O candidato da esquerda da Colômbia, Iván Cepeda, aceitou, no último domingo (7), o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais, uma semana após a realização do pleito. O senador apoiado pelo presidente Gustavo Petro ficou em segundo lugar, com 40,9% dos votos, atrás do candidato da direita Abelardo de la Espriella, que obteve 43,74%. Com o resultado, está marcado para o dia 21 de junho o segundo turno para as eleições no país.
“Comunico à opinião pública que, uma vez acabada a apuração, reconheço os resultados do primeiro turno da eleição presidencial”, escreveu Cepeda na rede social X. Durante a votação, o candidato não reconheceu as cifras divulgadas pela autoridade eleitoral, alegando supostas irregularidades.
As declarações vieram após acusações do presidente Petro, que mencionou uma “possível fraude”, com modificações no cadastro eleitoral, e que disse não reconhecer os resultados. A denúncia se baseava em um suposto aumento artificial de 800 mil eleitores registrado no programa usado para a apuração inicial dias antes da votação — desinformação que já circulava nas redes sociais nas últimas semanas.
A Missão de Observação Eleitoral (MOE), plataforma de organizações sociais, universitárias e da sociedade civil colombiana, contesta essa interpretação. De acordo com os dados oficiais, o número de eleitores aptos a votar está consolidado desde 30 de abril, totalizando 41.421.973 pessoas — sendo 40.007.312 na Colômbia e 1.414.661 residentes no exterior.
A divergência surge a partir das informações disponibilizadas pela Divisão Eleitoral Política (Divipole), sistema de codificação e organização geográfica utilizado pela autoridade eleitoral, que registrou, dias antes, cerca de 885 mil a mais do que o total oficial. Essa diferença, no entanto, não representa novos eleitores cadastrados, mas uma estimativa operacional do número de votantes e que já fazem parte do cadastro eleitoral de cada consulado. “Seu objetivo é operacionalizar a obrigatoriedade legal de abertura de seções eleitorais no exterior a partir da segunda-feira anterior ao dia da eleição na Colômbia”, enfatiza a MOE.
Da mesma forma, as supostas 696 seções eleitorais abertas sem justificativa correspondem, na verdade, às 116 seções instaladas nos consulados multiplicadas pelos seis dias em que a votação ocorre fora do país.
Raízes da desconfiança
Embora as acusações de fraude tenham ganhado força após a divulgação dos resultados do primeiro turno, a desconfiança do grupo político de Petro em relação ao sistema eleitoral colombiano não é recente. Segundo Matheus Petrelli, pesquisador do Observatório de Política Sul-Americana, integrantes do Pacto Histórico, partido político de esquerda da Colômbia, vêm questionando há anos a atuação da empresa Thomas Greg & Sons, responsável pela logística eleitoral, pela pré-contagem dos votos e pela consolidação dos dados do processo eleitoral.
“O discurso não surgiu como uma resposta imediata ao resultado do primeiro turno. Mesmo quando venceu as eleições de 2022, Petro já apontava possíveis fragilidades no sistema. Há um histórico de críticas à empresa, alimentado por episódios anteriores de divergências entre os resultados preliminares e os dados posteriormente validados pelas Comissões Escrutinadoras”, explica.
📌 Você sabia?
Diferentemente do Brasil, onde a organização das eleições é centralizada pela Justiça Eleitoral, a Colômbia contrata empresas privadas para executar parte da logística e da operação do processo eleitoral, incluindo a transmissão dos resultados preliminares. Por isso, companhias responsáveis por esses serviços frequentemente acabam no centro dos debates e questionamentos sobre as eleições
O pesquisador cita como exemplo as eleições legislativas de 2022, quando cerca de 500 mil votos do Pacto Histórico deixaram de aparecer na contagem inicial e foram recuperados durante a etapa oficial de escrutínio. Segundo ele, esses antecedentes ajudam a entender por que setores da esquerda colombiana mantêm uma postura de vigilância em relação ao processo eleitoral.
Para Petrelli, o desempenho de Abelardo de la Espriella acima do previsto por parte das pesquisas também pode ter contribuído para alimentar suspeitas. “Em alguns levantamentos, ele aparecia fora do segundo turno. O fato de ter terminado a primeira rodada na liderança, à frente de Cepeda, reforçou questionamentos já existentes sobre a confiabilidade do pré-conteo”, afirma.
O peso da polarização
De acordo com o Segundo Informe da Missão de Observação Eleitoral publicado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) este não foi um caso isolado de desinformação no pleito. “As principais narrativas buscavam disseminar pesquisas falsas, dúvidas infundadas sobre o sistema eleitoral e ataques contra candidatos”, traz o documento. O texto aponta que esses discursos foram amplificados pelo uso de bots, anúncios em redes sociais e aplicativos de mensagens e deepfakes dos candidatos, “para prejudicar suas reputações”, pontua.
Ana Claudia Santano, fundadora da Transparência Brasil, argumenta que o reconhecimento da confiabilidade do processo eleitoral por Cepeda, ainda que tardiamente, é algo positivo. “É isso que importa: saber ganhar e saber perder. Porém, em ambientes polarizados, isso gera danos.” A especialista, que já foi observadora eleitoral 7 vezes no país, analisa que o próximo turno será ainda mais acirrado.
“A tendência, como os dois candidatos estão em extremos opostos do espectro político — um mais à direita e outro mais à esquerda — é que a disputa vire um vale-tudo, e no final das contas, vale mesmo. Acredito que haverá mais violência política e desinformação, porque não há incentivos desses grupos em amenizar nenhuma de suas posturas”, reflete.
Fragmentação no país vizinho
Ao mesmo tempo, o Peru também vive um cenário eleitoral e político instável. Ainda no último dia 7 de junho, foram realizadas as eleições do segundo turno no país. Com 97,3% das urnas apuradas — até a publicação desta reportagem — Roberto Sánchez assumiu a dianteira da corrida presidencial e está à frente de Keiko Fujimori. A apuração dos votos “pode levar de duas semanas até o final do mês”, dependendo do número de discrepâncias encontradas nas atas de votação, alegou Bernardo Pachas, chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), à imprensa peruana..
Neste ano, o país teve um recorde de candidatos à presidência, com 35 ao todo. O número de presidentes que comandaram o país nos últimos 10 anos também é grande: foram nove — mesmo que sua duração padrão seja de cinco anos. Ou seja, pelo menos a cada ano, um novo presidente assume o país. Dois presidentes renunciaram e quatro foram destituídos pelo parlamento peruano.
O histórico de crises presidenciais tem gerado um sentimento de desencanto em parte da população peruana em relação à democracia e ao próprio ato de votar, avalia Gladys Pereyra, editora geral do OjoPúblico, portal peruano de jornalismo investigativo. “Presidentes eleitos democraticamente sendo destituídos ou deixando o cargo antes do fim do mandato faz com que muitos cidadãos sintam que seu voto perde eficácia no longo prazo, já que decisões tomadas pelo Congresso podem alterar o resultado das urnas”.
A jornalista observa que esse cenário contribui para uma percepção de que os representantes eleitos não estão atuando como porta-vozes da sociedade, mas sim defendendo interesses próprios, de grupos políticos específicos ou de setores econômicos que representam. Como consequência, cresce a desconfiança em relação às instituições e à classe política.
Para Lucas Berti, pesquisador do Observatório de Política Sul-Americana, a disputa acirrada entre Roberto Sánchez e Keiko Fujimori também reflete divisões históricas da sociedade peruana, especialmente em torno do legado do ex-presidente Alberto Fujimori.
“Keiko carrega toda a herança do fujimorismo, um legado que continua dividindo profundamente a sociedade peruana entre apoiadores e opositores. Isso ajuda a explicar por que ela chega ao segundo turno pela quarta eleição consecutiva e por que as disputas costumam ser tão apertadas”, afirma.
Segundo o pesquisador, a polarização não é apenas ideológica, mas também geográfica. Enquanto Lima e os setores mais ligados às elites econômicas tendem a votar majoritariamente em candidatos da direita, regiões do interior do país, especialmente áreas indígenas e ligadas à mineração, costumam demonstrar maior apoio a candidaturas de esquerda.
“Muitas vezes, o voto em candidatos da esquerda funciona também como um voto de rejeição ao fujimorismo. Ao mesmo tempo, existe uma divisão territorial muito clara. O interior do país vota de forma diferente da capital, e isso aparece de maneira recorrente nas eleições peruanas”, explica.
Boatos, checagens e ataques às instituições eleitorais
Durante o primeiro turno, o candidato Rafael López Aliaga denunciou haver um golpe de Estado no Peru, acusando as autoridades eleitorais de manipularem a apuração. Ele chegou a oferecer uma recompensa de US$ 5.800 (cerca de R$ 29 mil) a funcionários eleitorais que apresentem informações “verdadeiras e comprováveis” sobre irregularidades nas eleições.
Em todo o país, havia cerca de 92,7 mil mesas de votação. Problemas logísticos afetaram uma parcela reduzida delas: milhares registraram atrasos na abertura e 187 não chegaram a ser instaladas no dia da eleição. Embora as falhas tenham exigido correções por parte das autoridades, apoiadores de candidatos derrotados usaram esses episódios para alimentar suspeitas sobre a integridade do processo eleitoral.
Segundo Gladys Pereyra, a partir daí, a narrativa se ampliou. “Além dos questionamentos sobre essas mesas específicas, começaram a circular informações falsas sobre a instalação das seções eleitorais e sobre a atuação dos organismos responsáveis pela eleição. Grande parte desse conteúdo surgiu nas redes sociais e foi posteriormente reproduzido por atores políticos, o que aumentou seu alcance e credibilidade”, afirma.
Ela pontua que houve um esforço significativo de checagem e combate à desinformação pelas autoridades eleitorais, mas um dos principais desafios foi a velocidade da resposta institucional.
“As autoridades eleitorais precisavam fornecer explicações claras e rápidas para impedir que informações falsas ganhassem escala. Faltou uma reação mais ágil dos órgãos públicos para esclarecer o que estava acontecendo quando surgiam problemas logísticos localizados e de alcance limitado”, avalia.
As narrativas enganosas não se limitaram às suspeitas de fraude. Ao longo da campanha, o portal de checagem PeruCheck desmentiu uma série de informações falsas compartilhadas por atores políticos e usuários nas redes sociais. Entre elas, a alegação de Keiko Fujimori de que seu pai, o ex-presidente Alberto Fujimori, teria sido condenado sem provas e de que o conceito jurídico de “autoria mediata” ou perpetração indireta teria sido criado especificamente para condená-lo. Ambas as afirmações foram classificadas como falsas pelos verificadores.
O portal também desmentiu publicações que afirmavam, incorretamente, que Keiko Fujimori já havia sido eleita presidente antes da conclusão da apuração e esclareceu que Roberto Sánchez nunca declarou que a saída do ex-chefe da ONPE, Piero Corvetto, daria mais credibilidade ao segundo turno, como circulou em conteúdos compartilhados nas redes.
Para Berti, a disseminação dessas narrativas está ligada a um ambiente de crescente desconfiança institucional. “Assim como em outros países da região, problemas logísticos pontuais foram utilizados para sustentar suspeitas sobre a integridade do processo eleitoral. Não houve comprovação de fraude, mas a narrativa encontrou espaço em um contexto de forte polarização e descrédito nas instituições”, afirma.
