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IA, polarização e desinformação: os desafios das eleições de 2026 na América Latina

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Em 2026, ao menos 58 países realizarão eleições no mundo. Na América Latina, cinco nações irão ou já foram às urnas escolher seus representantes políticos: além do Brasil, integram essa lista Colômbia, Peru, Haiti e Costa Rica.

Na região latinoamericana,  o calendário eleitoral de 2026 se desenrola em um ambiente digital profundamente transformado, marcado pela ampla disseminação de ferramentas de inteligência artificial generativa, por mudanças nas políticas de moderação das grandes plataformas e por níveis elevados de polarização política.

Pesquisadores e organizações que monitoram a integridade informacional na região apontam que o ciclo eleitoral de 2026 tende a intensificar tendências já observadas em pleitos recentes, com destaques para campanhas desinformativas sobre fraude eleitoral, ataques a jornalistas e violência política de gênero agravada por IA.

Especialistas apontam que, apesar de alguns avanços pontuais, muitos países da região ainda operam com marcos eleitorais pouco adaptados às dinâmicas do ambiente digital

“As normas ainda estão muito focadas nos formatos analógicos. O que vemos hoje são campanhas digitais com influenciadores e estratégias de monetização que ficam completamente fora das regras eleitorais”, afirma Jamila Venturini, diretora executiva da Derechos Digitales. 

Segundo ela, isso faz com que grande parte das respostas à desinformação dependa da atuação de jornalistas e organizações de checagem, atores que também se tornaram alvos frequentes de ataques políticos.

Mudanças na moderação das plataformas ampliam incertezas

Outro fator que preocupa pesquisadores é a transformação recente nas políticas de moderação das grandes plataformas digitais. Nos últimos anos, empresas reduziram equipes de confiança e segurança, flexibilizaram regras sobre determinados conteúdos e ampliaram discursos centrados na defesa irrestrita da liberdade de expressão, especialmente com a volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Segundo Venturini, “a flexibilização da moderação teve um efeito muito visível em plataformas como o X, com aumento de conteúdos de violência e discriminação que acabam sendo explorados por campanhas políticas”, diz.

A especialista também aponta que, em vários países da região, ainda não existem canais claros de cooperação entre plataformas e autoridades eleitorais, o que dificulta respostas rápidas a campanhas coordenadas de desinformação.

Ao cenário se somam as mudanças nos próprios modelos de verificação de informações adotados pelas plataformas. Em alguns casos, empresas têm encerrado programas estruturados de checagem de fatos realizados por organizações jornalísticas independentes e migrado para sistemas baseados em contribuições da comunidade, como mecanismos de notas ou verificações colaborativas entre usuários.

Deslegitimação das eleições como estratégia política regional

A disseminação de narrativas que colocam em dúvida a integridade dos processos eleitorais também aparece como uma tendência mais ampla no debate político latino-americano. Para especialistas, esse tipo de discurso tem sido utilizado como ferramenta de mobilização política e de erosão da confiança pública nas instituições democráticas.

Helena Salvador, coordenadora de Mobilização e Campanhas do Pacto pela Democracia, afirma que o fenômeno está inserido em uma dinâmica global. “A descredibilização do processo eleitoral é um fenômeno associado a dinâmicas de autocratização. Narrativas que colocam em dúvida a lisura das eleições deixam de ser críticas institucionais legítimas e passam a funcionar como instrumentos de desestabilização democrática”, explica.

Segundo ela, episódios recentes ilustram essa tendência. Durante o atual ciclo eleitoral colombiano, por exemplo, declarações do presidente Gustavo Petro questionando o sistema de votação geraram controvérsia pública. Situação semelhante ocorreu no Chile, quando aliados do candidato de extrema direita José Antonio Kast levantaram dúvidas sobre a confiabilidade do processo eleitoral.

Estratégias desse tipo também apareceram este ano na Costa Rica, onde circularam imagens manipuladas envolvendo candidaturas e conteúdos destinados a descredibilizar o tribunal eleitoral, adversários políticos e veículos de imprensa, em alguns casos impulsionados por atores ligados ao campo governista.

🇧🇷 Brasil: disputa de 2026 testa preparo institucional contra desinformação

No Brasil, as eleições gerais estão marcadas para 4 de outubro de 2026, com possibilidade de segundo turno presidencial em 25 de outubro. O cenário político indica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve disputar a reeleição, enquanto a direita chega ao pleito fragmentada após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, em setembro, por tentativa de golpe de Estado.

Bolsonaro permanece inelegível e indicou o senador Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência. A indicação, no entanto, não reúne consenso dentro do campo conservador. Entre os nomes que também aparecem como possíveis candidatos estão os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo; Ratinho Júnior (PSD), do Paraná; e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais.

Apesar da forte polarização política, especialistas avaliam que o Brasil chega ao novo ciclo eleitoral com maior preparo institucional para lidar com campanhas de desinformação do que em pleitos anteriores. Segundo Helena Salvador, nos últimos anos houve avanços importantes no reconhecimento da necessidade de regular plataformas digitais e fortalecer as regras eleitorais como forma de proteger o ambiente informacional.

“A gente tem hoje um arcabouço eleitoral mais robusto para lidar com a integridade informacional”, afirma. Ela destaca que instrumentos como o Código Eleitoral e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral passaram a ser cada vez mais utilizados como mecanismos de proteção do debate público durante o processo democrático.

Também se observa um esforço do TSE para ampliar a transparência do processo eleitoral e fortalecer a interlocução com a sociedade civil. Para Salvador, esse diálogo tem papel estratégico na construção de confiança nas instituições. “É importante que os canais de diálogo construídos ao longo dos últimos anos sejam preservados, independentemente de mudanças de liderança nas instituições”, diz.

A especialista também ressalta que a própria sociedade civil brasileira chega a este novo ciclo eleitoral mais preparada para enfrentar campanhas de desinformação. “Há hoje mais maturidade institucional e capacidade técnica, resultado da observação dos ciclos eleitorais recentes e do intercâmbio com organizações internacionais”, explica. 

🇨🇴 Colômbia: eleição presidencial ocorre em ambiente de forte disputa e desinformação

A Colômbia também terá um calendário eleitoral intenso em 2026. As eleições legislativas estão marcadas para 8 de março, mesma data em que os partidos devem realizar consultas internas para definir seus candidatos presidenciais. O primeiro turno da eleição presidencial ocorre em 31 de maio e, caso nenhum candidato alcance maioria absoluta, um segundo turno está previsto para 21 de junho.

O atual presidente, Gustavo Petro, não poderá disputar a reeleição. Entre os nomes associados ao campo governista aparecem o senador Iván Cepeda, além de Roy Barreras e Camilo Romero. Na oposição, despontam pré-candidatos como Mauricio Cárdenas, Vicky Dávila, Juan Manuel Galán, Aníbal Gaviria, David Luna, Juan Daniel Oviedo e Paloma Valencia.

Para José Sarmiento, diretor da Colombiacheck, o ambiente informacional já demonstra sinais de forte disputa narrativa. Segundo ele, a campanha “está muito carregada de desinformação”, tanto para atacar candidaturas quanto para gerar dúvidas sobre o sistema eleitoral. O especialista aponta que uma das novidades deste ciclo é o uso ampliado de IA generativa para produzir conteúdos manipulados envolvendo candidatos, por exemplo, montagens que os associam a guerrilhas, declarações falsas ou situações destinadas a prejudicar sua imagem pública.

Outro fator citado é a circulação de supostas pesquisas eleitorais sem metodologia clara, situação semelhante à observada na Bolívia nas eleições presidenciais do ano passado. Após a aprovação de uma nova lei que restringiu a divulgação formal de pesquisas de opinião, parte do debate público passou a ser preenchida por “sondagens informais, dados sem contexto ou cálculos baseados em redes sociais”, muitas vezes difundidos como se fossem pesquisas legítimas.

Sarmiento também alerta para o papel de autoridades políticas na amplificação de dúvidas sobre o processo eleitoral. Segundo ele, “o Executivo – especialmente o presidente – está alimentando suspeitas de fraude com base em informações falsas”, algo que, em sua avaliação, difere de ciclos anteriores.

Do ponto de vista institucional, o diretor da agência de checagem afirma que houve poucos avanços estruturais em relação às eleições passadas. Algumas instituições eleitorais passaram a investir mais em ações de pedagogia pública sobre o funcionamento do sistema de votação, mas o cenário também é marcado pelo enfraquecimento de organizações da sociedade civil que atuam na integridade eleitoral. 

A redução recente de recursos de cooperação internacional afetou iniciativas de monitoramento e checagem de fatos, o que pode limitar a capacidade de resposta à desinformação durante o processo eleitoral.

Haiti, Peru e Costa Rica: eleições em cenários distintos na região

Na Costa Rica, as eleições presidenciais e legislativas ocorreram em 1º de fevereiro. A candidata de direita Laura Fernández foi eleita presidente ainda no primeiro turno. Além do cargo presidencial, também foram escolhidos dois vice-presidentes e os 57 integrantes da Assembleia Legislativa do país.

No Haiti, o calendário prevê a realização de eleições gerais em 30 de agosto, com possibilidade de segundo turno presidencial em 6 de dezembro. Caso ocorram, serão as primeiras eleições no país em quase uma década. O processo acontece em meio a uma grave crise humanitária e à escalada da violência provocada por gangues armadas.

O Conselho Eleitoral Provisório estabeleceu as datas, mas alertou que a realização do pleito depende de garantias mínimas de segurança e da disponibilidade de recursos financeiros. Sem essas condições, há risco de que as eleições sejam novamente adiadas.

Já no Peru, as eleições presidenciais e legislativas estão previstas para 2 de abril, com eventual segundo turno marcado para 7 de junho. O processo ocorre em um cenário de forte fragmentação política: há um número recorde de pelo menos 34 candidatos inscritos, e as pesquisas indicam que nenhum deles deve alcançar mais da metade dos votos na primeira rodada.

Entre os nomes que aparecem com maior visibilidade estão o prefeito de Lima, Rafael López Aliaga, declarado simpatizante de Donald Trump, e a ex-deputada Keiko Fujimori, que disputa pela quarta vez a presidência, cargo que já foi ocupado por seu pai, Alberto Fujimori. O resultado definirá o nono presidente peruano em apenas uma década, em um país marcado por sucessivas crises institucionais e mudanças no comando do Executivo.


Os principais desafios nas eleições da América Latina

De acordo com especialistas, esses são alguns dos principais desafios que os países latinoamericanos deverão enfrentar nas eleições de 2026:

Uso de dados e estratégias de distribuição digital

  • Uso sofisticado de dados para segmentação eleitoral: campanhas têm ampliado estratégias de extração e uso de dados para direcionamento de mensagens políticas. Autoridades eleitorais e órgãos reguladores tentam responder com orientações e regras sobre proteção de dados, mas a região ainda apresenta forte desigualdade institucional nesse campo. Em vários países, os marcos de proteção de dados são recentes, frágeis ou pouco fiscalizados.
  • Distribuição multiplataforma de desinformação: conteúdos enganosos circulam simultaneamente em diferentes plataformas – de redes abertas como X (antigo Twitter) e TikTok até aplicativos de mensagens privadas. Na América Latina, especialistas destacam o papel central do WhatsApp, onde conteúdos são frequentemente redistribuídos em diferentes formatos, como imagens, vídeos curtos e mensagens encaminhadas em cadeia.
  • Uso combinado de automação e moderação estratégica: redes coordenadas que combinam automação digital e atuação humana têm sido utilizadas para amplificar determinados conteúdos e, ao mesmo tempo, blindar campanhas e candidatos de críticas ou contestação pública.

Estratégias discursivas e da deslegitimação do debate público

  • Estratégias discursivas para escapar da checagem: uma tática crescente consiste em apresentar alegações enganosas como “opinião política”, e não como afirmação factual. Ao se abrigar sob a proteção da liberdade de expressão, esse tipo de conteúdo busca evitar contestação ou rotulagem por verificadores de fatos. O fenômeno tem sido particularmente visível em narrativas sobre fraude eleitoral e desconfiança no sistema de votação.
  • Campanhas de desprestígio contra jornalistas e checadores: veículos de imprensa, jornalistas e organizações de verificação de fatos tornaram-se alvos recorrentes de campanhas de deslegitimação. Especialistas apontam que essas estratégias buscam enfraquecer intermediários informacionais e reduzir a credibilidade de fontes profissionais de informação.

Ataques à integridade eleitoral e às instituições democráticas

  • Desinformação sobre fraude eleitoral e ataques institucionais: narrativas que questionam a integridade do processo eleitoral têm aparecido com frequência crescente na região, muitas vezes combinadas à circulação de pesquisas falsas ou manipuladas de intenção de voto. 

Impacto das novas tecnologias

  • Violência política de gênero amplificada por IA generativa: a desinformação dirigida a mulheres na política – especialmente candidatas e lideranças femininas ou LGBTQIA+ – já era um fenômeno recorrente na região e tem ganhado nova escala com ferramentas de inteligência artificial. Deepfakes, montagens e conteúdos sintéticos têm sido usados para criar imagens e vídeos falsos com teor sexualizado ou difamatório. Casos desse tipo já foram registrados em países como Brasil, Argentina, México e Paraguai.
  • IA generativa amplamente acessível: além de permitir a criação de imagens, textos e vídeos sintéticos, ferramentas de IA também estão sendo usadas por eleitores para consultar ou verificar informações. Em alguns países, aplicativos de IA generativa passaram a integrar programas de zero-rating, ampliando o acesso. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a opacidade desses sistemas. Na Colômbia, por exemplo, um episódio recente chamou atenção quando o chatbot Grok respondeu a um usuário indicando que votaria em um candidato de extrema-direita e apresentou justificativas políticas para essa escolha, ilustrando as ambiguidades e riscos associados ao uso dessas tecnologias no debate público.
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