Por Rubens Harb Bollos
Sic transit gloria mundi. Assim passa a glória do mundo. Utilizada nas coroações papais, a expressão latina atravessa séculos como advertência sobre a transitoriedade do poder e da grandeza, alcançando indivíduos, famílias, governantes, organizações e civilizações. E quando a glória passa, o que permanece de uma pessoa, governo ou civilização?
A palavra latina gloria significa fama, honra e reconhecimento. Seu correspondente grego, dóxa, também expressa opinião e reputação: como os outros nos veem e nos julgam. Mas reconhecimento não garante conhecimento, a epistḗmē dos gregos, assim como conhecer não significa saber decidir. Para isso, precisamos de discernimento, associado à phrónēsis, a sabedoria prática que orienta nossas escolhas.
E de que valem a glória e o conhecimento se não sabemos utilizá-los para decidir melhor?
A biologia oferece uma perspectiva: todo organismo vivo possui uma biografia marcada pela finitude. Nasce, desenvolve-se, amadurece, envelhece e morre, enquanto suas capacidades de adaptação, regeneração e manutenção da vida se modificam.
O envelhecimento envolve múltiplos mecanismos, entre eles a senescência celular, que contribuem tanto para a proteção e reparação quanto para a deterioração dos tecidos.
Surge um duplo paradoxo: a juventude apresenta maior capacidade regenerativa, mas menor experiência acumulada; na senectude, a regeneração diminui, enquanto conhecimentos, memórias, autoconsciência e discernimento podem aumentar, embora reste menos tempo para utilizá-los. Envelhecer, porém, não garante amadurecimento: pode envolver perdas cognitivas, de autonomia e identidade, tradicionalmente associadas à senilidade, o declínio patológico na velhice.
Segundo a OMS, em 2050 haverá 2,1 bilhões de pessoas com 60 anos ou mais. Em 2021, 57 milhões viviam com demência, incluindo Alzheimer; em 2019, 8,5 milhões tinham Parkinson, cuja prevalência mais que dobrou em 25 anos. Essas doenças ampliam os desafios de prevenção e cuidados prolongados, mas não são inevitáveis. Envelhecer não significa adoecer e longevidade não garante saúde e maturidade.
A experiência tampouco se transforma automaticamente em sabedoria. Exige aprendizagem, educação socioemocional, reflexão, reconhecimento de erros e revisão de convicções. A mente organiza, a consciência integra e a autoconsciência permite examinar alternativas, antecipar consequências e assumir responsabilidades. Nem consciência nem boas intenções, porém, garantem decisões acertadas.
A biografia das civilizações
A biografia das civilizações também nos inspira. Assim como a vida transmite heranças genéticas e epigenéticas que influenciam adaptação, saúde e adoecimento, as civilizações transmitem conhecimentos, valores, conflitos e desigualdades que podem favorecer sua evolução, estagnação ou retrocesso. Nenhuma dessas heranças determina inevitavelmente o futuro.
Civilizações outrora poderosas perderam protagonismo, mas deixaram marcas: egípcios, conhecimentos agrícolas, matemáticos e arquitetônicos; gregos, filosofia, democracia e ciência; macedônios, sob Alexandre, intercâmbios culturais; persas, formas complexas de administração e convivência entre povos. Roma assimilou e transformou parte desse patrimônio, transmitindo instituições, engenharia, direito e o latim, do qual derivou o português. Seus impérios passaram; suas contribuições foram preservadas, ampliadas ou superadas por outras civilizações. Entretanto, nem todo legado sobreviveu.
Povos com grande poder militar e à força conquistaram sociedades de maior desenvolvimento científico, artístico, institucional e cultural. Das invasões dos chamados bárbaros às conquistas mongóis, guerras, saques e incêndios destruíram cidades, bibliotecas e manuscritos. A Biblioteca de Alexandria simboliza perdas ocorridas ao longo de diferentes episódios históricos. Séculos depois, o nazismo queimou livros e perseguiu a liberdade de pensamento.
Esse apagamento persiste no Oriente e no Ocidente. Como na demência, que compromete memória, conhecimentos e identidade individual, a destruição cultural ameaça a memória e o ethos das civilizações — seus valores e princípios de convivência.
Parte do conhecimento antigo desapareceu; outra ficou inacessível por séculos. Hoje, tecnologias recuperam escritos de Arquimedes e permitem ler papiros carbonizados sem desenrolá-los. Entre gerações, jovens podem renovar ou desprezar a experiência; idosos, transmitir sabedoria ou resistir às mudanças. Destruir o passado ou impedir sua renovação compromete o futuro.
Quanto conhecimento perdemos ao destruir nossa própria memória?
A história moderna acrescenta um paradoxo: desenvolvemos tecnologias para prolongar a vida e, simultaneamente, aperfeiçoamos instrumentos de destruição. Das guerras mundiais às crises ambientais, riqueza e progresso tecnológico não garantem evolução civilizatória. A intolerância agrava esse risco quando transforma diferenças em ameaças, divide sociedades entre “nós” e “eles” e restringe a liberdade de pensamento, expressão e conhecimento.
A memória também preserva traumas, ressentimentos, preconceitos e hostilidades. Na polarização, diferenças tornam-se ameaças, adversários viram inimigos, críticas se convertem em desqualificações e divergências justificam exclusões e restrições à liberdade de pensamento, expressão e conhecimento. Perde-se o reconhecimento da humanidade e da legitimidade de quem pensa diferente, algo que nenhuma eleição, isoladamente, restaura. A evolução civilizatória depende do que aprendemos com nossa memória.
Força é capacidade de realizar, sabedoria, a autoridade para exercer poder. A força permite agir; a sabedoria orienta quando agir, esperar ou renunciar à força. O rigor preserva limites e responsabilidades; a misericórdia reconhece vulnerabilidades e possibilidades de reparação.
Sem equilíbrio, o rigor torna-se crueldade; a misericórdia, impunidade; a força, destruição; e a autoridade, instrumento de interesses pessoais. A maturidade ética integra essas dimensões nas relações entre pais e filhos, professores e alunos, líderes e liderados, governantes e governados.
E como essa responsabilidade se expressa entre gerações?
Cada geração herda um patrimônio que não construiu sozinha: conhecimentos, instituições, recursos e valores, mas também conflitos, desigualdades e dívidas. Cabe-lhe preservar, corrigir, transformar esse legado e evoluir. Governos participam desse processo sob condições históricas, econômicas, culturais, ambientais e geopolíticas. A Declaração da UNESCO sobre as Responsabilidades das Gerações Presentes para com as Gerações Futuras (1997) reconhece nosso dever de proteger os interesses e as possibilidades de quem ainda não nasceu.
Na família, na escola, no trabalho e na política, jovens e idosos têm o que ensinar e aprender uns com os outros. Experiência, idade, recursos e responsabilidades diferentes não tornam ninguém mais digno ou necessariamente mais sábio.
No Brasil e no mundo, o preconceito por idade, chamado etarismo e documentado pela OMS, alimenta desrespeito e hostilidades entre gerações. Na política, a arrogância de quem chega e a resistência de quem permanece podem transformar diferenças em humilhação e violência. Que exemplo damos às novas gerações quando o poder é usado para desprezar quem veio antes ou pensa diferente?
Uma civilização amadurece quando usa o conhecimento, a experiência e o poder para tomar decisões responsáveis, respeitar diferenças, corrigir erros e cuidar das pessoas. Para isso, precisa de condições de vida dignas e instituições capazes de preservar conquistas e promover mudanças.
Sic transit gloria mundi. Assim passa a glória do mundo. Passam a juventude, os governantes, os mandatos e as gerações. Cada governo recebe um país que não começou com ele e entrega outro que não terminará com ele. Ficam as consequências: o sofrimento causado ou evitado, as injustiças mantidas ou corrigidas.
Que mundo deixaremos aos nossos filhos, netos e às gerações que ainda não nasceram? Transmitiremos a sabedoria que acumulamos ou as hostilidades que não conseguimos superar?
