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IA na sala de aula: estudo mostra como a tecnologia já molda o cotidiano escolar no Brasil

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O uso da inteligência artificial já faz parte da rotina de alunos e professores no Brasil e de forma intensa, variada e cada vez mais integrada ao cotidiano escolar. Mas essa incorporação avança sem orientação institucional, revelando um cenário marcado por desigualdades, improviso e dúvidas sobre como aproveitar, de fato, o potencial pedagógico da tecnologia.

É o que mostra o novo estudo setorial Inteligência Artificial na Educação: usos, oportunidades e riscos no cenário brasileiro, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br/NIC.br), que aprofunda as percepções, práticas, riscos e oportunidades que moldam a relação entre educadores, estudantes e ferramentas de IA.

A partir de entrevistas com especialistas e grupos focais em escolas públicas e privadas de São Paulo e Recife, o diagnóstico confirma que a adoção é rápida e disseminada, mas ainda carece de diretrizes, segurança e clareza sobre caminhos futuros.

Esse cenário é reforçado por Demi Getschko, diretor-presidente do NIC.br, que enfatiza no texto de apresentação do estudo que a tecnologia deve “potencializar o pensamento crítico, o discernimento ético e a capacidade criativa”, e não substituir essas dimensões. Getschko também lembra que a orientação para um uso responsável não é tarefa de um único ator: envolve educadores, gestores, pesquisadores, formuladores de políticas e desenvolvedores. Para ele, esse compromisso coletivo é inseparável do próprio futuro do aprendizado e da qualidade da vida democrática.

Uso da IA por alunos e professores

Nos grupos focais do estudo qualitativo, alunos relataram utilizar ferramentas generativas para agilizar tarefas como resumos, ideias iniciais e pesquisas, além de recorrer à tecnologia para organizar a rotina, tirar dúvidas sobre saúde e, em alguns casos, buscar suporte emocional.

Muitos reconheceram também adotar estratégias para driblar sistemas de detecção, como pedir que a IA “humanize” o texto ou inserir erros de propósito. Ainda assim, predomina a percepção de que essas ferramentas funcionam como um apoio pontual, e não como substitutas do esforço de aprendizagem ou da mediação docente.

Os dados mais recentes da TIC Educação 2024 (NIC.br, 2025) mostram que a inteligência artificial já está profundamente incorporada às rotinas escolares. Entre os estudantes que usam a internet, 37% recorreram a ferramentas de IA para pesquisas e atividades escolares, proporção que cresce conforme avança a escolaridade: 15% no ensino fundamental (anos iniciais), 39% nos anos finais e 70% no ensino médio. 

Fonte: Cetic.br

Entre os professores, o uso também tem se intensificado. Segundo a TIC Educação 2024, 43% dos docentes dos ensinos fundamental e médio já utilizam IA generativa na preparação de conteúdos didáticos, proporção maior no ensino médio (48%) e nas redes privadas (51%, contra 41% na rede pública).

Nos grupos focais analisados no estudo, educadores relataram recorrer à IA para reduzir a sobrecarga de trabalho, elaborar planos de aula, criar atividades, diversificar abordagens pedagógicas e buscar formas de personalização. Ao mesmo tempo, muitos reconhecem a existência de um “pacto silencioso”: sabem que os alunos usam IA para redigir textos ou resolver exercícios, mas não se sentem seguros para discutir limites ou estabelecer critérios, diante da ausência de diretrizes claras.

Riscos e incertezas 

O estudo do Cetic.br revela um conjunto de riscos estruturais que dificultam a adoção segura, ética e equitativa da inteligência artificial nas escolas. As desigualdades tecnológicas aparecem como um dos principais fatores: enquanto redes privadas dispõem de melhor infraestrutura, conectividade e equipamentos, estudantes e professores das escolas públicas lidam com acesso limitado e pouco apoio institucional, o que restringe a apropriação pedagógica da tecnologia.

Essa assimetria se soma a outro desafio central: a formação docente. Embora fortemente desejada, ela ainda é pontual e insuficiente para lidar com a complexidade da IA generativa e seus efeitos no processo de ensino-aprendizagem.

A ausência de diretrizes claras para o uso da IA cria um ambiente de incerteza que atravessa toda a comunidade escolar, revela o estudo. Sem políticas institucionais ou parâmetros definidos, muitos professores não se sentem seguros para estabelecer critérios, discutir limites ou avaliar produções feitas com auxílio das ferramentas, cenário que alimenta o chamado “pacto silencioso” entre docentes e estudantes.

O estudo também identifica dilemas éticos recorrentes, como questões de autoria e originalidade dos textos, riscos associados à privacidade e aos dados pessoais, além de preocupações com dependência tecnológica e o uso da IA em avaliações.

Somam-se a esses fatores as dificuldades de compreensão sobre o funcionamento da IA. Alunos e professores ouvidos para o estudo relatam problemas para diferenciar fatos de erros produzidos pelos modelos, verificar a veracidade das informações, entender como os algoritmos operam e identificar riscos associados ao seu uso. Ainda assim, há um forte interesse em formação crítica e orientada, capaz de apoiar tanto o uso cotidiano quanto a tomada de decisões pedagógicas mais fundamentadas.

Percepções sobre a IA 

O estudo identifica que alunos e professores vivem uma relação ambivalente com a inteligência artificial no contexto escolar, marcada por entusiasmo, preocupações e expectativas sobre o que a tecnologia representa para o futuro da educação. Entre os estudantes, a IA aparece como uma ferramenta útil e estimulante, mas acompanhada de apreensão quanto ao futuro profissional e às relações humanas. O levantamento mostra ainda que muitos jovens descrevem uma “IA ideal” que funcione como um amigo ou até um “psicólogo”, indicando um uso emocional da tecnologia que extrapola o ambiente escolar.

Entre os docentes, o estudo registra preocupações com a perda de autonomia intelectual dos alunos e com a dificuldade de adaptar práticas pedagógicas em meio a mudanças tecnológicas aceleradas. Apesar desses receios, o estudo aponta que tanto professores quanto estudantes consideram inevitável a integração da IA à educação.

Para que essa incorporação seja segura e socialmente justa, ambos os grupos destacam prioridades como diretrizes claras dos sistemas de ensino, fortalecimento da mediação humana, formação crítica sobre tecnologias e regulação responsável. Segundo o estudo, essas medidas são essenciais para que a IA contribua para inclusão e qualidade educacional sem substituir o papel central dos educadores e das interações humanas no aprendizado.

Benefícios e riscos identificados por especialistas

Além dos grupos focais, o estudo também entrevistou, de forma remota, 27 especialistas dos setores de academia, gestão pública, mercado, gestão escolar e sociedade civil, para mapear percepções mais amplas sobre oportunidades e ameaças associadas ao uso de IA na educação brasileira.

Do lado dos benefícios, gestores públicos destacaram o potencial da IA para otimizar processos administrativos, apoiar decisões e combater a evasão escolar, além de reforçar a importância da formação docente. Gestores escolares apontaram a redução da sobrecarga de trabalho e a criação de materiais inovadores, valorizando a IA como um “copiloto” pedagógico.

Representantes da academia enfatizaram uma abordagem crítica, voltada ao uso consciente e ao fortalecimento de habilidades humanas. Já o setor privado ressaltou o papel da IA como solução em larga escala, com foco na personalização da aprendizagem e na eficiência de tarefas burocráticas. A sociedade civil, por sua vez, destacou o potencial democratizador da tecnologia, capaz de ampliar inclusão e reduzir desigualdades, ainda que reconheça a falta de evidências sólidas sobre esses impactos.

Entre os riscos, gestores públicos apontaram falta de preparo para lidar com a IA, possíveis prejuízos cognitivos, excessos de personalização, riscos à segurança de dados e ao esgotamento docente. A academia chamou atenção para ameaças à privacidade, vieses e discriminações algorítmicas, desinformação e enfraquecimento do papel das instituições de ensino.

Organizações da sociedade civil expressaram preocupações com a mercantilização da educação, desigualdades de acesso e fragilidades na proteção de dados. Representantes do mercado mencionaram riscos de desinformação, vieses e uso inadequado de tecnologias de reconhecimento facial. Já os gestores escolares relataram desafios práticos de implementação, falta de formação e dificuldades adicionais na avaliação dos estudantes.

De forma geral, os especialistas consultados pelo estudo convergem na necessidade de políticas públicas robustas, critérios éticos claros e investimentos contínuos em formação docente para garantir que os benefícios da IA sejam acompanhados de salvaguardas adequadas.

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