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Copa do Mundo: Desinformação, IA e polarização entram em campo

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Na Copa do Mundo de 2026 as disputas não se restringem aos gramados. Fora de campo, uma outra competição já está em andamento: a que envolve a circulação de informações, a segurança digital e as narrativas que disputam a atenção do público em um dos eventos de maior repercussão global.

Sediada pela primeira vez em três países: Estados Unidos, Canadá e México, a Copa do Mundo de 2026 reúne 48 seleções e 104 partidas, tornando-se a maior edição da história do torneio.

A ampliação do campeonato vem acompanhada de um contexto internacional que tem levado especialistas a apontá-la como uma das Copas mais politizadas já realizadas. Isso porque a competição ocorre em meio ao endurecimento das políticas migratórias adotadas pelo governo do presidente estadunidense Donald Trump, refletido em regras mais rígidas e altas taxas de negação de vistos, além de proibições de viagem que afetam torcedores, equipes técnicas e jornalistas.

Soma-se a isso um cenário de tensões geopolíticas inéditas: pela primeira vez na história do Mundial, um dos países anfitriões, os Estados Unidos, está envolvido em um conflito militar com uma das seleções participantes, o Irã. 

Em grandes eventos globais, a combinação entre alta visibilidade, circulação acelerada de conteúdos e intensa mobilização do público cria um ambiente propício para a atuação de agentes interessados em explorar a atenção coletiva para fins políticos, econômicos e ideológicos.

Um levantamento do veículo polonês PAP, por exemplo, identificou o aumento de fraudes cibernéticas e tentativas de roubo de dados direcionadas aos fãs do torneio, acompanhando alertas já emitidos por órgãos públicos e privados de segurança cibernética, incluindo o FBI e o governo canadense.

O alerta do governo canadense

A dimensão da disputa informacional já mobiliza, inclusive, os países anfitriões. Dias antes do início do Mundial, o Centro Canadense de Segurança Cibernética (Canadian Centre for Cyber Security) publicou um boletim alertando que a Copa do Mundo de 2026 representa um ambiente de alto risco para a ocorrência de ameaças digitais.

Entre os principais riscos apontados estão golpes financeiros, campanhas de phishing, ataques a plataformas de venda de ingressos e transmissões, disseminação de desinformação e operações de influência impulsionadas por conteúdos gerados por inteligência artificial, incluindo deepfakes.

O órgão canadense também alerta que o intenso interesse público em torno da Copa pode ser explorado para amplificar narrativas enganosas e semear desconfiança, divisões sociais e questionamentos sobre instituições e autoridades envolvidas no evento. 

Do entretenimento aos mercados ilegais

Os alertas sobre a circulação de conteúdos enganosos já começaram a se concretizar. Um dos casos mais inusitados envolveu a cantora colombiana Shakira: logo após a cerimônia de abertura, viralizou nas redes a teoria de que a artista que subiu ao palco não seria a cantora de verdade, mas uma dublê.

O boato foi rapidamente contestado por fãs brasileiros, que reuniram imagens e características físicas da artista em uma espécie de “fact-checking de fã-clube”.

Outro episódio envolveu uma imagem falsa que mostrava um suposto sósia de Adolf Hitler na arquibancada durante a vitória da Alemanha sobre Curaçao. A informação, que acumulou milhões de visualizações e circulou acompanhada de mensagens anti-alemãs, foi desmentida pela DW, que comparou a imagem viral à transmissão oficial da partida e identificou indícios de manipulação por inteligência artificial.

A desinformação também tem sido utilizada para impulsionar atividades ilícitas. Investigação da Agência Lupa mostrou que empresas de tecnologia foram flagradas utilizando a Copa do Mundo como argumento comercial para vender plataformas de apostas ilegais, prometendo colocar casas de apostas no ar em até 24 horas, em desacordo com a legislação brasileira.

Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, essas operações expõem consumidores a fraudes, roubos de dados e enfraquecem mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e à manipulação esportiva.

Inteligência artificial e polarização entram em campo 

Conteúdos produzidos com inteligência artificial vêm sendo usados para inflamar disputas políticas a partir da Copa, é o que revelou um levantamento do Aos Fatos

Entre os exemplos checados pela agência estão entrevistas falsas de torcedores com ataques a apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, imagens manipuladas de cartazes políticos nas arquibancadas e publicações enganosas que associam o torneio a disputas geopolíticas em torno do conflito entre Irã, Estados Unidos e Israel.

O impacto do Mundial sobre o debate político também foi sentido nas conversas privadas. Um monitoramento realizado pela Palver e publicado pela Folha de S.Paulo, a partir da análise de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, mostrou que, durante a estreia do Brasil, a conversa sobre política envolvendo nomes como o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro caiu pela metade na janela da partida.

A redução do debate político, no entanto, não significou uma suspensão da polarização. Cerca de uma a cada 20 mensagens sobre a seleção incorporava disputas políticas em tom de deboche, com comentários como “seleção do Lula” e “Marrocos é petista”.

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