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“Eleições da IA”: midterms dos EUA tem explosão de conteúdo sintético em meio a vácuo legislativo

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As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas nesta terça-feira (3), já estão sendo chamadas pela imprensa internacional como a “eleição da IA”. O apelido popularizado por analistas, reflete a expansão do uso de inteligência artificial generativa na produção de publicidade política durante o pleito deste ano, que teve foco em cargos legislativos. Imagens e vídeos sintéticos passaram a integrar campanhas eleitorais de candidatos e grupos ligados à republicanos e democratas, em um cenário de crescimento expressivo dos investimentos nesse tipo de conteúdo sem uma legislação federal que obrigue sua identificação, como ocorre no Brasil.

Pesquisadores têm chamado de “slopaganda” a proliferação dessas peças: uma combinação das palavras slop, que pode ser traduzida como conteúdo de baixa qualidade, e propaganda. O termo descreve a produção acelerada de anúncios políticos com imagens e vídeos gerados ou aprimorados por IA, frequentemente marcados por apelo visual exagerado e pouca preocupação com a qualidade estética ou informativa. Embora a estratégia seja utilizada pelos dois principais partidos do país, os dados disponíveis apontam uma concentração maior dos investimentos entre candidatos e grupos alinhados ao Partido Republicano.

Um levantamento do Wesleyan Media Project, iniciativa que monitora os gastos com publicidade política nos Estados Unidos, identificou US$ 187 milhões (cerca de R$ 1 bilhão de reais) investidos em 220 anúncios com conteúdo gerado ou aprimorado por IA até 11 de outubro. O volume representa um salto em relação a 2024, quando os gastos nessa categoria eram praticamente inexistentes.

A análise do projeto constatou que os republicanos concentraram a maior parte dos investimentos. Pouco mais de 90% do total (US$ 169 milhões) veio de candidatos republicanos, comitês do Partido Republicano ou grupos alinhados ao partido. Em relação à quantidade de anúncios individuais, 82% foram patrocinados por entidades republicanas, 13% por democratas e o restante por candidatos ou grupos independentes.

O próprio projeto, no entanto, alerta que os números podem estar subestimados: “nosso cálculo de gastos é quase certamente inferior ao nível real de gastos, visto que muitos anúncios não contêm avisos legais e alguns casos de uso de IA são difíceis de determinar apenas com a observação humana”. 

Reportagem da Reuters identificou anúncios com deepfakes em campanhas republicanas, incluindo um vídeo que simulava o candidato democrata ao Senado pelo Texas, James Talarico, fazendo declarações que nunca fez. O material trazia apenas um aviso discreto de que havia sido gerado por IA. Especialistas ouvidos pela agência alertaram que a circulação desses vídeos pode aprofundar a desconfiança nas instituições e comprometer a credibilidade do processo eleitoral.

Na avaliação de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley, o desafio vai além da tecnologia: quando informações falsas são produzidas e disseminadas com facilidade, os eleitores podem ter mais dificuldade para distinguir fatos de ficção e tomar decisões informadas. Ao mesmo tempo, os pesquisadores ressaltam que a desinformação política não surgiu com a IA e que ainda não é possível determinar seu peso específico no resultado das eleições.

Conteúdos sintéticos circularam sem regra federal

A dificuldade de identificar anúncios produzidos com IA é também reflexo da ausência de uma legislação federal abrangente sobre o tema nos Estados Unidos. Uma investigação da CNBC identificou anúncios gerados por IA que circularam sem qualquer aviso sobre o uso da tecnologia, apesar de aproximadamente 30 estados já terem aprovado leis com diferentes exigências de identificação. As regras, no entanto, variam de um estado para outro e nem sempre são cumpridas pelas campanhas. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou regras de uso de IA, incluindo a obrigação da sinalização de conteúdo sintético, que valeram para as eleições deste ano.

No Congresso, parlamentares de diferentes partidos apresentaram propostas para enfrentar o problema. Entre elas estão a Protect Elections from Depective AI Act (Lei de Proteção das Eleições contra a IA Enganosa), que pretende proibir a distribuição consciente de vídeos e áudios sintéticos materialmente enganosos sobre candidatos federais, e a AI Ads Act (Lei de Anúncios com IA), voltada à ampliação das exigências de transparência na publicidade política. Até o período analisado pela reportagem, porém, nenhum desses projetos havia avançado para além da comissão legislativa.

Plataformas chegaram às eleições com respostas insuficientes à IA

A ausência de uma regra federal uniforme também transfere às próprias empresas de tecnologia parte da responsabilidade de estabelecer limites para a circulação desses conteúdos. Mas, em vez de uma resposta coordenada, as plataformas adotaram políticas e ferramentas diferentes, com lacunas na identificação de conteúdos sintéticos, na moderação e na transparência sobre o funcionamento de seus sistemas.

Essa foi uma das conclusões de um relatório publicado em outubro pelo Institute for Strategic Dialogue (ISD) – organização que monitora o extremismo e o autoritarismo e seus impactos sobre a democracia e os direitos humanos – que avaliou como Facebook, Instagram, X, YouTube, Snapchat e TikTok estavam se preparando para as eleições, considerando suas políticas, compromissos públicos e recursos tecnológicos. A análise também examinou os possíveis efeitos dessas ferramentas sobre a percepção e o comportamento dos eleitores.

A avaliação geral do ISD é que as empresas não ignoraram a transformação provocada pela IA, mas suas respostas têm sido “desiguais, pouco documentadas e, em vários casos, inadequadas para enfrentar os danos que deveriam prevenir”. 

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Plataformas reduziram a checagem humana e ampliaram a moderação automatizada

Diante da questão da desinformação, o estudo do ISD mostrou ainda que as plataformas reduziram equipes de integridade e parcerias com organizações independentes de checagem, enquanto ampliaram o uso de IA na moderação de conteúdo. A Meta, por exemplo, substituiu cerca de metade das solicitações de revisão humana por modelos de linguagem na triagem inicial. YouTube e TikTok também passaram a utilizar sistemas automatizados para ampliar a moderação.

O estudo identificou ainda uma dependência crescente de mecanismos colaborativos, como as Notas da Comunidade do X, que enfrentam dificuldades para responder à velocidade da circulação de informações falsas. Pesquisas do ISD na plataforma mostraram que notas fundamentadas sobre temas políticos levavam, em média, 46 horas para serem publicadas ou não alcançavam o consenso necessário para aparecer.

Para os pesquisadores, a combinação de automação, redução da checagem profissional e menor transparência dificulta avaliar a eficácia dessas medidas. O acesso restrito a dados e ferramentas das plataformas também limita o monitoramento independente por pesquisadores e organizações da sociedade civil, justamente em um período em que a circulação de desinformação pode exigir respostas rápidas.

Notícias falsas e teorias de fraude marcaram o dia da votação

No próprio dia da votação, rumores sobre supostas irregularidades começaram a circular nas redes sociais antes mesmo do fechamento das urnas. Em reportagem publicada nesta quarta-feira (04), a Associated Press (AP) identificou alegações falsas ou sem comprovação sobre problemas técnicos, fraude eleitoral e condutas de funcionários nos locais de votação, usadas para alimentar suspeitas sobre a legitimidade do processo eleitoral.

Um dos casos ocorreu em Westchester, Nova York, onde uma falha técnica impediu máquinas de leitura de aceitar cédulas em diversos locais. Embora os eleitores tenham sido orientados a depositá-las em sacos para processamento posterior, publicações nas redes sociais apresentaram o problema, sem evidências, como uma tentativa dos democratas de impedir votos republicanos. O deputado republicano Mike Lawler, que disputava a reeleição, descartou a hipótese de fraude.

Na Geórgia, autoridades alertaram para mensagens falsas sobre mudanças nos locais de votação. Em Houston, o FBI desmentiu uma publicação sobre uma suposta operação que teria encontrado mais de 20 mil cédulas fraudulentas para candidatos democratas, afirmando que nenhuma ação policial relacionada às eleições havia ocorrido.

A AP também verificou alegações sobre a camiseta de uma funcionária eleitoral em Minnesota e uma publicação que distorcia uma orientação da NBC News sobre projeções para o controle do Congresso. 

Desinformação em meio a pressões sobre o processo eleitoral

As eleições norte-americanas de meio de mandato ocorrem em um contexto de tentativas de interferência no próprio processo eleitoral vindas do próprio governo Trump. A organização Protect Democracy descreveu esse cenário a partir de um padrão que chamou de Deceive, Disrupt, Deny (Enganar, Interromper e Negar), atribuído a iniciativas da administração do republicano.

A estratégia envolveria disseminar teorias da conspiração e alegações falsas sobre as eleições; usar o poder federal, ameaças de violência e mudanças nas regras para criar obstáculos a eleitores, autoridades e organizações; e, por fim, contestar ou tentar reverter resultados desfavoráveis.

Segundo a organização, essas iniciativas não começaram em 2026. Nos dois anos anteriores, propostas apresentadas pelo governo de Trump foram barradas nos níveis municipal, estadual e federal, entre elas medidas que poderiam levar à exclusão de eleitores legítimos de cadastros nacionais e à desqualificação de votos por correspondência por questões técnicas.

A Protect Democracy também alertou para tipos de desinformação que poderiam aparecer durante o pleito com potencial de impacto direto sobre a votação, como informações falsas sobre locais, datas e procedimentos de votação, alegações infundadas sobre a presença de eleitores inelegíveis nos registros e rumores sobre agentes federais próximos a locais de votação, capazes de intimidar eleitores. A presença de agentes federais com o objetivo de interferir na votação é proibida pela legislação dos Estados Unidos.

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No campo da disputa política, um compilado de checagens publicado pela agência FactCheck.org identificou distorções disseminadas por campanhas e grupos dos dois partidos. Entre os temas recorrentes estavam inflação e preço dos combustíveis; políticas de saúde, como Medicare e atendimento em áreas rurais; imigração e criminalidade; e cortes de impostos.

Também houve anúncios que distorciam posições de candidatos sobre direitos de pessoas trans, atribuíam a adversários vínculos com Jeffrey Epstein sem apresentar evidências de envolvimento em crimes ou associavam oponentes ao aumento dos preços da energia sem considerar outros fatores, como no debate sobre data centers.

Discurso anticomunista foi recorrente na campanha

A retórica anticomunista também marcou a campanha. O FactCheck.org identificou o uso recorrente do termo “comunista” por Trump e aliados republicanos para descrever democratas e socialistas democráticos, embora essas correntes políticas não sejam equivalentes.

Já um levantamento publicado em outubro pela Media Matters for America identificou estratégia semelhante em veículos de comunicação de direita em língua espanhola. Comentaristas associaram candidatos democratas progressistas a governos autoritários da América Latina e alertaram para uma suposta “tomada hostil” do Partido Democrata por comunistas. Segundo o monitoramento, esse discurso também foi usado para disputar o apoio do eleitorado latino nos Estados Unidos.

Suspeitas de interferência russa miraram candidatos democratas

Parlamentares democratas dos comitês de inteligência do Congresso afirmaram ter recebido informações de que a Rússia conduzia uma campanha de desinformação contra candidatos do partido nas eleições de meio de mandato. Segundo o senador Mark Warner e o deputado Jim Himes, a operação seguiria padrões identificados pela inteligência americana em pleitos anteriores, incluindo a disseminação de alegações falsas sobre candidatos e a tentativa de desacreditar os sistemas de votação. Entre os alvos mencionados estavam James Talarico, candidato ao Senado pelo Texas, e Jon Ossoff, senador pela Geórgia.

Em 29 de outubro, o X suspendeu 15 contas suspeitas de promover desinformação russa sobre as eleições, algumas com mais de 100 mil seguidores. O Institute for Strategic Dialogue, que identificou as remoções, afirmou, porém, que outros perfis influentes continuavam ativos. Especialistas ouvidos pela CNN avaliaram que, até aquele momento, a interferência russa havia sido limitada. Os parlamentares também ressaltaram não haver evidências de que algum país tivesse capacidade ou intenção de invadir os sistemas eleitorais e alterar os resultados.

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Altos aportes financeiros de Elon Musk, dono do X, marcaram o pleito 

O bilionário Elon Musk, dono da rede social X, destinou mais de US$ 445 milhões (equivalente a R$ 2,43 bilhões)  a comitês políticos federais nas eleições de 2026, tornando-se o maior doador individual conhecido da política americana moderna, segundo levantamento citado pela CNN.

Uma parte expressiva dos recursos foi direcionada a grupos republicanos, incluindo organizações que financiaram anúncios e ações contra candidatos democratas. No Texas, onde a disputa pelo Senado opôs James Talarico e Ken Paxton, ao menos US$ 168 milhões foram aplicados por meio de diferentes grupos ligados ao campo republicano. Musk também usou o X para amplificar críticas a Talarico, publicando mais de uma dezena de mensagens sobre o candidato na semana anterior à votação. 

Avanço democrata tira dos republicanos o controle do Congresso

Os democratas conquistaram o controle das duas casas do Congresso norte-americano nessas eleições de meio de mandato, revertendo a maioria republicana e impondo uma derrota expressiva ao partido republicano, de Donald Trump. A legenda venceu disputas em estados historicamente republicanos, como Texas, Kansas e Carolina do Sul, em um movimento associado pela Reuters à insatisfação dos eleitores com a guerra contra o Irã, o alto custo de vida e a condução do governo.

Para o pesquisador David Nemer, professor associado do Departamento de Estudos da Mídia e professor afiliado ao Departamento de Antropologia da Universidade da Virgínia, o resultado reflete ainda outros fatores como: a mobilização eleitoral, com quase 59 milhões de votos antecipados, o desgaste da imagem de Trump diante da insatisfação com seu governo e seus ataques às instituições e uma reação de eleitores à agenda da extrema direita.

O resultado inaugura um período de governo dividido em Washington e reduz a capacidade de Trump de conduzir sua agenda sem resistência parlamentar. A partir de janeiro, quando os novos congressistas assumirem, os democratas poderão bloquear indicações do presidente, pressionar por concessões em projetos de lei e abrir investigações sobre seu governo, familiares e aliados. Trump, que aceitou o resultado, mantém os poderes presidenciais de veto e de ação executiva, mas perde o apoio de uma maioria alinhada no Congresso.

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