No atual cenário de escalada militar entre Irã e Israel, com os Estados Unidos desempenhando papel central no tabuleiro geopolítico, o ecossistema de informação no Oriente Médio tornou-se ele próprio um campo de batalha estratégico.
Para compreender o que está acontecendo no Oriente Médio, o *desinformante entrevistou Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism (ARIJ) que atualmente mora na Jordânia. Com mais de duas décadas de atuação no jornalismo e na produção documental – incluindo passagem pela Al Jazeera e a criação da premiada série Al-Nakba – Damen lidera desde 2020 a principal organização sem fins lucrativos dedicada ao jornalismo investigativo e à verificação de fatos no mundo árabe.
Sob sua gestão, a ARIJ estruturou a primeira rede regional de checadores, lançou uma plataforma árabe para denunciantes e desenvolveu uma estratégia voltada ao uso responsável de inteligência artificial, além de supervisionar a publicação de centenas de investigações. A partir dessa trajetória, a jornalista jordaniana analisa, nesta conversa, os dilemas e as distorções que marcam o atual ecossistema informacional em tempos de guerra.
Ao *desinformante, a jornalista comentou sobre as campanhas coordenadas de desinformação e proliferação de conteúdos sintéticos produzidos com inteligência artificial. Damen também explicou como restrições ao acesso à internet impõem obstáculos adicionais a jornalistas e checadores de fatos em uma região onde o exercício da profissão já convive historicamente com pressões políticas, normas restritivas e riscos permanentes à segurança.
De acordo com ela, nesse ambiente, profissionais da informação enfrentam um cenário particularmente adverso. Trabalham sob bombardeios, lidam com ameaças físicas e digitais e precisam distinguir, em tempo real, o que é fato ou fabricado em meio a uma guerra que também se desenrola nas plataformas digitais e nos algoritmos.
Leia abaixo a entrevista completa com Rawan Damen.
Desinformante: Como você descreveria o atual ambiente de informação no Oriente Médio em meio à escalada de tensões e bombardeios?
Rawan Damen: No momento, estamos navegando por um enorme apagão informativo. Com a paralisação da internet no Irã e uma narrativa oficial estritamente controlada em todo o Golfo, criou-se um severo ‘vácuo de notícias’ — um vácuo que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial. A situação é incrivelmente fluida, deixando-nos com muitos relatos não confirmados e uma profunda incerteza sobre para onde esta guerra está caminhando.
Para evitar vazamentos táticos, todos os países do Golfo restringiram a cobertura jornalística a canais governamentais ‘credenciados’ ou oficiais. Compartilhar clipes ou fotos ‘não autorizados’ agora é crime, com proibições rigorosas para que residentes filmem ou carreguem imagens de ataques e interceptações. Embora as autoridades apresentem estas como medidas de segurança nacional e proteção pública, isso efetivamente silencia a cobertura jornalística independente feita no território.
Também é importante reconhecer que as informações vindas dos EUA e de Israel não são muito mais claras, uma vez que as fontes militares — em vez da mídia independente — continuam sendo os principais guardiões da informação.
Com os 20 anos de história da ARIJ na região, nossos jornalistas investigativos e verificadores de fatos estão se adaptando rapidamente. Estamos nos apoiando fortemente em técnicas de OSINT (Inteligência de Fontes Abertas) e verificação por terceiros, usando imagens de satélite comerciais para contornar os apagões impostos pelos estados, tanto no Irã quanto no Golfo, em busca da verdade.
Desinformante: Vocês identificaram narrativas significativas de desinformação relacionadas ao conflito? Quais são as principais em circulação?
R. D.: Para detalhar, a desinformação que estamos vendo geralmente se enquadra em três categorias. Primeiro, há imagens recicladas, onde vídeos antigos de tragédias passadas estão sendo reaproveitados como se fossem ataques atuais.
Depois, estamos vendo fabricações geradas por IA — imagens hiper-realistas de pontos de referência destruídos, projetadas especificamente para confundir o público.
Por fim, há a ‘falsificação’ psicológica. Devido ao vácuo de informação, atores patrocinados por Estados e hacktivistas estão preenchendo o silêncio com suas próprias narrativas para manipular o humor e percepção do público.
Desinformante: O que vocês têm observado sobre o uso de conteúdo gerado por IA neste contexto?
R. D.: Desde o primeiro dia, nossa Rede Árabe de Verificadores de Fatos (AFCN, na sigla em inglês) — liderada pela ARIJ e orgulhosamente signatária da Rede Internacional de Checadores de Fatos (IFCN, na sigla em inglês) — tem monitorado uma mudança importante.
Observamos que o uso de deepfakes e mídia sintética evoluiu. Não se trata mais apenas de ‘notícias falsas’; tornou-se uma ferramenta coordenada de guerra psicológica projetada para manipular e desestabilizar o público.
Estamos vendo a IA ser usada como arma para fabricar ‘provas’ de destruição que nunca aconteceram de fato. Esses clipes são especificamente criados para se tornarem virais e causarem pânico antes mesmo que as negativas oficiais possam ser divulgadas.
Um exemplo perfeito foi um vídeo viral no Facebook mostrando o edifício Burj Khalifa inclinando e desabando — conteúdo que foi totalmente fabricado, como verificado pelo VERA Files.
Também está claro que isso não é apenas compartilhamento de notícias por pessoas; o alcance está sendo fabricado por redes massivas de bots automatizados para garantir que o caos se espalhe o máximo possível.
Desinformante: Há um aumento no discurso de ódio ou incitação ao ódio relacionado ao conflito nas plataformas de mídia social?
R. D.: Há uma onda massiva e confirmada de discurso de ódio, linguagem desumanizadora e efetiva incitação à violência nas redes sociais neste momento. A polarização extrema deste conflito está alimentando o fogo, e isso está se manifestando de várias maneiras perigosas.
Desinformante: Em sua avaliação, a desinformação online está piorando o medo, as tensões ou a polarização no terreno?
R. D.: Relatórios verificados mostram que o espaço informativo não está apenas refletindo o conflito — ele está o impulsionando. O que está acontecendo online é agora uma causa primária das consequências psicológicas e sociais que estamos vendo se desenrolar no território.
Desinformante: Vocês estão atualmente em contato com jornalistas, verificadores de fatos ou organizações da sociedade civil na região? Como eles estão lidando com este momento?
R. D.: Nossos jornalistas palestinos em Gaza e nossos colegas no Líbano estão atualmente enfrentando ataques diretos de Israel, e operando sob condições de perigo inimaginável.
Em toda a região, de maneira mais ampla, as centenas de jornalistas e verificadores de fatos com quem trabalhamos estão focados primeiro na sobrevivência básica, e depois na resiliência necessária para continuar trabalhando. Eles estão fazendo um esforço tremendo para se proteger em todas as frentes — física, digital e mentalmente — enquanto navegam por complexos desafios profissionais e de DEI-B (Diversidade, Equidade, Inclusão e Pertencimento). Seu compromisso com seu ofício, mesmo enquanto protegem suas próprias vidas, é nada menos que heroico.
Desinformante: Como você descreveria as condições de trabalho para os profissionais de informação durante este período de conflito armado?
R. D.: As condições de trabalho para os profissionais de informação em todo o Oriente Médio atingiram um limiar crítico de perigo e restrição sistêmica. Agências internacionais atualmente descrevem o panorama regional como um ambiente fraturado: um “vácuo de notícias” em zonas de conflito e um “estado de vigilância de alta pressão” em outras.
Os desafios operacionais aumentaram significativamente:
- Riscos Direcionados: Escritórios de mídia em Gaza e veículos de mídia iranianos enfrentaram ataques diretos de Israel, criando um ambiente letal para aqueles na linha de frente.
- Paralisia da Infraestrutura: Profissionais de informação tentam noticiar sob bombardeios ativos, enquanto no Irã, o bloqueio sistemático de chips de celular e apagões totais da internet tornaram a verificação em campo quase impossível.
- Impedimento Profissional: Essas condições vão além do perigo físico; representam uma incapacidade fundamental de transmitir informações, impedindo que os jornalistas cumpram seus deveres profissionais básicos e deixando o público às escuras.
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