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Maior eleição do mundo começa com desinformação e islamofobia na Índia

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A Índia começa, hoje (19), a maior eleição do mundo. A estimativa é que quase 1 bilhão de eleitores decidam a nova formação do Congresso do país, num processo que se estenderá por 44 dias dividido em 7 fases. Os representantes legislativos eleitos também firmarão o próximo primeiro-ministro. Nessa eleição de grande magnitude, a desinformação e o discurso de ódio também ganham proporções específicas – a Índia é o país que mais possui desinformação em contexto eleitoral – enquanto as plataformas pouco fazem para tentar conter esses conteúdos, mesmo com todas as promessas.

De acordo com o mais recente relatório divulgado pela Eko em parceria com a Índia Civil Watch e com a London Story, a Meta facilitou ações danosas dentro das suas plataformas antes mesmo das eleições começarem. O estudo achou, por exemplo, uma rede coordenada de páginas que compartilharam conteúdos e pagaram por anúncios que violavam a política de transparência da big tech.

Dos anúncios ativos encontrados, 36 deles potencialmente também violam as leis eleitorais indianas, promovendo discurso de ódio, islamofobia, violência e desinformação. Algumas das peças atacavam mulçumanos, retratando-os como invasores sexualmente violentos, e opositores ao Partido do Povo Indiano (BJP, na sigla em hindi), que atualmente está no poder. As postagem acumularam entre 65 a 66 milhões de impressões. 

“O relatório fornece provas claras que mostram como a declaração de ‘preparação eleitoral indiana’ da Meta já está falhando devido às suas ações fragmentadas contra uma onda de questões sistêmicas vindas do seu modelo de negócios”, trouxe o documento.

No início do mês, o jornalista Abhishek Mukar também alertou como a Meta estava permitindo anúncios no Facebook e no Instagram criados por páginas administradas pelo BJP para atacar oponentes e glorificar violência. De acordo com Abhishek, o partido foi o que mais gastou com anúncios. “Este anúncio levanta sérias questões sobre a capacidade da Meta de aplicar eficazmente as suas políticas. A presença contínua desses anúncios polêmicos na plataforma destaca a disparidade entre a política e a prática da Meta”, afirmou.

Mas a Meta não está sozinha nessa. Um estudo lançado pela Global Witness em parceria com a Access Now, evidenciou como o YouTube aprovou campanhas pagas com conteúdos desinformativos. Foram submetidos 48 anúncios em inglês, hindu e telugu com alegações infundadas sobre fraude eleitoral, mentiras sobre procedimentos de votação e ataques à integridade eleitoral do país.

Na plataforma de vídeos, alguns dos canais de informação mais populares no país estão espalhando desinformação e discursos islamofóbicos, além de apoiar claramente o primeiro-ministro Narendra Modi e o Partido do Povo Indiano (BJP, na sigla em hindi), apontou uma matéria da rede Al Jazeera. Os canais que se dizem jornalísticos, de acordo com o texto, trazem ataques a políticos rivais e  compartilham teorias da conspiração envolvendo a população islâmica. A Índia é o maior mercado do YouTube, com 460 milhões de usuários.

Deepfakes são usadas para personalizar mensagens

A corrida eleitoral da Índia também se destaca como um momento de proliferação de deepfakes e outros conteúdos falsos sintéticos. Uma matéria do The New York Times desta semana mostrou como funciona uma agência especializada na criação de deepfakes de políticos, localizada no estado de Rajastão. Com apenas 5 minutos de conteúdo gravado, segundo a reportagem, foi possível criar novos 20 vídeos de saudações personalizadas com o rosto de um candidato.

A personalização da mensagem parece ser um objetivo bastante comum nessas eleições. Partidos e políticos estão utilizando o ChatGPT e tecnologias de clonagem de voz para criar áudios específicos para eleitores que chegam a eles por meio de ligações telefônicas.

“A Índia é um país onde as pessoas adoram tirar fotos com imitadores de celebridades. Portanto, se eles receberem uma ligação, digamos, do primeiro-ministro, e ele falar como se os conhecesse, onde moram e quais são seus problemas, eles ficariam realmente entusiasmados com isso”, comentou Nikhil Pahwa, editor da MediaNama, veículo especializado em mídia digital.

Em janeiro, a BOOM noticiou a presença de quatro deepfakes em áudio durante o pleito estadual do ano passado em Madhya Pradesh, estado localizado na região central do país. “Os deepfakes oferecem uma amostra de como os partidos políticos podem abusar da tecnologia de voz generativa de IA para enganar os eleitores”, pontuou a agência de checagem de informações.

Indústria da desinformação governamental

Na Índia, o governo do primeiro-ministro Narendra Modi, favorito à reeleição neste ano, é um dos principais produtores e divulgadores de desinformação online. Em setembro passado, uma matéria do The Washington Post destrinchou como as plataformas digitais, principalmente o WhatsApp, estão sendo utilizadas pelo grupo BJP para compartilhar material inflamatório, preconceituoso e falso, influenciando no processo eleitoral. Pesquisadores indianos também chegaram a comentar, ano passado, sobre como funciona a indústria da desinformação governamental do país.

“Para competir com o BJP, os partidos políticos da oposição criaram as suas próprias redes de desinformação, embora tenham muito trabalho a fazer para recuperar o atraso”, comentou Partha C.,  ativista dos direitos humanos e especialista em desinformação.

Além de espalhar notícias e informações falsas em prol do partido, o governo indiano também é conhecido por bloquear o acesso à Internet e remover conteúdos das plataformas sociais durante protestos. Conforme mostrou o Human Rights Watch, pelo menos 509 aplicativos, incluindo o TikTok, foram banidos no país. Em fevereiro deste ano, o governo também usou arbitrariamente os seus poderes para remover conteúdos críticos e jornalísticos nas redes sociais.

“As autoridades recorrem frequentemente ao bloqueio da Internet para conter protestos políticos e críticas ao governo, violando as normas jurídicas nacionais e internacionais que exigem que tais bloqueios promovam um objetivo legítimo e sejam necessários, proporcionais e legais”, afirma a organização. “Fechar a Internet antes ou durante as eleições corre o risco de acelerar a propagação da desinformação eleitoral e do incitamento à violência, ao ódio ou à discriminação, e dificulta a denúncia de violações dos direitos humanos.”

Sociedade civil pede que integridade eleitoral seja respeitada

No início de abril, um coletivo formado por 11 organizações da sociedade civil indiana enviou uma carta à Comissão Eleitoral do país levantando preocupações sobre a integridade eleitoral. Entre os pontos críticos destacados pelos signatários estão: a vigilância eleitoral, a presença de deepfakes e de anúncios ilegais nas plataformas digitais. 

A carta apelou à comissão para que fossem tomadas certas medidas para “defender a integridade das próximas eleições gerais”, como a criação de um modelo de código de conduta a ser seguido pelos políticos e pelas empresas de tecnologia. 

Esta semana, às vésperas do início das eleições, mais 38 organizações da diáspora indiana e aliados de todo o mundo enviaram um documento para o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, com 10 demandas para que a empresa proteja as eleições no país asiático. No entanto, não houve retorno da empresa sobre o comprometimento com os pedidos feitos pelas organizações e nem resposta ao movimento.

Em outubro passado, um bloco de oposição ao governo a Modi, chamado de INDIA, também chegou a escrever para os diretores-executivos da Meta e do Google, Mark Zuckerberg e Sundar Pichai respectivamente, pedindo para que as empresas mantivessem a neutralidade das plataformas durante a eleições gerais de abril e maio. A iniciativa não teve resposta das empresas norte-americanas.

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