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Pontos de vista

Os EUA podem representar uma ameaça de interferência informacional nas eleições brasileiras?

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Por Daniele Savietto

Este ano, tive o prazer de participar do #Disinfo2026, em Vilnius, na Lituânia, que reuniu pesquisadores, jornalistas e especialistas de diferentes países para discutir os desafios da desinformação.

Foram vários debates relevantes, mas há um tema que gostaria de destacar, especialmente no atual contexto eleitoral brasileiro: a possibilidade de os Estados Unidos serem analisados também como agentes de manipulação e interferência informacional estrangeira, conhecida pela sigla FIMI (Foreign Information Manipulation and Interference).

Historicamente, grande parte do debate europeu sobre FIMI esteve concentrada nas operações de influência da Rússia e da China, ameaças que continuam relevantes. Entretanto, esta edição do DisinfoLab ampliou o olhar: os EUA também passaram a ser objeto de investigação.

O painel USA as a FIMI Threat: Acknowledge, Adapt, Push Back, com Adam Fivenson, Alex Finley e Emerson Brooking, discutiu como preservar a capacidade de investigar operações de influência diante das transformações nas relações transatlânticas.

O painel, entretanto, não agradou ao governo americano e acabou se tornando notícia. Segundo reportagem da Reuters e do The Guardian, o Departamento de Estado dos EUA pressionou governos aliados a se distanciar do #Disinfo2026 por discordar da abordagem que apresentava os Estados Unidos como possível agente de FIMI, provocando mudanças na participação institucional e no apoio à conferência.

E o que o Brasil tem a ver com isso?

Em setembro de 2026, senadores democratas americanos questionaram medidas diplomáticas e econômicas da administração Trump em relação ao Brasil, incluindo sanções a autoridades e tarifas comerciais. Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch solicitaram que Washington se comprometesse a reconhecer o resultado certificado das eleições brasileiras, independentemente do vencedor.

Isso, isoladamente, não comprova uma operação de FIMI. Pressão diplomática, interferência política e manipulação informacional podem estar relacionadas, mas não são sinônimos. Ainda assim, justificam investigar como decisões estrangeiras repercutem no ambiente informacional brasileiro.

Outro episódio merece atenção: em 2 de outubro, dois dias antes do primeiro turno, os EUA suspenderam temporariamente serviços consulares no Brasil, alegando preocupações com a segurança. A Polícia Federal realizou diligências, mas não encontrou, naquele momento, evidências que confirmassem a ameaça investigada.

Novamente, não há elementos suficientes para classificar essa decisão como FIMI. Entretanto, em um contexto de tensões diplomáticas, cabe observar seus possíveis efeitos informacionais. Como uma decisão assim é interpretada? Que narrativas sobre segurança e estabilidade institucional podem surgir? Quem as amplifica e com quais interesses?

Não se trata de presumir interferência em cada ato diplomático, mas de compreender como comunicações oficiais podem adquirir significados políticos que ultrapassam (ou não) seu propósito inicial.

Há uma dimensão indispensável nesse debate: a monetização da informação. As plataformas digitais não são espaços neutros. Seus modelos de negócios transformam atenção, engajamento e dados em recursos econômicos. Algoritmos, publicidade e sistemas de recomendação influenciam diretamente a visibilidade das mensagens.

Uma declaração estrangeira pode ser amplificada por veículos, influenciadores e atores políticos com interesses distintos. Isso não comprova uma operação coordenada, mas demonstra por que precisamos investigar também a infraestrutura econômica da circulação informacional.

No painel, Brooking destacou a assimetria entre os investimentos bilionários das grandes empresas de tecnologia e os recursos destinados à supervisão das plataformas na União Europeia. Essa desigualdade é também política: quem controla a distribuição da informação participa da definição das condições de visibilidade do debate público.

Para o Brasil, isso significa fortalecer a investigação independente, proteger a liberdade de expressão e exigir transparência dos atores públicos e privados que organizam o ambiente informacional. 

Significa também olhar criticamente para o posicionamento dos Estados Unidos e investigar em que medida suas pressões políticas, ações diplomáticas e estratégias de comunicação podem representar riscos à integridade do debate público e dos processos eleitorais brasileiros.

Se os Estados Unidos podem representar uma ameaça de FIMI para as eleições brasileiras, essa é uma questão que exige investigação, não respostas antecipadas,  mas ignorar essa possibilidade seria reproduzir a seletividade que uma análise crítica da desinformação deveria justamente combater.

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Daniele Savietto

Jornalista, doutora em Educação e autora do livro Capital do Engano. Pesquisa desinformação sistêmica, educação midiática e cidadania digital, com foco nas relações entre mídia, poder e democracia.

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