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Desinformação, IA e polarização social lideram alertas de riscos globais em 2026

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A desinformação, as consequências adversas das tecnologias de inteligência artificial e a polarização social figuram entre os principais riscos globais para 2026, segundo o Relatório de Riscos Globais 2026, divulgado nesta semana pelo Fórum Econômico Mundial. Esta é a 21ª edição do estudo, considerado uma das principais referências internacionais sobre ameaças sistêmicas à estabilidade política, econômica e social.

O relatório é baseado em uma pesquisa anual com mais de 1.300 líderes globais e em consultas com especialistas em riscos. O documento analisa cenários em três horizontes temporais: curto prazo (2026), médio prazo (2028) e longo prazo (2036). A edição deste ano reforça o alerta para riscos informacionais e tecnológicos como vetores centrais de instabilidade econômica e fragmentação social.

Riscos imediatos

No recorte de curto prazo, que avalia quais riscos são considerados mais prováveis de gerar uma crise material em escala global ainda em 2026, o relatório aponta a polarização social como o quarto maior risco, com 7% das respostas, e a desinformação em quinto lugar, também com 7%. Já as consequências adversas das tecnologias de inteligência artificial aparecem na oitava posição, com 4%.

Quando a análise se desloca para o horizonte de dois anos, considerando o impacto provável (gravidade) dos riscos até 2028, a hierarquia se altera. A desinformação sobe para a segunda colocação, consolidando-se como uma das principais preocupações globais. A polarização social aparece em terceiro lugar, enquanto as consequências adversas da IA deixam o top 10, embora sigam presentes no conjunto de riscos estruturais monitorados pelo relatório.

O estudo também revela diferenças relevantes por perfil dos respondentes. Entre pessoas na faixa etária de 30 a 39 anos, a desinformação aparece como o principal risco global. O mesmo ocorre entre respondentes da sociedade civil. Já entre os outros setores (organizações internacionais, academia, governos e setor privado) a desinformação ocupa a segunda posição, repetindo o padrão observado no resultado geral.

Projeções até 2036

No horizonte de longo prazo, até 2036, o relatório indica que esses riscos não apenas persistem, como ganham densidade estrutural. A desinformação ocupa a quarta posição entre os principais riscos globais projetados para a próxima década. As consequências adversas das tecnologias de inteligência artificial aparecem em quinto lugar, enquanto a polarização social figura na nona posição.

Lista de principais riscos globais elaborado pelo Fórum Econômico Mundial. À esquerda, a lista de curto prazo (dois anos) e à direita a lista de longo prazo (10 anos). Fonte: FEM.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, esse cenário reflete a consolidação de tendências que não são pontuais, mas estruturais, e que se alimentam mutuamente.

Aceleração tecnológica e novos riscos sistêmicos

O relatório agrupa as consequências adversas da IA dentro da categoria de aceleração tecnológica, uma das quatro forças estruturais que moldam o cenário global de riscos. De acordo com o documento, essa aceleração está relacionada “às trajetórias de desenvolvimento de tecnologias emergentes e às mudanças significativas e aceleradas esperadas para os próximos 10 anos”.

O Fórum ressalta que, embora os avanços tecnológicos estejam impulsionando transformações positivas em diversos setores, eles também estão criando novos vetores de risco, especialmente quando associados a usos maliciosos, ausência de governança e assimetrias de poder tecnológico.

Entre os pontos de maior preocupação destacados no relatório está a proliferação de deepfakes, definido como “vídeos, imagens e áudios digitalmente manipulados”. O Fórum Econômico Mundial aponta que o uso político dessas tecnologias, especialmente em contextos eleitorais, representa uma ameaça direta às instituições democráticas.

Segundo o relatório, deepfakes podem “minar a confiança nas instituições, aprofundar a polarização política e levar à incitação de violência política ou agitação social”. O documento cita processos eleitorais recentes em países como Estados Unidos, Irlanda, Paquistão e Argentina, que enfrentaram ondas de conteúdos fabricados nas redes sociais, seja para retratar eventos fictícios, seja para descredibilizar candidatos, borrando as fronteiras entre fato e ficção.

A conexão entre desinformação e polarização social

Apesar de estarem classificadas em categorias distintas – a desinformação no eixo informacional e tecnológico, e a polarização social no eixo social – o relatório destaca que uma das interconexões mais fortes do Global Risks Perception Survey (GRPS) ocorre justamente entre esses dois fenômenos.

Segundo o documento, em um ambiente cada vez mais fragmentado e atravessado por novas capacidades tecnológicas, a informação se torna especialmente vulnerável à manipulação para influenciar resultados políticos ou gerar ganhos econômicos. Esse processo, aponta o relatório, contribui para o aprofundamento de fraturas sociais e políticas, agravando ressentimentos, endurecendo crenças, reduzindo o pensamento crítico e amplificando visões extremistas.

O estudo também alerta para o ambiente digital como epicentro dessa crise informacional: “a integridade das notícias e das informações na internet está cada vez mais ameaçada”, em um contexto em que distinguir entre conteúdos autênticos e sintéticos se torna progressivamente mais difícil.

Caminhos apontados pelo relatório

No campo das respostas possíveis, o relatório destaca que o enfrentamento da polarização social exige a articulação de recursos financeiros, tecnologia, dados e conhecimento entre múltiplos atores. Segundo o documento, essa coordenação amplia o alcance das iniciativas e fortalece sua sustentabilidade ao longo do tempo.

O documento também enfatiza que reconstruir a confiança institucional passa, necessariamente, pelo enfrentamento da desinformação. À medida que as tecnologias avançam em sofisticação, o relatório defende a aceleração de políticas de alfabetização digital e midiática, apontadas como ferramentas centrais para fortalecer a resiliência social diante de ambientes informacionais cada vez mais complexos.

Relatório orienta agenda do Fórum de Davos 2026

Além de mapear riscos, o Relatório de Riscos Globais 2026 também orienta a agenda política do Fórum Econômico Mundial. O documento serve como base para os debates da Reunião Anual do Fórum em Davos, marcada para ocorrer entre 19 e 23 de janeiro de 2026.

Neste ano, o encontro terá como eixo central o restabelecimento de um chamado “Espírito de Diálogo”, em um contexto internacional marcado por fragmentação política, tensões geopolíticas e disputas informacionais. 

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