciou casos emblemáticos, como o que ocorreu às vésperas de um ataque militar conduzido por Estados Unidos e Israel contra o Irã, em fevereiro deste ano. Horas antes de a operação se tornar pública, seis contas recém-criadas na plataforma Polymarket lucraram cerca de US$ 1,2 milhão ao apostar na ocorrência do ataque. Padrão semelhante também foi observado na antecipação da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Diante desses indícios, parlamentares democratas enviaram uma carta a órgãos reguladores dos EUA solicitando diretrizes mais claras e treinamento específico para funcionários públicos, diante da preocupação de que agentes com acesso a informações sensíveis possam estar envolvidos nesse tipo de operação. Até o momento, no entanto, não há acusações formais contra servidores federais.

Especialistas ouvidos pela imprensa norte-americana apontam que, até o momento, há poucos sinais de uma atuação robusta por parte de órgãos reguladores diante desses casos e nesse mercado, marcado pelo governo de Donald Trump. Ao mesmo tempo, autoridades defendem que existem mecanismos de monitoramento em curso e que o setor não opera sem supervisão.

Na avaliação do pesquisador Rafael Zanatta, o problema é estrutural e tende a se intensificar nesse tipo de mercado. “A informação privilegiada é um ilícito rigorosamente punido no mercado financeiro tradicional, inclusive com pena de prisão. Mas essas plataformas acabam driblando as regras, ao se organizarem como marketplaces de apostas entre pessoas, fora dos ambientes clássicos de negociação”, explica. 

Nos Estados Unidos, plataformas como Polymarket e Kalshi firmaram, em 2025, uma série de parcerias com grandes veículos de comunicação – entre eles CNN, CNBC, Dow Jones e Yahoo Finance – para integrar dados desses mercados em tempo real às coberturas televisivas e digitais.

Isso significa que probabilidades derivadas dessas plataformas passam a circular como insumo editorial: números que indicam “chances” de determinados eventos aparecem em reportagens, análises e transmissões ao vivo. Para as empresas, a estratégia tem um duplo efeito: amplia visibilidade e alcance e ajuda a conferir legitimidade em meio ao crescente escrutínio regulatório.

Para os veículos, no entanto, os ganhos não são tão evidentes. Os termos dessas parcerias, incluindo possíveis contrapartidas financeiras, permanecem pouco transparentes.

Especialistas apontam que a pressão econômica sobre o setor pode ser um fator relevante para esse tipo de parceria, porém, mais do que uma questão comercial, o fenômeno começa a alterar a própria lógica de produção e circulação da informação. “O ‘mercado está precificando’ vira quase um fato em si. As odds [probabilidades] passam a circular como atalho narrativo, como medidor de humor público e como conteúdo altamente atualizável”, observa David Nemer. 

Artigo recente publicado na Columbia Journalism Review aponta que essas parcerias podem ter um efeito de normalização, tanto dos mercados preditivos por si, quanto da ideia de que eventos como guerras, crises políticas e instabilidade social, podem ser transformados em ativos negociáveis. Além disso, destaca que por esses mercados serem vulneráveis a manipulação, não podem representar necessariamente a população em termos demográficos e podem incentivar a especulação sobre eventos sensíveis.

Para Nemer, os impactos podem afetar ainda o interesse público já que a cobertura pode tender a privilegiar pautar temas “negociáveis” – mais voláteis e engajadores – em detrimento de questões socialmente relevantes, mas menos passíveis de virar objeto de negociação.

“O risco é uma financeirização da notícia, no sentido de que a lógica de mercado passa a moldar o enquadramento jornalístico dos acontecimentos”, explica.

Além dos riscos regulatórios e das tensões com o jornalismo, os mercados preditivos também vêm sendo associados a dinâmicas típicas da desinformação, especialmente nas redes sociais. Reportagem da Axios aponta que essas plataformas atuam como vetores de conteúdos falsos, enganosos ou descontextualizados, amplificados em larga escala.

Segundo a apuração, empresas como Polymarket e Kalshi passaram a ocupar um papel central na circulação de informações em tempo real, entretanto, diferentemente de veículos jornalísticos, suas contas em redes sociais operam com menos restrições editoriais, mesmo quando alcançam audiências massivas. O resultado é uma combinação entre alto alcance e baixa verificação.

Ainda de acordo com a Axios, essas plataformas são moldadas muito mais pela lógica de engajamento de redes como o X (antigo Twitter) e pela cultura do mercado cripto do que por padrões tradicionais de mídia ou finanças. Isso se traduz em estratégias de conteúdo voltadas para maximizar interação e reações de indignação, gerando viralização de conteúdo que carecem de precisão ou contexto.

A reportagem ilustra o cenário. Em um dos casos citados, a Polymarket afirmou que o governo do Irã teria “perdido o controle” de Teerã durante um apagão de comunicações, em um momento em que não havia confirmação independente possível. Já a Kalshi chegou a sugerir negociações inexistentes entre Estados Unidos e Dinamarca sobre a compra da Groenlândia, informação posteriormente corrigida.

Para especialistas, esse tipo de prática evidencia uma contradição central: enquanto se apresentam como ferramentas que ajudam a “reduzir o ruído” informacional por meio de dados e probabilidades, essas plataformas podem, na prática, contribuir para ampliá-lo.

O problema é agravado pela articulação com influenciadores digitais. Segundo a Axios, empresas do setor distribuíram selos de afiliação a perfis nas redes sociais, inclusive contas que disseminam conteúdos falsos ou satíricos com aparência de credibilidade.

A possível expansão dos mercados preditivos no Brasil adiciona novas camadas de complexidade a um ambiente já marcado por frágil confiança institucional, forte circulação de conteúdos em redes fechadas e a popularização de plataformas de aposta.

Para Nemer, o principal risco não está apenas na chegada de um novo produto financeiro, mas na introdução de uma lógica que transforma incertezas públicas em ativos negociáveis e pode aprofundar dinâmicas já presentes nas plataformas digitais, nas quais vulnerabilidades econômicas e sociais são convertidas em especulação cotidiana.

“Você ganha um incentivo novo para ‘lavar’ boatos como se fossem sinal objetivo: ‘não sou eu dizendo, é o mercado’. O perigo é duplo: epistemológico, porque o preço passa a parecer verdade; e político, porque atores com alcance passam a ter incentivo financeiro direto para semear narrativas que movam mercado.”

Na mesma linha, Zanatta chama atenção para os efeitos mais amplos desse processo, que ele associa a uma crescente “financeirização da opinião pública”: “[essa é uma lógica] contrária à ideia de limites morais do que pode ser transformado em mercadoria, especialmente informações sobre eventos públicos.”

Zanatta também destaca a conexão entre esse modelo e processos mais amplos de precarização econômica, nos quais indivíduos passam a operar em um ambiente de constante instabilidade e busca por renda. “Há o risco de isso se acoplar à precarização da vida econômica. As pessoas deixam de ser apenas empreendedoras de si mesmas e passam a se tornar apostadoras ou analistas financeiros precarizados

Por fim, ele aponta impactos diretos sobre o papel da informação na democracia: “Você tem o risco de corrosão dos ideais que movem o jornalismo, com a influência da lógica da aposta e da especulação sobre informações de interesse público.”

A chegada desse mercado no país ocorre em um cenário de incerteza regulatória. De um lado, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidade que representa maior parcela do setor de apostas, defende que os mercados de previsões devem ser enquadrados sob as mesmas regras das bets, ficando sob responsabilidade da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda. De outro, especialistas argumentam que esses contratos são, na essência, instrumentos financeiros derivativos e, portanto, deveriam ser regulados pela CVM.

LEIA TAMBÉM >> O que a crise das bets tem a ver com regulação de plataformas?

Em coluna publicada no JOTA, os especialistas em finanças Ana Sofia Monteiro Signorelli e Thiago Pedra Signorelli explicam que tratar mercados de previsões como apostas seria um erro conceitual com impactos práticos relevantes. Para eles, diferentemente das bets, em que a “banca” define as probabilidades e assume o risco, os mercados preditivos funcionam como ambientes de negociação entre participantes, nos quais os preços – e, portanto, as probabilidades – emergem da interação entre oferta e demanda.

Nesse sentido, defendem que a regulação deve refletir a natureza econômica desses instrumentos, sob risco de gerar insegurança jurídica, desincentivar a inovação e deslocar o desenvolvimento desse mercado para fora do país.

A disputa, no entanto, não se limita a uma questão técnica ou econômica. Para Zanatta, o debate não deveria se restringir à escolha entre CVM e SPA e defende uma abordagem regulatória mais ampla, que leve em conta os impactos sociais e informacionais desse modelo:

“Há uma necessidade muito grande de uma intervenção do Direito Administrativo de forma mais holística, envolvendo órgãos como a Senacon, os Procons e entidades de defesa do consumidor. Esse é um tema de economia popular, porque está relacionado ao endividamento das famílias e à instauração de uma lógica de vício, com fácil acesso.”

O pesquisador avalia que enquadrar o tema apenas como mercado financeiro ou como apostas pode obscurecer riscos mais amplos, aproximando os mercados preditivos de dinâmicas já observadas em plataformas de jogos e apostas digitais, como a indução ao consumo contínuo, endividamento e a normalização da especulação como prática cotidiana.

Enquanto isso, o próprio governo reconhece que o tema ainda está em análise. A Secretaria de Prêmios e Apostas, em declaração ao Estadão/Broadcast, informou que os mercados preditivos já estão na agenda regulatória, mas ainda não há empresas brasileiras formalmente autorizadas a operar nesse segmento. A definição de um modelo regulatório, segundo o órgão, dependerá de articulação com outras instituições, incluindo a própria CVM.

Procuradas pela reportagem, as empresas BTG Pactual, XP Investimentos e B3 foram questionadas sobre como avaliam os possíveis impactos dos mercados preditivos no ambiente informacional e se possuem políticas ou iniciativas voltadas à mitigação desses riscos. O BTG Pactual informou que optou por não participar. XP Investimentos e B3 não responderam até a publicação desta matéria. A reportagem também buscou posicionamento das plataformas Polymarket e Kalshi, mas não houve retorno.

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