Por Gustavo Souza
Eu convivi com animais a minha vida inteira, desde cachorro, papagaio até jabuti, e eles ocuparam um lugar de afeto na minha vida. O amor por animais é algo partilhado por muitos, que nos mobiliza, gera impactos e talvez seja a porta aberta para conversas importantes sobre a vida política do Brasil.
Quando vejo vídeos que documentam nossas relações de carinho com outras espécies, eu costumo me emocionar, me manifestar e reagir. Tem muita coisa fofa. Recentemente assisti o vídeo de um cachorro, desses treinados para trabalhar como farejador, que após reconhecer um homem, pulou uma barreira para dar lambeijos no seu antigo treinador. Depois de 12 anos, o cachorro ainda reconheceu ele através do vidro no aeroporto. Em apenas 15 segundos esse registro de uma câmera de segurança me fez chorar.
Diga-se de passagem, eu sou uma manteiga derretida e choro facinho. Ainda mais com conteúdos que documentam a felicidade do reencontro. Lembro que, em canais como TheDodo, o encontro entre tutor e animal, após meses de distância, passou a ser um gênero narrativo recorrente.

É fofo. Ainda bem que existia a câmera de segurança para registrar esse momento, né? Notar esse afeto deixa o coração quentinho e me faz querer espalhar algo de bom pelo mundo. Depois de ver o vídeo umas 4 vezes, algo começou a parecer estranho. Como alguém que adora dublagens, relatos e outras criações, eu não sabia apontar um detalhe específico, mas o incômodo foi crescendo. Conforme eu reassistia aquilo, notei pequenos detalhes que mexiam comigo num outro lugar.
Dá para dizer que é IA?
Dias atrás havia visto uma mãe mostrando um vídeo de uma preguiça salvando um gato e comovida em lágrimas ela perguntava aos filhos “Isso é IA?”. Enquanto a mão do homem no barco atravessava o corpo do gato, os filhos riam. “Eu só quero saber como dá para dizer”.
Será razoável rir dessa mãe? Nas edições anteriores desta coluna, eu tenho destacado como tem se tornado progressivamente mais difícil distinguir conteúdos legítimos. Longe de eximir as plataformas, eu preciso destacar que há um conjunto de habilidades próprias do conhecimento de mundo que devem estar no centro da nossa relação com as diferentes formas de mídia e como mobilizamos nossos afetos.
A mobilização dos nossos afetos através dessas narrativas produz vantagens que deveriam ser consideradas ilícitas. Depois de descrever o vídeo no buscador e descobrir que o cachorro jamais existiu para sentir saudades, digo isso como alguém que chorou de felicidade com um vídeo falso, assim como aquela mãe.
Eu gostaria que fosse verdade e ainda que verossímil, esse encontro cheio de carinho, como minha pesquisa posterior mostrou, é apenas um amontoado de pixels, frio e sintético, resultado de prompts. Ao perceber que tinha em mãos um sinteco, eu fiquei com o sentimento de ter gasto as minhas lágrimas com uma mentira, enquanto tento me manter hidratado diante da umidade de 25% em Brasília.
Devo reagir?
Muitos de nós nos habituamos a não interagir com conteúdos explícitos da extrema direita. No entanto, é importante explicitar que, na maioria dos casos, as pessoas passam pelos processos de extremização de maneira gradual. Isso é parte do que permitiu nos tornamos o país com a 3a maior população carcerária do mundo, com uma política de responsabilização penal que não alcança quem comete crimes realmente graves contra a república e tampouco recupera aqueles que são encarcerados.
Com mais adultos escolhendo ser tutores e dedicando horas de carinho aos animais, alguns candidatos perceberam que poderiam fazer pequenos ajustes para provocar medo, construindo aderência a ideias extremistas progressivamente. Logo na primeira semana de janeiro de 2026, num grupo de vizinhos, teoricamente criado para promover a segurança, postaram a seguinte mensagem:
“🚨 TOLERÂNCIA ZERO contra zoofilia.
Assine o abaixo-assinado do **nome do policial** por medidas mais duras e proteção dos animais (incluindo castração química para zoófilos).
Assine e compartilhe: **site**”.
Eu poderia destacar como o suposto abaixo assinado é na realidade, um jeito de coletar dados de contato sobre eleitores no Distrito Federal, com várias repercussões políticas, mas hoje quero destacar que essa é a mesma cartilha do pânico sobre pedofilia que a extrema direita segue, mas substituindo crianças por animais. Chamo de pânico moral porque ao mesmo tempo que eles falam sobre pedofilia, eles destroem a educação sexual nas escolas que protege as crianças e falam sobre abuso como se devêssemos ter medo de estranhos na rua, mas a realidade é que a imensa maioria ocorre dentro de casa.
Ao reconhecer o afeto investido pelos tutores e difundir narrativas sobre zoofilia, há um foco em bater em quem não pode se defender, eles escolheram espalhar narrativas sobre pessoas em situação de rua que supostamente estupram cachorros massivamente todos os dias.
Isso engaja. No ecossistema da produção de conteúdos, alguns atores entenderam que construir uma audiência de massa é o primeiro passo para impactar o debate público. As páginas podem começar com conteúdos de animais engraçados, como destacado pelo @jeremyfindsai, mas depois irem progressivamente inserindo posições conservadoras que geram aderência.
O trabalho com desordem informacional tem sido tratado como uma emergência, especialmente em tempo de eleições. A dificuldade em distinguir urgência de emergência, junto com a precariedade de habilidades de gestão para avaliar e endereçar prioridades de maneira radical, torna esse problema progressivamente mais complexo. É necessário manter em perspectiva que temos eleições a cada 2 anos. Sem tempo para digerir o que tem acontecido nas bienais do caos, na nossa democracia isso significa uma crise de emergência informacional periódica, que apesar da previsibilidade, ainda demanda infraestruturas mais robustas para contenção de danos.
Sair da pura lógica de emergências é importante. Quando nós tentamos promover discussões sobre desinformação durante o período eleitoral, as chances de gastar tempo com pregação para convertidos é bastante significativa e minha sugestão é que essas conversas possam ser feitas de maneira mais estruturada a partir de outras lentes.
Por um lado, as pessoas precisam de oportunidades para desextremização e apontar como alguém que elas admiram é o inverso do que elas acreditam talvez torne a barreira da educação midiática ainda pior. Falar sobre desinformação a partir de cachorros, papagaios e jabutis talvez seja mais fácil. Talvez essa seja uma porta de entrada para o debate sobre integridade da informação para oferecer as ferramentas transferíveis de avaliação crítica necessárias ao desenvolvimento de uma imunidade ao mesmo modus operandi.
