Os caminhos percorridos pelos brasileiros para acessar notícias, acompanhar a política e consumir conteúdos informativos mudam significativamente conforme a região do país. Enquanto no Nordeste as redes sociais ocupam posição central na rotina informativa, no Sudeste a televisão ainda lidera quando o assunto é informação política. No Norte, aplicativos de mensagem desempenham papel relevante na circulação de conteúdos, e no Sul o consumo se distribui de forma mais equilibrada entre diferentes meios de comunicação.
Essas são algumas das conclusões da pesquisa Caminhos da Informação no Brasil: principais hábitos informacionais dos brasileiros por região, lançada pelo Aláfia Lab como parte do projeto Desigualdades Informativas. O estudo mostra que as desigualdades informacionais também possuem uma dimensão territorial e que não existe um modelo único de consumo de informação no país.
A análise investigou como moradores das cinco regiões brasileiras utilizam televisão, redes sociais, aplicativos de mensagem, sites jornalísticos e plataformas de vídeo para acessar notícias, informações do cotidiano e conteúdos políticos. Os resultados revelam que a combinação entre esses meios varia conforme características regionais, produzindo ecossistemas informacionais bastante distintos.
A pesquisa foi realizada pelo Instituto IDEIA entre os dias 24 e 25 de setembro de 2025. Foram entrevistadas 1.512 pessoas com 18 anos ou mais em todo o país. O levantamento possui margem de erro de 2,5 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Para Ellen Guerra, pesquisadora do Aláfia Lab e uma das responsáveis pelo estudo, o principal achado da pesquisa é evidenciar que não existe um padrão único de consumo de informação no Brasil. “A forma como os brasileiros acessam e compartilham informação está profundamente relacionada ao território em que vivem”, resume.
Na avaliação da pesquisadora, as diferenças identificadas reforçam a necessidade de compreender os ecossistemas informacionais regionais, em vez de tomar as médias nacionais como suficientes para explicar a realidade brasileira. Esse olhar, afirma, também pode orientar políticas públicas territorializadas e estratégias mais eficazes de enfrentamento à desinformação.
Confira os dados por região:
1. Norte
2 . Nordeste
3. Centro-Oeste
4. Sudeste
5. Sul
Norte
No Norte, as redes sociais são a principal porta de entrada para a informação. Mais da metade dos entrevistados (54,2%) afirma recorrer a essas plataformas para acompanhar notícias e acontecimentos do cotidiano. Ao mesmo tempo, a região registra um dos maiores índices nacionais de uso de aplicativos de mensagem para informação, utilizados por 33,9% da população.
Os dados sugerem um ecossistema em que a circulação privada de conteúdos possui papel relevante. O Norte concentra um dos maiores percentuais de pessoas que afirmam se informar exclusivamente por conversas individuais no WhatsApp (37,1%), indicando que parte importante do consumo informativo ocorre em ambientes fechados e mediados por relações pessoais.
O estudo também identifica características específicas nas plataformas. Embora o Instagram seja a principal rede social para informação, sua hegemonia é menor do que nas demais regiões. Ao mesmo tempo, perfis associados à direita digital apresentam presença acima da média nacional. O Brasil Paralelo, por exemplo, alcança no Norte seu maior índice de consumo no país, chegando a 25%, mais que o dobro da média nacional.
Outro aspecto destacado pela pesquisa é a presença do entretenimento como mediador da informação. Perfis de humor lideram o consumo informativo no YouTube (47,4%) e páginas como Choquei registram adesão superior à observada em regiões como Sudeste e Sul.
Nordeste
O Nordeste concentra o maior uso das redes sociais para informação entre todas as regiões brasileiras. Segundo o levantamento, 57,8% dos entrevistados utilizam essas plataformas para acompanhar notícias e acontecimentos do cotidiano.
Esse protagonismo também aparece quando o tema é política. Quase metade da população nordestina (47,2%) afirma recorrer às redes sociais para acompanhar assuntos políticos, o maior percentual registrado na pesquisa.
O Instagram ocupa posição central nesse cenário. Além de apresentar um dos maiores índices de uso para informação (75,5%), a plataforma é apontada por 52,4% dos entrevistados como sua principal fonte de notícias e conteúdos informativos, percentual bem acima da média nacional.
A pesquisa também mostra que o Nordeste reúne diferentes formas de circulação da informação. O TikTok concentra o maior acompanhamento de perfis de veículos jornalísticos do país, enquanto o Kwai registra sua maior presença nacional na região. Ao mesmo tempo, influenciadores, celebridades e perfis de entretenimento convivem com veículos tradicionais de imprensa, como o G1.
Outro diferencial está no WhatsApp. O Nordeste lidera nacionalmente o recebimento de informações por meio de amigos (74,8%) e conhecidos (57%), indicando que relações de proximidade possuem papel decisivo na circulação cotidiana de conteúdos.
Centro-Oeste
Já no Centro-Oeste, os aplicativos de mensagem assumem protagonismo quando o assunto é informação política. A região registra o maior percentual de pessoas que utilizam plataformas como WhatsApp e Telegram para acompanhar temas políticos (22,5%).
As redes sociais seguem como principal fonte de informação para metade da população, mas o estudo aponta características particulares na forma como esses ambientes são utilizados.
O Centro-Oeste lidera nacionalmente o uso do TikTok como plataforma de informação, alcançando 50% dos entrevistados. Também apresenta o maior acompanhamento de perfis políticos no Instagram (41,5%), além de forte presença de conteúdos religiosos e de humor tanto no Instagram quanto no YouTube.
Outro aspecto observado pela pesquisa é o peso dos grupos de WhatsApp. Embora as conversas individuais permaneçam predominantes, a região registra os maiores índices nacionais de pessoas que afirmam se informar principalmente ou exclusivamente por grupos, sugerindo uma dinâmica de circulação coletiva mais intensa do que no restante do país.
Sudeste
O Sudeste, por sua vez, é a única região brasileira em que a televisão permanece à frente das redes sociais como principal fonte de informação política. Segundo a pesquisa, 48,4% dos entrevistados utilizam a TV para acompanhar assuntos políticos, enquanto 42,3% recorrem às redes sociais.
Esse resultado diferencia o Sudeste das demais regiões e indica que os meios tradicionais continuam desempenhando papel importante na formação da agenda política regional.
Ao mesmo tempo, o ambiente digital mantém forte presença. O Sudeste registra um dos maiores índices nacionais de uso do Instagram para informação (74,5%) e concentra elevado consumo de veículos jornalísticos tradicionais em suas versões digitais, como O Globo e Folha de S.Paulo, além da Jovem Pan News.
A pesquisa também mostra que influenciadores e celebridades ocupam espaço relevante no consumo de conteúdos informativos dentro do Instagram, enquanto perfis de humor lideram o consumo informativo no YouTube.
Sul
No Sul, o consumo de informação é marcado por maior equilíbrio entre diferentes meios de comunicação. Sites e portais jornalísticos (46,2%), televisão (46,2%) e redes sociais (45,8%) apresentam níveis semelhantes de utilização, cenário distinto daquele observado nas demais regiões.
Ao mesmo tempo, o Sul registra os menores índices nacionais de consumo de jornais impressos (4,9%) e revistas impressas (3,1%), indicando a perda de espaço desses formatos na rotina informativa da população.
Os aplicativos de mensagem também possuem menor centralidade. A região apresenta o menor uso dessas plataformas tanto para informação em geral quanto para informação política, onde apenas 12,4% afirmam utilizá-las para acompanhar temas políticos.
Apesar disso, plataformas digitais continuam relevantes. O Sul lidera nacionalmente o consumo de informação no YouTube e apresenta o maior acompanhamento de perfis de humor no TikTok. Diferentemente das demais regiões, o Facebook ainda preserva importância relativamente elevada como principal fonte de informação, sugerindo uma transição menos acelerada para outras redes sociais.
