Início 9 Destaques 9 Ataques à imprensa cresceram 74% na reta final do primeiro turno, aponta estudo

Últimas notícias

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Ataques à imprensa cresceram 74% na reta final do primeiro turno, aponta estudo

Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
COMPARTILHAR:

Entre 16 de agosto e 4 de outubro, período que antecedeu a votação do primeiro turno das eleições brasileiras, foram identificados 14.182 ataques contra jornalistas e veículos de comunicação no X e no Instagram, em um universo de quase 3,7 milhões de publicações e comentários analisados.

Os dados são de um estudo da Coalizão em Defesa do Jornalismo (CDJor), do Laboratório de Internet e Ciência de Dados (Labic/UFES) e do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio). O levantamento também mostra que a violência se intensificou com a aproximação da votação: nos oito dias anteriores ao primeiro final de semana do pleito, a média chegou a 327 ataques por dia, um aumento de aproximadamente 74% em relação ao início da campanha.

Para Guilherme Duarte, assessor de incidência para a América Latina na Repórteres Sem Fronteiras (RSF) – organização membro da CDJor – a violência contra jornalistas não pode ser tratada como um conjunto de episódios isolados de hostilidade. Em períodos eleitorais, afirma, a intimidação pode “limitar a cobertura e desestimular novas apurações”. “Como um dos resultados, temos a redução da capacidade da sociedade de tomar decisões informadas”, explica.

O monitoramento identificou um repertório recorrente de acusações contra jornalistas e veículos, associando o trabalho jornalístico à militância política, à manipulação de informações e a supostos interesses financeiros com o objetivo de, segundo o estudo, “desacreditar o próprio trabalho jornalístico”. Expressões como “imprensa militante”, “mídia golpista”, “fake news”, “pesquisa comprada” e “caiu o Pix” apareceram entre os conteúdos analisados.

Apenas a acusação de “fake news” teve 171 ocorrências no X entre 13 e 26 de setembro, por exemplo.

Em vez de contestar apenas uma informação publicada, muitas mensagens colocam sob suspeita a integridade de quem a produziu ou a divulgou. A descredibilização, segundo o relatório, também aparece em conteúdos sem ameaças ou xingamentos explícitos.

Gabriel Herkenhoff, pesquisador envolvido no estudo e subcoordenador do Labic/UFES, observa que esse padrão não se limita a um campo político. Expressões como “Globo lixo” e “Globo golpista”, por exemplo, são mobilizadas por grupos de orientações distintas para desqualificar a emissora. Enquanto a primeira aparece associada principalmente à direita, a segunda também é utilizada por setores da esquerda, explicou.

O pesquisador destaca ainda acusações de que jornalistas seriam “vendidos” ou “comprados” para favorecer determinados interesses e o uso do termo “militante” para atribuir uma orientação ideológica aos profissionais. Esses discursos, avalia, “contribuem para construir um imaginário negativo sobre a imprensa”, independentemente do posicionamento político de quem os mobiliza.

Mulheres jornalistas enfrentam ataques mais tóxicos

A violência também apresenta diferenças de gênero. As mulheres concentraram 64,8% dos ataques direcionados a jornalistas individualmente identificados, segundo os dados apresentados no levantamento: foram 2.013 agressões entre os 3.106 registros dessa categoria.

A desigualdade se acentuou em setembro. Entre 13 e 26 daquele mês, as mulheres receberam 77,3% dos ataques individuais contra jornalistas no X e 79,1% no Instagram. Na etapa seguinte, porém, houve uma inversão no X, influenciada pela ofensiva contra Ricardo Noblat, que concentrou 64 dos 86 ataques dirigidos a homens na plataforma naquele período.

Para Herkenhoff, além do volume, chama a atenção a toxicidade das mensagens direcionadas às mulheres. Ofensas misóginas e sexualizadas, exposição pessoal e ameaças de agressão física aparecem entre as formas de violência identificadas. “Existe um elemento de gênero muito forte”, afirma.

Os casos documentados mostram como atividades rotineiras do jornalismo podem desencadear ataques. Em agosto, Natalia Viana, cofundadora e diretora-executiva da Agência Pública, procurou o influenciador Paulo Figueiredo para solicitar esclarecimentos durante uma apuração e passou a receber ataques misóginos após ser exposta nas redes sociais. As agressões começaram antes mesmo da publicação da reportagem.

Na quinzena seguinte, Juliana Dal Piva recebeu 94 ataques identificados no X durante a repercussão de sua cobertura sobre áudios envolvendo o deputado Nikolas Ferreira e Daniel Vorcaro, no contexto do caso Banco Master. As mensagens incluíam acusações de divulgação de notícias falsas, insultos misóginos e incentivo à violência física.

Já Maria Cristina Fernandes foi alvo de uma onda de ataques após um comentário na GloboNews sobre uma mobilização de parte dos evangélicos para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Entre 13 e 26 de setembro, foram identificados 226 ataques contra ela no X. No Instagram, o monitoramento encontrou conteúdos com incitação à violência física e à morte.

Para Guilherme, as estratégias de proteção precisam considerar essas particularidades. Mulheres jornalistas são frequentemente alvo de ataques misóginos e sexualizados que buscam constrangê-las e afastá-las do debate público. Por isso, defende protocolos específicos, acolhimento especializado e apoio jurídico e psicossocial às profissionais atingidas.

“As redações, as plataformas e as instituições públicas devem […] atuar de forma coordenada para garantir que as mulheres possam exercer o jornalismo e participar do debate público em condições de segurança e igualdade”, explicou.

Leia também>> Da desinformação aos deepnudes: as faces da violência política de gênero

Disputa presidencial concentra a maioria dos ataques eleitorais

A cobertura da eleição presidencial concentrou a maior parte das agressões diretamente associadas às disputas eleitorais. Dos 9.178 ataques classificados segundo o contexto eleitoral, 7.314 estavam relacionados à disputa nacional, o equivalente a 79,7%. Os outros 1.864 registros envolviam disputas estaduais.

A proporção de ataques ligados à eleição presidencial aumentou ao longo da campanha e chegou a 85,6% dos registros eleitorais entre 13 e 26 de setembro. Reportagens, entrevistas, pesquisas e comentários jornalísticos se tornaram pontos de partida para acusações de parcialidade e manipulação.

As agressões também atingiram veículos de comunicação. No X, o g1 recebeu 390 ataques na primeira etapa do monitoramento e voltou a liderar os registros entre 13 e 26 de setembro, com 281 ocorrências. Na reta final, foram 204 ataques contra o veículo, seguido por GloboNews, com 187. No Instagram, a GloboNews esteve entre os principais alvos ao longo de toda a campanha.

A distribuição das agressões entre as plataformas também mudou. No acumulado do primeiro turno, o Instagram concentrou 61,8% dos ataques, com 8.768 registros, enquanto o X reuniu 5.414, ou 38,2%. Na última etapa, entretanto, o X registrou 1.382 ataques, superando os 1.233 identificados no Instagram.

Herkenhoff aponta a intensificação da cobertura jornalística, a maior mobilização de apoiadores e críticos e a repercussão das pesquisas eleitorais como fatores que ajudam a explicar o aumento das agressões na reta final. Acusações de que institutos ligados a veículos venderiam pesquisas também aparecem nesse contexto, avaliou o pesquisador. 

Assédio judicial amplia os riscos ao exercício do jornalismo

A violência contra a imprensa não se limita às plataformas digitais. O relatório também documenta casos em que instrumentos da Justiça foram mobilizados para tentar retirar do ar reportagens de interesse público, sob a alegação de propaganda eleitoral negativa ou de prejuízo à reputação de candidatos.

Um dos exemplos envolve a Mídia Caeté, de Alagoas, alvo de uma representação eleitoral movida pelo MDB contra uma reportagem sobre a oferta de apoio financeiro a estudantes para comparecerem a um evento que contaria com a presença do então candidato à reeleição Rafael Brito. Embora o Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) tenha reconhecido a veracidade dos fatos, determinou a remoção da matéria e aplicou multa ao veículo. O recurso ainda aguardava julgamento pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo o relatório.

Outro caso citado é o da Revista Piauí e do jornalista João Batista Jr., alvos de uma representação movida por Arthur Lira após a publicação de uma matéria que repercutia conversas entre Daniel Vorcaro e o ex-ministro Fábio Faria. O TRE-AL determinou a remoção de menções ao parlamentar relacionadas ao caso, embora a reportagem não afirmasse que ele havia participado dos eventos descritos. O recurso da defesa aguardava julgamento.

O documento ressalta que a Justiça Eleitoral tem papel importante na prevenção de abusos, mas alerta para o risco de ações judiciais serem usadas para restringir reportagens verdadeiras e de interesse público. Em outros casos analisados, tribunais rejeitaram pedidos de remoção por entenderem que as publicações estavam protegidas pela liberdade de imprensa e de expressão.

Para Duarte, a proteção ao jornalismo “exige uma resposta articulada entre plataformas digitais, instituições públicas, organizações jornalísticas e sociedade civil”. Isso inclui “mecanismos de denúncia, prevenção e responsabilização, além de transparência nas decisões de moderação das plataformas e garantia de que jornalistas possam contestar suspensões de contas e remoções de conteúdo”, pontua.

O representante da RSF também chama atenção para os efeitos das decisões das empresas de tecnologia sobre a circulação de notícias. Em representação encaminhada ontem (15) à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), a CDJor denunciou ao menos 23 casos de contas de jornalistas e veículos suspensas ou retiradas do ar pela Meta em 2026, em sua maioria no Instagram. Segundo a entidade, os casos ocorreram sem explicações adequadas e sem mecanismos efetivos de contestação.

Quando campanhas de descredibilização se somam a restrições de acesso às plataformas e a dificuldades para contestar decisões, avalia Duarte, o público pode perder acesso a fontes jornalísticas e ficar mais vulnerável a conteúdos falsos ou enganosos.

Violência contra jornalistas afeta o direito à informação

O monitoramento foi realizado pelo Labic/UFES em colaboração com a CDJor, a partir de publicações e comentários no X e no Instagram relacionados a candidaturas, jornalistas e veículos de comunicação. A pesquisa utilizou 652 termos e hashtags ofensivos e organizou os resultados em quatro etapas da campanha. O ITS Rio contribuiu com a avaliação da toxicidade das mensagens por meio da ferramenta Perspective API, do Google.

O relatório ressalta que os dados digitais não quantificam todas as formas de violência enfrentadas pela imprensa. Ameaças e agressões físicas, assédio judicial e outras formas de intimidação podem ultrapassar o ambiente virtual e produzir consequências concretas para a segurança dos profissionais e a continuidade das coberturas.

Para Herkenhoff, estudos desse tipo ajudam a dimensionar a crise enfrentada pela imprensa em um cenário de polarização política e transformação dos processos de comunicação. Embora as redes sociais tenham ampliado as possibilidades de expressão pública, também favoreceram a amplificação de discursos de contestação e ataques à mídia.

O pesquisador defende a necessidade de distinguir a crítica legítima ao jornalismo das tentativas de coagir seu exercício. “É necessário defender publicamente uma imprensa livre e o livre exercício do trabalho jornalístico, sem coação”, afirma.

Duarte reforça que proteger a liberdade de imprensa durante as eleições significa preservar as condições para que o debate público ocorra com pluralidade, transparência e acesso a informações confiáveis.

COMPARTILHAR:
0
Would love your thoughts, please comment.x