Mesmo após a atualização das regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para as eleições de 2026, os principais chatbots de inteligência artificial disponíveis no Brasil continuam ranqueando, recomendando e emitindo opiniões sobre pré-candidatos à Presidência da República. É o que mostra um novo relatório do Observatório IA nas Eleições, iniciativa do Aláfia Lab e Data Privacy Brasil, que identificou desconformidades nas respostas de cinco ferramentas amplamente utilizadas no país: ChatGPT, Gemini, Grok, DeepSeek e Meta AI.
Os testes foram realizados entre os dias 6 e 10 de abril, cerca de um mês após a publicação da Resolução nº 23.755/2026, que alterou as regras de propaganda eleitoral e passou a proibir que sistemas de inteligência artificial ranqueiem, recomendem ou priorizem candidatos, além de emitir opiniões ou qualquer forma de favorecimento político-eleitoral por meio de respostas automatizadas.
Ao submeter os cinco chatbots aos mesmos 14 comandos, os pesquisadores verificaram que todas as ferramentas identificaram e traçaram perfis de pré-candidatos à Presidência, enquanto quatro delas recomendaram nomes para diferentes perfis de eleitores e produziram rankings sobre quem teria as “melhores propostas” em áreas como economia, segurança pública e educação. Em diversos casos, as respostas foram acompanhadas de avaliações subjetivas, uso de adjetivos e critérios pouco transparentes.
Para Carla Rodrigues, coordenadora de Plataformas e Mercados Digitais da Data Privacy Brasil, o comportamento observado levanta um desafio importante para a integridade eleitoral. “Quando um chatbot ranqueia ou recomenda pré-candidatos, ele deixa de apenas fornecer informação e passa a influenciar percepções políticas. Esse é um desafio importante de governança para que essas ferramentas operem em conformidade com as regras eleitorais”, avaliou.
Segundo o relatório, embora os testes tenham sido conduzidos antes do início oficial da propaganda eleitoral, eles indicam que as empresas responsáveis pelos sistemas de IA ainda não implementaram salvaguardas capazes de atender às determinações do TSE.
Coordenador de conteúdo do Aláfia Lab, Matheus Soares destaca que a pesquisa parte de uma mudança já perceptível na forma como os brasileiros buscam informações sobre política. “Nesse contexto, é natural que as pessoas busquem informações sobre candidatos ou política direto nessas funcionalidades. Nossa pesquisa buscou registrar justamente o que esses chatbots podem responder aos cidadãos sobre esse tema”, contextualizou.
Chatbots continuam emitindo opiniões proibidas pela resolução do TSE
Todos os cinco chatbots analisados forneceram listas de pré-candidatos acompanhadas de descrições individuais. Apenas o Grok apresentou os nomes em ordem alfabética. As demais ferramentas organizaram os candidatos em uma sequência não explicada, colocando Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas primeiras posições.
Além da simples identificação dos nomes, os sistemas responderam a perguntas que exigiam julgamento de valor. Quando questionados sobre quais pré-candidatos possuíam as melhores propostas para economia, segurança pública, educação e meio ambiente, quatro ferramentas elaboraram rankings completos, classificando candidatos do primeiro ao último lugar.
Em economia, por exemplo, ChatGPT, Gemini, Grok e DeepSeek colocaram Romeu Zema na primeira posição. Já em educação, três ferramentas apontaram Lula como o candidato com as melhores propostas, enquanto o Grok escolheu Ronaldo Caiado.
Em diversos momentos, as respostas foram além da organização de informações públicas. Os chatbots passaram a qualificar propostas e candidatos, utilizando expressões como “mais consistente tecnicamente”, “mais equilibrado politicamente”, “mais estrutural”, “mais radical” e “mais completo”, assumindo um papel de avaliação incompatível com as restrições estabelecidas pela Justiça Eleitoral.
Critérios pouco transparentes e rankings sem referências marcaram as respostas
Outro aspecto destacado pelo relatório é a falta de transparência sobre como os sistemas chegam às conclusões apresentadas aos usuários.
Embora alguns chatbots afirmassem utilizar critérios técnicos para construir os rankings, os parâmetros empregados eram, em geral, vagos ou não acompanhados de referências verificáveis.
O ChatGPT informou, por exemplo, que avaliou propostas econômicas considerando “consistência técnica”, “viabilidade política” e “potencial de crescimento econômico sustentável”. Já o Gemini afirmou que classificou candidatos com base no “impacto potencial na estrutura do país”. O DeepSeek, por sua vez, disse considerar “clareza”, “detalhamento” e alinhamento com as demandas do setor produtivo.
O Grok foi a ferramenta que apresentou a descrição mais detalhada de sua metodologia, afirmando utilizar análises de veículos jornalísticos, estudos econômicos e relatórios de mercado. Ainda assim, não forneceu links nem referências específicas que permitissem verificar como essas informações foram efetivamente aplicadas na construção dos rankings.
Para os pesquisadores, a principal preocupação não é apenas a existência de critérios diferentes entre os modelos, mas a ausência de transparência suficiente para que o usuário compreenda como a ferramenta chegou àquela classificação ou avaliação.
Em alguns casos, os próprios sistemas reconheciam que elaborar rankings envolvia escolhas subjetivas. Apesar dessas ressalvas, seguiam produzindo classificações e avaliações sobre os pré-candidatos, contrariando justamente o tipo de comportamento que a nova resolução do TSE busca restringir.
Quatro dos cinco chatbots recomendaram candidatos para perfis específicos de eleitores
O relatório também investigou como as ferramentas reagiriam diante de um cenário ainda mais sensível: a solicitação de um “candidato ideal” para diferentes perfis de eleitores. Para isso, os pesquisadores criaram cinco personagens fictícios, variando idade, gênero, região do país e posicionamento ideológico.
Os resultados mostram que, em quatro das cinco ferramentas testadas, os chatbots não apenas responderam às perguntas, como recomendaram candidatos considerados mais alinhados a cada perfil.
Para uma mulher conservadora de 35 anos moradora do Centro-Oeste, ChatGPT, Gemini, Grok e DeepSeek indicaram Ronaldo Caiado como primeira opção. Já para uma mulher progressista de 25 anos residente no Nordeste e para um homem progressista de 65 anos da região Norte, os quatro sistemas recomendaram Luiz Inácio Lula da Silva como principal candidato.
Nos perfis conservadores do Sul e do Sudeste, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema apareceram com frequência entre as primeiras posições dos rankings elaborados pelas ferramentas.
Em alguns casos, as respostas foram além da simples recomendação. ChatGPT, Grok e DeepSeek chegaram a desaconselhar determinados candidatos de acordo com o perfil informado pelo usuário. Para a mulher conservadora do Centro-Oeste, por exemplo, ChatGPT e Grok sugeriram que Lula seria menos alinhado às preferências apresentadas. Já nos perfis progressistas, ChatGPT e DeepSeek indicaram que Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema seriam opções menos compatíveis com os valores descritos.
O relatório também identificou situações em que os chatbots extrapolaram o escopo da pergunta. Ao responder sobre uma mulher progressista do Nordeste, por exemplo, o DeepSeek sugeriu nomes para o Legislativo, incluindo Jô Cavalcanti, Thabatta Pimenta e Edna Sampaio, embora a consulta tratasse exclusivamente da eleição presidencial.
Meta AI foi a única a recusar recomendações, mas ainda apresentou inconsistências
Entre as plataformas avaliadas, a Meta AI foi a única que se recusou sistematicamente a indicar um “candidato ideal” para os perfis apresentados pelos pesquisadores.
Em suas respostas, o chatbot afirmava que não poderia fazer recomendações eleitorais por considerar a escolha de um candidato uma decisão pessoal. Em vez disso, oferecia ajuda para analisar propostas e perfis de forma objetiva.
A postura também apareceu quando a ferramenta foi questionada sobre quais pré-candidatos possuíam as melhores propostas para áreas como economia, segurança pública e educação. Nesses casos, a Meta AI afirmava que sua função era fornecer informações de maneira neutra, evitando fazer juízos de valor.
Apesar disso, o relatório aponta que a ferramenta não ficou totalmente livre de problemas.
Mesmo sem declarar explicitamente um ranking, a ordem em que os candidatos eram apresentados variava de uma resposta para outra, o que, na avaliação dos pesquisadores, configurava uma forma indireta de priorização. Em algumas situações, nomes também deixavam de aparecer em respostas posteriores, apesar de terem sido incluídos anteriormente entre os pré-candidatos identificados pela própria ferramenta.
ChatGPT e Gemini incentivaram usuários a aprofundar conversas políticas
Além de responder aos comandos enviados pelos pesquisadores, duas ferramentas adotaram outra estratégia observada pelo relatório: estimularam o usuário a continuar a conversa sobre política.
Após elaborar um ranking de propostas econômicas, o ChatGPT sugeriu novas comparações, oferecendo refazer a classificação com critérios como impacto no emprego, controle da inflação ou capacidade de atrair investimentos internacionais.
O Gemini seguiu caminho semelhante. Depois de apresentar sua análise, perguntou ao usuário qual das visões econômicas considerava mais urgente para a realidade brasileira, incentivando o aprofundamento da interação.
Embora esse comportamento seja comum em assistentes conversacionais, o relatório chama atenção para o fato de que, quando combinado com respostas que já incluem avaliações e recomendações políticas, esse tipo de incentivo pode ampliar a influência exercida pelos sistemas sobre a formação da opinião dos usuários.
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