Em carta divulgada nesta quarta-feira (28) por aliados, o candidato derrotado à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), após fugir para os Estados Unidos, se autoproclamou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e voltou a acusar o processo eleitoral de fraude, sem apresentar provas. Entre as alegações, afirmou que a prorrogação do horário de votação no segundo turno teria permitido a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acrescentar mais de 10 milhões de votos em relação ao primeiro turno. A afirmação, porém, contraria os dados oficiais: segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), apenas 34.393 votos foram registrados após as 17h, número muito inferior à diferença de cerca de 4,4 milhões de votos entre os candidatos.
A carta diz que atuação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin foi “ilegítima e ilegal” e retoma uma narrativa que circulou nas redes sociais desde a noite do domingo (15), quando o ministro determinou a extensão do horário de votação até as 19h nas seções que ainda não haviam encerrado os trabalhos.
A medida de Zanin, respaldada pela Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1.013, de outubro de 2023 – que diz que o poder público tem o dever de oferecer transporte público coletivo gratuito nos dias de eleição – buscou garantir o direito ao voto diante de dificuldades no transporte público, relatadas em cidades como Salvador, São Paulo, Teresina e Rio de Janeiro. Uma matéria do site Consultor Jurídico também trouxe análise de diversos juristas afirmando que o ministro atuou dentro das suas competências.
No dia da votação, a própria campanha de Flávio também havia pedido a prorrogação, embora restrita a municípios do Sul e do Sudeste, alegando problemas causados pelas fortes chuvas. Esse tópico, porém, não foi citado no documento publicado nesta quarta.
Apesar disso, perfis bolsonaristas apresentaram a decisão como uma suposta tentativa de favorecer Lula, omitindo o pedido feito pela campanha adversária e os problemas de transporte enfrentados por eleitores. A narrativa ganhou força após Flávio anunciar que contestaria o resultado eleitoral e voltou a ser mobilizada na carta, que também acusa ministros do Judiciário de perseguição política e descreve o Brasil como um regime de exceção.
Flávio também afirmou que a vitória de Lula seria uma “impossibilidade matemática” e que houve abuso de poder econômico e político, além do uso da máquina pública por parte da campanha do oponente. Para essas duas informações, o deputado federal não apresentou provas concretas. Sobre a impossibilidade matemática, ainda no domingo, o modelo matemático produzido pelo cientista de dados, Rodrigo Mahlmeister, cravou a vitória do candidato do PT ainda com 2,4% das urnas apuradas.
Flávio Bolsonaro desembarcou nesta quarta-feira (28) nos Estados Unidos, após deixar o Brasil apesar de uma determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes que o proibia de sair do país e exigia a entrega de seus passaportes. O senador cruzou a fronteira com a Argentina na noite de terça-feira (27) e seguiu de avião para Miami com a família. A Polícia Federal investiga as circunstâncias da saída.
Observadores internacionais e organizações reconhecem resultado eleitoral
Na carta, Flávio Bolsonaro pede à comunidade internacional que não normalize o que chama de uma situação anormal no Brasil. O candidato também agradece aos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, pelo acolhimento recebido no exterior. No entanto, missões internacionais de observação eleitoral que acompanharam o segundo turno reconheceram a vitória de Lula e a confiabilidade dos resultados oficiais.
A missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que contou com 88 observadores de 22 nacionalidades, parabenizou Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin pela reeleição. Em relatório preliminar divulgado em 27 de outubro, a organização afirmou que os resultados apresentados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) coincidiam com as informações coletadas em campo e declarou não ter dúvidas sobre a integridade dos dados oficiais. Tanto os Estados Unidos quanto a Argentina, países cujos presidentes são citados por Flávio na carta, integram a OEA.
O Carter Center, organização baseada nos Estados Unidos que também fez missão de observação, parabenizou o TSE pela condução do segundo turno e afirmou ter testemunhado a conclusão bem-sucedida da eleição presidencial. A organização destacou que os votos de mais de 499 mil seções eleitorais foram apurados rapidamente e que os resultados foram divulgados poucas horas após o encerramento da votação. Sua chefe de missão, Jennie Lincoln, defendeu que candidatos e apoiadores respeitem o resultado anunciado e que eventuais alegações fundamentadas em evidências sejam encaminhadas pelas vias legais. O Carter Center, porém, esclareceu que sua missão tinha escopo específico e não faria uma avaliação abrangente de todo o processo eleitoral.
O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, confirmou a reeleição de Lula ainda no domingo (25) e o parabenizou pela “expressiva vitória nas urnas”. Organizações da sociedade civil que atuam na defesa da democracia, como o Pacto pela Democracia e a Conectas, também reconheceram o resultado.
“A proclamação do resultado reforça a higidez do sistema eleitoral”, afirmou a Conectas. A organização acrescentou que cabe às autoridades competentes garantir a integridade das demais etapas do processo e a posse do governante escolhido democraticamente.
O que aconteceu no domingo do segundo turno?
O segundo turno das eleições de 2026 foi marcado por um episódio inédito na história eleitoral brasileira: a prorrogação do horário de votação em todo o país. A decisão, tomada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin na tarde de domingo (25), estendeu até as 19h o funcionamento das seções eleitorais que ainda não haviam encerrado a votação. O que deveria garantir o direito ao voto diante de problemas no transporte público, porém, virou combustível para alegações de fraude eleitoral.
Ao longo do dia, eleitores relataram dificuldades para chegar aos locais de votação devido à redução ou à insuficiência da frota de ônibus em cidades como Salvador, São Paulo, Teresina e Rio de Janeiro, além de problemas de transporte em outros municípios. Na capital baiana, ao menos 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens, segundo informações da Secretaria Municipal de Mobilidade. A Justiça Eleitoral também havia determinado que a frota paulistana operasse integralmente no domingo, sob pena de multa.
Diante das denúncias, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu a ampliação do horário de votação, primeiro em cidades específicas e, depois, em âmbito nacional. A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) também solicitou a prorrogação, mas em municípios do Sul e do Sudeste, alegando dificuldades causadas pelas fortes chuvas. Com a votação prestes a ser encerrada e sem uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre os pedidos, Zanin determinou a extensão do prazo. Depois, esclareceu que a medida valeria apenas para as seções que ainda estavam abertas: urnas já encerradas não seriam reabertas.
Como a narrativa de fraude eleitoral ganhou força?
A decisão, no entanto, foi rapidamente apresentada por perfis bolsonaristas como um suposto golpe para favorecer Lula. Reportagem da Lupa mostrou que publicações no Telegram e no X acusaram o STF de agir em benefício do PT, omitindo que a campanha de Flávio também havia pedido a prorrogação. O ministro Zanin, que foi advogado de Lula antes de assumir uma cadeira no Supremo, virou alvo de acusações de favorecimento e de pedidos de impeachment. Em vídeo, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) questionou as denúncias sobre o transporte público e insinuou que o PT tentava ganhar a eleição “no tapetão”, apesar dos registros de dificuldades para os eleitores.
Segundo Letícia Capone, diretora de pesquisa do Instituto Democracia em Xeque e professora do Departamento de Comunicação da PUC-Rio, as primeiras alegações surgiram logo após a decisão, antes de serem impulsionadas por figuras de maior alcance.
“Passamos a identificar conteúdos sugerindo que a prorrogação significaria mais tempo para fraudar as eleições e alegando que os mesários votariam no candidato de sua preferência, entre outras coisas”, afirma Capone.
O movimento ganhou força após Flávio Bolsonaro anunciar que contestaria o resultado eleitoral. A pesquisadora explica que, depois da declaração de Flávio, a suspeita passou a circular de forma mais articulada, com perfis de grande alcance defendendo investigações e associando Zanin a Lula.
Os números ajudam a dimensionar a discussão e a separar a narrativa dos fatos. De acordo com levantamento do Tribunal Superior Eleitoral, 34.393 votos foram registrados após as 17h. O total equivale a cerca de 0,8% da diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos entre Lula e Flávio. Mesmo no cenário hipotético em que todos esses votos favorecessem Lula, o volume seria insuficiente para explicar ou reverter o resultado. Além disso, nem todos podem ser atribuídos à prorrogação, já que eleitores que estavam na fila às 17h já tinham o direito de votar.
A desconfiança nas eleições vai além das urnas
A circulação de narrativas de fraude eleitoral no segundo turno evidencia como a polarização política também se manifesta na percepção sobre a legitimidade das eleições. Para Helena Salvador, coordenadora de Campanhas e Mobilização do Pacto pela Democracia, a confiança no sistema eleitoral passou a ser associada à expectativa de vitória ou derrota de cada candidatura.
“O que observamos tanto no primeiro quanto no segundo turno das eleições foi que a polarização política também se expressa em uma polarização dos discursos sobre o sistema eleitoral: de um lado, o discurso da confiança; de outro, o da desconfiança”, explica.
Segundo Salvador, essa dinâmica acompanha uma tendência mais ampla de enfraquecimento das posições intermediárias, identificada em dados do Latinobarómetro. No contexto eleitoral, a desconfiança também se direciona a integrantes do Judiciário e pode se estender à Justiça Eleitoral e ao próprio sistema de votação. “A avaliação sobre a integridade das eleições deixa de ser apenas uma questão institucional e passa a estar diretamente relacionada às disputas políticas”, afirma.
Ataques às urnas recuam
Apesar desse cenário, os ataques às urnas eletrônicas não foram o principal foco da desinformação no primeiro turno, segundo levantamento da Agência Lupa citado por Helena Salvador. Para ela, esse resultado pode estar relacionado à comunicação da Justiça Eleitoral, à atuação da sociedade civil e às respostas institucionais aos ataques à democracia, especialmente após os atos de 8 de janeiro de 2023.
A desconfiança, porém, pode mudar de foco. Salvador cita o monitoramento do projeto ConfIA, que identificou, no primeiro turno, questionamentos à apuração e à divulgação dos resultados após uma interrupção temporária na visualização dos dados. As publicações associavam o episódio a uma suposta fraude, embora as etapas de apuração, totalização e divulgação sejam distintas.
O desafio, avalia a pesquisadora, é evitar que a desconfiança comprometa a legitimidade do processo eleitoral e fortalecer a relação da população com as instituições democráticas. Para ela, isso exige mais do que esclarecimentos pontuais: depende de informação contínua sobre o funcionamento das instituições e de oportunidades permanentes de participação política.
A repercussão no ambiente digital
O debate sobre o acesso às urnas e a prorrogação do horário de votação ganhou escala nas redes sociais. Segundo o Instituto Democracia em Xeque, entre 8h e 17h de 25 de outubro, os dois eixos monitorados — transporte e acesso aos locais de votação; urnas eletrônicas e condução do processo eleitoral — somaram 3,2 milhões de publicações e 15,4 milhões de interações. A discussão se intensificou a partir das 14h, em meio às denúncias sobre o transporte público e aos pedidos para estender o prazo de votação.
O eixo sobre transporte concentrou 2 milhões de publicações e 10,1 milhões de interações. Já o debate sobre urnas e condução do processo eleitoral reuniu 1,2 milhão de publicações e 5,3 milhões de interações, com relatos de urnas danificadas, falta de energia e possíveis irregularidades.
Após a decisão de Cristiano Zanin, perfis da extrema-direita passaram a apresentar a prorrogação como uma tentativa de golpe para favorecer Lula. Em monitoramento realizado entre 18h30 e 20h30, o Instituto Democracia em Xeque identificou publicações de figuras como os deputados Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) questionando a medida e sinalizando resistência a uma eventual derrota de Flávio Bolsonaro. Parlamentares como Marcel van Hattem (Novo-RS) e Gustavo Gayer (PL-GO) defenderam o impeachment do ministro.
No campo progressista, políticos e perfis atribuíram os problemas no transporte ao bolsonarismo. Jones Manoel (PSOL-PE) acusou o grupo de usar seu poder econômico para “criar caos na eleição” e restringir o direito ao voto. Já o deputado André Janones (REDE-MG) celebrou a vitória de Lula, mas defendeu que o resultado não impedisse a denúncia do que classificou como uma tentativa de golpe.
