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Falta de transparência da Meta agrava golpes sobre o Novo Desenrola Brasil

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A infraestrutura publicitária das big techs tem beneficiado criminosos que utilizam anúncios fraudulentos para aplicar golpes sobre o Novo Desenrola Brasil, programa federal de renegociação de dívidas destinado a pessoas com renda de até cinco salários mínimos. É o que aponta um novo estudo do NetLab, laboratório de pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou centenas de anúncios enganosos impulsionados nas plataformas da Meta.

Segundo o levantamento, os golpistas recorrem a estratégias cada vez mais sofisticadas, como inteligência artificial, deepfakes, uso indevido da identidade visual de órgãos públicos, bancos e empresas conhecidas para dar credibilidade às fraudes e uso de linguagem sensacionalista, promessas de descontos irreais e táticas de falsa urgência e escassez para induzir o clique.

O estudo analisou anúncios publicados entre 1º de abril e 14 de junho de 2026 e encontrou 544 anúncios fraudulentos, veiculados por 48 páginas diferentes, explorando políticas públicas voltadas à população endividada.

Segundo o relatório, o aumento das campanhas coincidiu com o lançamento do Novo Desenrola Brasil. Embora os primeiros anúncios tenham aparecido ainda em abril, o volume cresceu imediatamente após o início oficial do programa, em maio. “O fenômeno sugere uma tentativa de aproveitar a visibilidade do programa oficial para confundir os usuários e dar credibilidade às campanhas fraudulentas”, aponta o estudo.

Em média, cada anúncio permaneceu ativo por três dias. O caso mais extremo identificado pelos pesquisadores ficou no ar durante 22 dias. Para os pesquisadores, as falhas na moderação e a falta de transparência da Meta permitem que esses anúncios permaneçam ativos tempo suficiente para alcançar milhares de usuários.

O falso “Libera Brasil” 

Quase metade dos anúncios analisados pelo NetLab promovia um programa que simplesmente não existe. Batizado de Libera Brasil, o golpe prometia limpar o nome do consumidor mediante pagamentos únicos de até R$ 70 e afirmava, falsamente, que um decreto do governo garantiria esse benefício. As peças utilizavam promessas de descontos irreais, sensação de urgência e supostas vagas limitadas para incentivar o clique.

Segundo o NetLab, esses anúncios permaneceram ativos, em média, duas vezes e meia mais tempo do que aqueles que mencionavam diretamente o Novo Desenrola, o que pode indicar uma tentativa dos fraudadores de escapar dos mecanismos de fiscalização das plataformas.

IA, deepfakes e marcas conhecidas dão credibilidade às fraudes

Além de copiar a identidade visual do governo, os golpistas passaram a utilizar recursos de inteligência artificial para tornar os anúncios mais convincentes. O relatório mostra que 38,1% das peças continham conteúdo gerado por IA, incluindo vídeos manipulados com deepfakes. A maior parte promovia um programa inexistente chamado Libera Brasil, apresentado como uma alternativa mais vantajosa ao Novo Desenrola.

Os pesquisadores identificaram vídeos simulando depoimentos de usuários, influenciadoras financeiras e até deepfakes do deputado Nikolas Ferreira (PL/MG), usados sem autorização para aumentar a credibilidade das mensagens.

Outra estratégia recorrente foi explorar marcas conhecidas. Em 72% dos anúncios, havia uso indevido do nome ou da identidade visual do governo federal, da Serasa, de bancos e de veículos de imprensa, como G1, SBT e Jornal Nacional.

Meta é alvo de críticas por falta de transparência

Todos os anúncios analisados circularam por meio da infraestrutura publicitária da Meta. Embora o Facebook concentrasse todas as peças identificadas (100%), os conteúdos também foram distribuídos em outras plataformas da empresa, como Instagram (99,8%), Messenger (73%), Audience Network (67,1%), Threads (55,7%) e WhatsApp (4,8%). Para o NetLab, esse padrão evidencia que os fraudadores se beneficiam do ecossistema integrado de anúncios da companhia para ampliar o alcance dos golpes. 

Diante desse cenário, o estudo afirma que a Meta oferece pouca transparência sobre como identifica e combate esse tipo de fraude. Os pesquisadores apontam três problemas principais: falhas na verificação dos anunciantes, ausência de informações sobre quantos anúncios fraudulentos são removidos e erros na classificação das campanhas.

Segundo o relatório, anúncios relacionados a temas econômicos deveriam ser classificados pela plataforma como conteúdos “políticos” ou “sociais”. Como isso não ocorre, informações importantes, como investimento, alcance e segmentação, deixam de ficar disponíveis para consulta pública após a remoção das peças. Como resume o estudo, “a ausência da classificação restringe a transparência das campanhas e impede o acesso a esses dados após a remoção dos anúncios”.

O relatório também sustenta que os mecanismos de verificação da Meta têm se mostrado insuficientes para impedir que páginas alterem seus nomes, utilizem identidades falsas e se passem por programas governamentais. Para os pesquisadores, essas falhas comprometem a capacidade da plataforma de prevenir fraudes e proteger os usuários.

Fraudes digitais já preocupam mais que a violência urbana

Para os pesquisadores, a proliferação desses anúncios vai além do prejuízo financeiro às vítimas. As fraudes também enfraquecem a confiança em políticas públicas legítimas e transformam o ambiente digital em uma questão de segurança pública.

O relatório cita dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública segundo os quais 83% dos brasileiros afirmam ter medo de sofrer golpes pela internet ou pelo celular, percentual que supera a preocupação com a violência urbana em alguns contextos.

Como conclusão, o NetLab defende que plataformas digitais adotem mecanismos mais rigorosos para verificar anunciantes, aumentar a transparência de seus sistemas de publicidade e fortalecer a responsabilização sobre anúncios fraudulentos veiculados em suas redes.

O relatório do NetLab está disponível aqui.

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