A reorganização do campo progressista nas redes sociais, o uso de inteligência artificial (IA) na disputa política e a circulação de narrativas de fraude marcaram o ecossistema informacional do segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Após o primeiro turno, o campo progressista reorganizou sua atuação no debate digital. Um dos principais articuladores foi o deputado André Janones (REDE-MG), à frente do canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que chegou a reunir 10,8 milhões de seguidores e foi alvo de ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Para Letícia Capone, diretora de pesquisa do Instituto Democracia em Xeque, o período entre os dois turnos teve uma dinâmica diferente daquela observada na primeira etapa da campanha. “Houve uma organização, sobretudo a partir da atuação de André Janones, que foi uma figura central na orientação sobre o que deveria ser falado, como os conteúdos deveriam ser organizados e quais buscas deveriam ser feitas”, afirma.
A estratégia se refletiu no X, Instagram e Facebook, além das buscas no Google. Segundo Capone, temas relacionados a Flávio Bolsonaro (PL), como a repercussão da defesa do candidato ao policial acusado de matar a menina Ana Clara e o desafio feito por Lula, durante o debate da Band, para que Flávio abrisse seus sigilos bancário e telefônico, ganharam destaque no Google Trends. Para a pesquisadora, houve um reordenamento dos assuntos em circulação nas plataformas e maior articulação em torno de pautas que mobilizaram o campo progressista.
Essa dinâmica também apareceu no último debate entre os presidenciáveis, realizado na TV Globo na sexta-feira (23), dois dias antes da votação. Capone destaca dois momentos que repercutiram nas redes: a resposta de Lula à provocação de Flávio sobre os nove dedos e a fala do candidato do PL à mãe de Ana Clara. No debate, Flávio a chamou pelo nome da filha e afirmou que o policial acusado era inocente. “Foram dois momentos que tiveram destaque e repercussão nas redes sociais, em certa medida mobilizados pelo campo progressista”, avalia.
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Canais no Whatsapp tiveram protagonismo
Os canais do WhatsApp também foram palco de disputas judiciais envolvendo informações falsas. O “Exército do Lula” ficou fora do ar após decisões do ministro do TSE Kassio Nunes Marques, motivadas inicialmente por acusações da campanha de Flávio de disseminação de desinformação e, depois, pela falta de registro eleitoral. As decisões foram revertidas ou modificadas, mas uma nova determinação, em 14 de outubro, manteve a interrupção por 48 horas. A área técnica do TSE e a Agência Lupa não encontraram, nas mensagens analisadas, os conteúdos falsos apontados pela campanha de Flávio.
Já o canal “Tropa do Flávio”, vinculado à campanha do candidato do PL, publicou 17 mensagens falsas ou enganosas entre 7 e 13 de outubro, segundo levantamento do Aos Fatos realizado a partir de dados do Instituto Democracia em Xeque. A média foi de 2,4 publicações por dia. Entre os conteúdos identificados estavam falas de Lula retiradas de contexto e informações distorcidas sobre a economia. O número pode ser maior, já que mensagens apagadas pelos administradores não entraram na análise.
IA e falsas alegações ampliaram a desinformação
A inteligência artificial generativa também foi usada para produzir conteúdos políticos durante o segundo turno, inclusive com publicações no dia da votação. O Observatório IA nas Eleições, projeto desenvolvido pelo Aláfia Lab e pela Data Privacy Brasil, identificou que Flávio Bolsonaro republicou conteúdos gerados por IA em 25 de outubro, durante o período de restrições eleitorais ao uso desse tipo de material.
Entre as publicações havia uma imagem de um idoso, uma jovem e uma criança usando camisetas em apoio ao candidato, acompanhada da legenda “Três gerações, um só amor: o Brasil!”. A imagem havia sido publicada por um perfil no Instagram inteiramente gerado por IA, conforme sinalizado pela plataforma. Outro conteúdo mostrava uma mangueira limpando uma bandeira brasileira coberta de tinta vermelha. Nesse caso, o vídeo não tinha sinalização de mídia sintética, mas apresentava características compatíveis com geração artificial.
Depois da votação, outras publicações tentaram desacreditar a apuração com alegações falsas ou enganosas. Entre elas, a de que Flávio teria perdido votos em Santa Catarina, a alegação de que fiscais do PL foram retirados de uma sala-cofre do TSE e a tese de que Lula recebeu automaticamente os votos dos candidatos derrotados no primeiro turno. Checagens mostraram que essas narrativas distorciam os dados oficiais ou atribuíam ao processo eleitoral conclusões que não podiam ser sustentadas pelas informações disponíveis.
A desinformação também alcançou temas de políticas públicas. No pós-eleição, circularam rumores sobre um suposto recuo no fim da escala de trabalho 6×1 e possíveis cortes no Bolsa Família e no Gás do Povo. O governo federal negou as alegações e afirmou que não houve alteração na proposta sobre a jornada de trabalho nem suspensão ou redução dos benefícios sociais.
Discussão sobre interferência envolveram Meta e redes estrangeiras
No segundo turno, o foco esteve nas acusações de interferências das plataformas digitais, especialmente a Meta. A empresa esteve no centro de um impasse envolvendo a campanha de Lula e a Justiça Eleitoral, com acusações sobre o tratamento dado a conteúdos políticos e questionamentos sobre os critérios aplicados aos serviços da companhia. O caso levou a decisões e pedidos de esclarecimento do TSE e foi acompanhado pelo *desinformante em duas reportagens.
A atuação de redes estrangeiras também foi documentada pelo Observatório Lupa. Um relatório publicado em 27 de outubro identificou uma ofensiva da rede argentina de extrema-direita La Derecha Diario contra a legitimidade das eleições brasileiras. A rede publicou suspeitas de fraude antes mesmo do encerramento da votação, intensificando a campanha após a prorrogação do horário e mantendo as acusações depois da confirmação da vitória de Lula.
Entre 24 e 26 de outubro, o grupo publicou 109 conteúdos sobre as eleições brasileiras no X. Desse total, 19 acusavam explicitamente a ocorrência de fraude e outros 22 questionavam a legitimidade do processo eleitoral. Em parte das publicações, a rede usou a extensão do horário de votação como argumento para sugerir manipulação, omitindo que a campanha de Flávio Bolsonaro também havia solicitado a prorrogação.
O relatório identificou ainda vídeos fora de contexto usados para associar a vitória de Lula à criminalidade e publicações com ataques racistas contra brasileiros. Os conteúdos circularam no X, Facebook, Instagram, TikTok e WhatsApp. Inicialmente publicados em espanhol, passaram a circular também em português e inglês. Segundo dados da Meltwater citados pelo Observatório Lupa, as publicações monitoradas somaram pelo menos 250 mil engajamentos no X.
Transporte e acusações de fraude
As dificuldades de transporte público no dia da votação também alimentaram disputas nas redes. Em cidades como Salvador, São Paulo, Teresina e Rio de Janeiro, a insuficiência ou redução da frota de ônibus levou a denúncias de obstáculos ao deslocamento de eleitores e motivou apurações sobre possíveis irregularidades. Em Salvador, estudantes protestaram em frente à prefeitura na segunda-feira (26), acusando a gestão do prefeito Bruno Reis (União Brasil) de ter agido deliberadamente para restringir a circulação dos coletivos. A responsabilidade pela redução da frota e as circunstâncias do episódio ainda dependem de apuração.
O caso trouxe à memória as operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no segundo turno de 2022, quando fiscalizações em rodovias, sobretudo no Nordeste, foram investigadas por suspeita de dificultar o deslocamento de eleitores de Lula.
Em 2026, os problemas de transporte resultaram em medida do STF para a prorrogação do horário de votação até às 19h, cenário que alimentou narrativas de fraude eleitoral. Após a vitória de Lula por uma diferença de cerca de 4,4 milhões de votos, setores da extrema-direita passaram a questionar a legitimidade do resultado. Flávio Bolsonaro, candidato derrotado, publicou uma carta após chegar aos Estados Unidos em que inicialmente se autoproclamou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e repetiu acusações de fraude sem apresentar provas
