Desde o último sábado, quando bombardeios coordenados de Estados Unidos e Israel atingiram alvos em território iraniano e desencadearam uma escalada militar com retaliações do Irã, uma outra frente de batalha passou a se desenrolar com intensidade: a da desinformação.
Em paralelo aos ataques, que atingiram, entre outros alvos, o líder supremo Ali Khamenei e autoridades militares e já deixaram mortos nos três lados do conflito e em outros países da região, as redes sociais foram rapidamente inundadas por conteúdos enganosos, imagens fora de contexto, peças sintéticas produzidas com auxílio de inteligência artificial (IA) e até trechos retirados de jogos eletrônicos.
Entre os casos desmentidos pelo serviço de verificação da BBC, o BBC Verify, está uma imagem que alegava mostrar uma grande explosão em uma base militar dos Estados Unidos no Iraque. Segundo o veículo, o conteúdo foi criado ou manipulado com IA, possivelmente a partir de uma foto real do aeroporto internacional de Irbil.
O serviço também identificou a criação de contas falsas na rede X atribuídas a figuras religiosas iranianas. Após a morte de Ali Khamenei, duas contas em nome do aiatolá Alireza Arafi foram abertas no mesmo dia do anúncio de sua nomeação para um conselho temporário e passaram a disseminar material não verificado ou gerado por IA.
Uma delas exibia selo azul, atualmente obtido por meio de assinatura paga na plataforma, o que pode transmitir uma aparência de credibilidade a conteúdos enganosos. Perfis verificados podem ainda participar de programas de monetização baseados em engajamento.
No Brasil, o Aos Fatos informou que as publicações enganosas já verificadas sobre o conflito acumulam ao menos 3 milhões de visualizações no TikTok, 200 mil curtidas no Instagram e 4 mil compartilhamentos no Facebook.
O veículo também desmentiu um vídeo antigo que passou a circular como se mostrasse o momento em que a residência do aiatolá Ali Khamenei teria sido atingida por um míssil americano. Segundo a checagem, a gravação foi feita em Teerã em 15 de junho do ano passado e registra, na verdade, um ataque israelense ao distrito de Tajrish, área diferente daquela onde fica a residência oficial do líder iraniano, localizada no distrito 11 da capital.
Outra verificação identificou ainda uma cena retirada de um jogo eletrônico compartilhada como se retratasse um caça americano desviando de mísseis iranianos.
O ambiente informacional sob ataque
O que se vê nas redes durante a escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã vai além de uma disputa de narrativas. Para organismos internacionais, o fenômeno tem impacto direto sobre a segurança de civis.
Em relatório de 2023, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) afirma que, em conflitos armados, a conectividade digital é simultaneamente vital e vulnerável. Ao mesmo tempo em que permite que civis encontrem rotas de fuga, hospitais e serviços essenciais, também amplia, em escala e velocidade inéditas, a circulação de conteúdos falsos ou manipulados.
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A mesma preocupação aparece no sistema de operações da Organização das Nações Unidas (ONU) destinadas a manter ou restaurar a paz em áreas de conflito, o United Nations Peacekeeping. Segundo especialistas do Departamento de Operações de Paz da ONU, a desinformação e o discurso de ódio, em contextos voláteis, podem “fazer a diferença entre a vida e a morte”.
As duas instituições convergem em um ponto central: o ambiente informacional deixou de apenas refletir o conflito e passou a influenciar sua dinâmica. O CICV alerta que operações de informação, quando usam táticas de desinformação, podem distorcer fatos, fomentar ódio e elevar riscos para mulheres, crianças e minorias. A ONU, por sua vez, destaca que rumores e narrativas manipuladas influenciam comportamentos coletivos, agravam tensões e podem acelerar ciclos de violência nos territórios de conflito.
Quando a desinformação atinge quem protege
Os impactos não recaem apenas sobre civis, mas também sobre quem atua para protegê-los em contextos de conflitos. O relatório do CICV aponta que operações cibernéticas, vazamentos de dados e campanhas coordenadas de desinformação minam a confiança em organizações humanitárias, interrompem sistemas logísticos e expõem dados sensíveis de beneficiários.
Dados de pesquisa interna do Departamento de Operações de Paz indicam que 68% dos peacekeepers ouvidos em 2025 afirmaram que conteúdos falsos impactam de forma moderada a severa seus esforços de implementação da paz, enquanto 76% relataram efeitos semelhantes sobre sua própria segurança.
Casos concretos ilustram essa dinâmica. Integrantes da Missão da ONU para a Estabilização na República Democrática do Congo (MONUSCO), enfrentaram ameaças e campanhas de difamação online após ataques do grupo Movimento 23 de Março em 2025. Mulheres militares tornaram-se alvo de intimidações, afetando sua liberdade de circulação e a execução das atividades de proteção.
Diante desse cenário, o CICV recomenda que as partes envolvidas em conflitos não interrompam o acesso da população civil à internet, prática já adotada tanto pelo Irã quanto por Israel em momentos de escalada. Atualmente, parte da população iraniana enfrenta restrições de conectividade.
“Com a interrupção da internet no Irã e uma narrativa oficial rigidamente controlada nos países do Golfo, abriu-se um grave ‘vácuo de notícias’, que está sendo rapidamente preenchido por desinformação impulsionada por inteligência artificial”, relata Rawan Damen, diretora-geral da Arab Reporters for Investigative Journalism (ARIJ).
A ONU têm investido no monitoramento de narrativas emergentes e no diálogo comunitário como estratégia para conter boatos antes que resultem em violência. Entretanto, a organização reconhece que a velocidade e o volume de circulação de conteúdos nocivos, somados à flexibilização recente de políticas de moderação em grandes plataformas, tornam a resposta cada vez mais desafiadora.
Desinformação se intensifica no X
Levantamento da revista Wired mostrou que, minutos após o anúncio do presidente dos Estados Unidos sobre a operação militar, a rede X foi tomada por postagens com alegações enganosas sobre a localização e a escala dos ataques. O veículo analisou centenas de publicações que acumularam milhões de visualizações, muitas delas provenientes de contas com o selo azul.
Entre os exemplos citados estão vídeos antigos reapresentados como se fossem registros atuais do conflito, imagens atribuídas a locais incorretos, conteúdos aparentemente gerados por IA e até cenas de videogames divulgadas como imagens reais de combates.
A revista menciona, por exemplo, um vídeo que alegava mostrar mísseis balísticos sobre Dubai, mas que na verdade retratava ataques iranianos a Tel Aviv ocorridos em outubro de 2024. Outro clipe viral afirmava exibir a derrubada de um caça israelense por sistemas de defesa iranianos, sem que houvesse qualquer confirmação independente do episódio.
Cenário não é inédito
A explosão de conteúdos sintéticos em confrontos entre Israel e Irã não é inédita. Em análise publicada em julho de 2025, a Factnameh – organização iraniana de verificação de fatos sediada no Canadá e integrante da Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN) – classificou o conflito de 2024-2025 como “a primeira guerra da IA”, por ter sido o primeiro grande embate militar em que ferramentas generativas tiveram papel central na disputa por percepção pública.
Segundo a entidade, antes desse período “a desinformação se apresentava de formas previsíveis: vídeos antigos, fotos recicladas e imagens com legendas incorretas”. Já nas primeiras horas dos ataques de junho de 2025, uma onda de conteúdos produzidos com IA inundou as redes sociais, incluindo cenas falsas de Tel Aviv destruída, caças F-35 abatidos e crateras inexistentes.
Parte do material foi difundida por veículos alinhados ao governo iraniano e permaneceu online mesmo após desmentidos. A organização identificou indícios técnicos de geração artificial em imagens de supostos destroços e em vídeos retirados de contas que produzem “destruição fantasiosa”.
A Factnameh também alertou para um efeito colateral: a erosão da confiança. Com a proliferação de peças sintéticas convincentes, conteúdos reais passaram a ser desacreditados por usuários, fenômeno descrito como uma fase de “hiperceticismo informacional” em contextos de guerra.
