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Pontos de vista

jan 23, 2023 | Pontos de Vista

A foto errada, no lugar errado e no momento errado

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Publicada na capa da Folha de S.Paulo no dia 19 de janeiro, uma fotografia causou forte discussão nas redes sociais e entre profissionais de jornalismo. Na legenda, somos informados de que se trata de “foto feita com múltipla exposição mostra Lula ajeitando a gravata e vidro avariado em ataque”. No retrato, nos chega a imagem de Lula com um trinco de perfuração na vidraça na altura de seu peito.

Parece detalhe, mas não é: múltipla exposição é uma técnica fotográfica que permite sobrepor uma ou mais imagens a partir dos níveis de exposição da máquina fotográfica e não de programas de edição, que possuem recursos semelhantes.

É uma montagem? Em linhas gerais, sim: lançou-se mão de um recurso para criar uma “terceira imagem”, inexistente senão pela exposição de duas outras imagens, a do presidente Lula e a do vidro trincado. Aqui neste texto não se procura discutir os efeitos discursivos que tal foto pode ensejar, sua mensagem de “ataque”, “resiliência”, “violência” etc., mas sim tentará responder a uma pergunta: em contexto de disseminação de desinformação, cabe a um grande jornal publicar em sua capa uma fotomontagem?

Definitivamente, não. Ainda que na legenda leiamos “foto feita com múltipla exposição”, não deixa de ser um aviso tímido (e hermético) sobre a natureza da imagem. Publicar a foto no quadrante superior esquerdo da primeira página do jornal, espaço extremamente nobre, é torná-la a imagem mais importante daquela edição impressa, a “foto da capa”.

Não se trata, importante frisar, de ter uma visão estreita da fotografia como puro “retrato do real”, ignorando que uma fotografia é também uma enunciação: a escolha de enquadramento, da luz, o momento do clique feito pelo fotógrafo-enunciador marca um ponto de vista, explicita um posicionamento que faz parte da construção de sentido dessa imagem-enunciado. O que deve ser ressaltado é que não existe enunciado (seja ele verbal ou visual) que não pertença a um gênero discursivo, ou seja, todo enunciado está relacionado à forma como é produzido, como circula e como é recebido.

Todos esses fatores são fundamentais na produção de sentido. Por exemplo: um “mesmo” enunciado, digamos, uma receita de bolo, possui um sentido quando está dentro de um livro de culinária. Agora, quando ela aparece na página de um jornal em um espaço destinado a notícias, surge de imediato uma estranheza. Trago um exemplo usado pela mesma Folha de S.Paulo durante a Ditadura Militar que buscava apontar a censura que sofria em seus textos lançando mão desse expediente. Um deslocamento entre gêneros, por si só, tem a potencialidade de mudança de sentido. Nesse caso, a receita de bolo deixava de ser uma receita de bolo e passava a ser uma denúncia de censura.

Para ilustrar o que se quer dizer: certamente haveria muito menos questionamento se esta mesma foto fosse publicada como ilustração de um artigo de opinião ou mesmo um texto mais autoral em algum caderno do próprio jornal. E isso porque esse tipo de “montagem” estaria num local mais adequado (enquanto ao gênero), mais condizente com o seu propósito discursivo, e certamente a discussão em torno dela estaria restrita aos seus sentidos e mensagens produzidos, o que é salutar. Não se a discutiria sob a ótica do fotojornalismo, ou seja, pela crítica de uma “múltipla exposição” estar estampando a capa do jornal; se uma “terceira imagem”, inexistente factualmente, pode ser a principal foto da edição impressa de um jornal.

Em linhas gerais, o núcleo do problema é a foto estar “no lugar errado”.

E antes de ser um detalhe, o “lugar errado” é uma das estratégias utilizadas na produção de desinformação. Deslocar informações verdadeiras de seus contextos podem produzir sentidos diversos e até mesmo falsos.

E dentro da atual conjuntura de combate à pandemia de desinformação que nos assola, com todo o debate sobre confiabilidade de informações, jornalismo profissional, apego à factualidade possível etc., ao mesmo tempo que nos deparamos com outros tipos de montagens fotográficas e “deepfakes” a serviço descarado de produção de notícias falsas, fica a pergunta: foi pertinente a escolha da Folha de S.Paulo de utilizar esse recurso imagético, controverso, de “múltipla exposição” em sua primeira página?

Definitivamente, não. Para além do “lugar errado”, sob a perspectiva da análise do discurso, foi também o “momento errado”, pela perspectiva da sociologia da comunicação e frente ao contexto de manipulação desinformativa que estamos.

Uma instância de enunciação complexa – responsabilidades

O jornal é uma instância de enunciação complexa, ou seja, são diversos os enunciadores que concorrem na produção de sentido presente nas páginas de um jornal. Quem escreve um texto nem sempre é aquele que coloca o título. Quem escolhe a fotografia não é aquele que a tirou, quem diagrama a página tampouco é quem escolhe as imagens, por exemplo. E todos eles criam um enunciador, ou “superenunciador”, nesse caso Folha de S.Paulo. Tanto que é comum dizermos “a Folha disse que…” (quem é a Folha?).

Tendo isso em mente, e também entendendo que o problema não está na fotografia em si, mas onde ela foi publicada (capa de um jornal) e também em qual contexto, o enunciador-fotógrafo é quem menos tem responsabilidade por todo ruído criado neste caso. Cabe aqui, aliás, registrar a repulsa aos ataques que o enunciador-fotógrafo (no caso, uma fotógrafa) acabou sofrendo.

A escolha de publicar aquela fotografia, naquele lugar e nesse momento foi uma decisão que certamente não foi tomada por uma única pessoa, ainda mais por se tratar da primeira página de um dos principais jornais do país. Essa instância de enunciação complexa que é conhecida por Folha de S.Paulo e que, não menos importante, possui rígida hierarquia, é a responsável. E, sendo assim, é possível dirigir-lhe a palavra: “Folha, você errou.”.

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Rodolfo Vianna

Jornalista, doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem, autor da tese “Aspas verbo-visuais”, que estuda efeitos de sentido na relação entre textos e fotografias no jornalismo.

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