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Pontos de vista

mar 2, 2026 | Destaques, Pontos de Vista

Celulares e hiperestímulo: a necessidade de resgatar a presencialidade em sala de aula

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“Ruído” é um conceito que diz respeito a tudo o que atrapalha processos de comunicação, impedindo ou dificultando que uma mensagem, idealizada por um emissor, chegue ao seu receptor. As notificações dos celulares, hoje em dia, mais do que lembretes úteis de novas informações, representam os tais ruídos. Não por acaso é tão comum pegarmos o celular com uma intenção específica, como mandar uma mensagem para alguém ou fazer uma busca de informações no Google, e logo nos esquecermos do motivo pelo qual o desbloqueamos. 

Lembrei-me desse conceito em razão do recente debate desencadeado pela polêmica proibição do uso de celulares por estudantes durante as aulas de instituições de ensino superior privadas – e de elite – de São Paulo. Essa decisão, no entanto, considerada radical por alguns, uma vez que fere a autonomia de pessoas adultas, revela mais da eficácia do design viciante dos aplicativos de interação do que, propriamente, da falta de preparo dos sujeitos (docentes e estudantes) em lidar de uma forma mais democrática e conciliadora com uma situação tão desleal.

A culpa disso tudo não é, de forma alguma, dos professores nem de seus métodos de ensino mais conservadores. Tampouco é dos estudantes, que normalizam, pelo menos desde a adolescência, a possibilidade de não distinguir momentos presenciais e online. Equivocadamente, têm-se endossado a inexistência de fronteiras entre estar conectado e desconectado, mas esse apagamento tem esvaziado toda a riqueza dos encontros presenciais, nos desresponsabilizando de uma presença e escuta efetivas. Sempre há algo urgente para checar, conferir, verificar no celular. Precisamos nos perguntar: a espiada na notificação ou a busca pela informação não pode – de verdade – ficar para depois?

Acho que foi nesse sentido que as instituições de ensino decidiram proibir o uso de celulares durante as aulas, espaços que vão muito além de uma mera transmissão de conhecimento, ainda que este seja o método mais utilizado em universidades. É preciso lembrar que todo docente é guardião da aprendizagem dos estudantes, o que o torna muito mais do que um conteudista ou transmissor de informações. 

Ao zelar pela aula como um espaço de desenvolvimento de saberes, o docente precisa construir intencionalmente um ambiente que estimule uma presença plena dos estudantes, o que não envolve apenas uma transformação de seu método de ensino. Trata-se, antes disso, de reforçar o propósito de uma aula: um espaço cuja responsabilidade da aprendizagem é partilhada entre docentes e estudantes, ainda que o ensino, isto é, a definição do modo como esse processo irá se desenrolar, esteja a cargo do docente. 

Ao discutir a educação de pessoas adultas – e autônomas – essa responsabilidade torna-se ainda mais acentuada. Frequentar uma aula não é apenas um direito do estudante universitário. Nesse contexto, ele também tem o dever de participar da aula, exercendo toda sua presencialidade, contribuindo para a construção de referências de seus colegas, partilhando suas interpretações e referências sobre o tema da aula oralmente, olho no olho. Caso este não fosse o propósito de uma aula presencial, cada um poderia acessar o conteúdo desta individualmente, como se faz em momentos assíncronos, quando o estudante está sozinho e tem, efetivamente, o poder de decidir o momento em que irá estudar um conteúdo. Este não é, definitivamente, o caso de uma aula presencial.

Ainda que o uso de celulares por muitos estudantes seja no sentido de consultar informações referentes à aula, é realmente necessário que isso aconteça de forma imediata? Isso não reforça um valor que mais tem causado prejuízos que benefícios? Não é possível fazer, como os antigos, e anotar a dúvida ou a referência para verificar posteriormente, sem abrir mais uma aba, que mina a atenção e faz perder a riqueza da partilha presencial, desvalorizando momentos de escuta, ainda que estes sejam mais desafiadores ou deliberadamente entediantes? Que tipo de pessoas estamos nos tornando quando nos negamos a prestar atenção numa aula, tenha ela as debilidades que tiver, e em vez de lidar com o incômodo preferimos o conforto da distração numa rede social, que tem acarretado tantos danos à sociabilidade e à aprendizagem?

Posicionar-se contrário ou favorável à proibição dos celulares no ensino superior não é um debate inteligente. Mais do que isso, é fundamental refletir sobre o que está em jogo quando a distração é tão facilitada num processo educacional, que exige insistência, que envolve tédio e concentração para haver profundidade e consistência. Não estou, com isso, defendendo os métodos transmissivos. Mas estou dizendo que não podemos perder a capacidade de escutar e interagir presencialmente por poucas horas do dia, em nome de práticas educativas calcadas unicamente em hiperestímulo. É preciso haver investigação e criação sim, da Educação Infantil à pós-graduação, mas sem  que isso substitua a importância da escuta, da presença e da corresponsabilidade discente nas aulas presenciais. 

Texto publicado originalmente no blog do autor.

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Bruno Ferreira

Consultor em educação midiática e educomunicador. Doutorando em Educação pela Faculdade de Educação da USP, mestre em Ciências da Comunicação e especialista em Educomunicação pela ECA/USP. É coordenador pedagógico do Instituto Palavra Aberta e docente da pós-graduação em Proficiência em Tecnologias Digitais para uma Educação Empreendedora, do Sebrae-DF. Foi consultor da UNESCO em Alfabetização Midiática e Informacional e professor de comunicação e Desenvolvimento Social do Senac-SP.

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