O Brasil registrou em 2024 o maior número de denúncias de racismo online desde 2011: 452 casos reportados ao Disque 100. O dado é do estudo Brasil, Mostra a sua cara, produzido pelo Aláfia Lab, que analisou o perfil das vítimas e dos agressores e apontou os desafios para responsabilizar os autores dessas violações. A pesquisa revela que a maioria das vítimas é negra e do gênero feminino, enquanto os suspeitos predominam entre homens (55%) brancos (70%) de 25 a 40 anos, evidenciando como o racismo se manifesta e se reproduz cotidianamente no ambiente digital.
Responsável pelo estudo, a pesquisadora Letícia Alcântara explica que o racismo online precisa ser entendido como parte de uma estrutura de poder. “O espaço e a visibilidade proporcionados pelo digital geram também uma disputa simbólica, em que grupos historicamente privilegiados, sobretudo homens brancos, utilizam a violência online para reafirmar hierarquias de raça e gênero”, afirma.
Para ela, o perfil dos agressores segue um padrão comum a outras práticas de ódio nas redes, relacionado a dinâmicas de masculinidade tóxica que captam jovens cada vez mais cedo.
>> Leia também: Relatório revela uso de humor para espalhar racismo nas redes
Entre os principais achados do estudo, chama atenção o perfil das vítimas: 61% são mulheres e 90% se autodeclararam negras, sendo 66% pretas e 24% pardas. Segundo Alcântara, o maior número de denúncias envolvendo pessoas de pele mais escura é um fenômeno que antecede o digital, mas se intensifica nas redes.
“Embora pretos e pardos sofram de forma geral as consequências da violência racial, pessoas negras de pele mais escura acabam sendo ainda mais vitimadas”, explica. Para ela, a visibilidade conquistada nesses espaços também pode atrair ataques. “O racismo opera como uma estratégia de desumanização, tentando afirmar que aquele lugar de destaque não pertence à pessoa negra. Nos ambientes digitais, esse mecanismo se expande e se intensifica.”
Escalada das denúncias ao longo da década
O levantamento do Aláfia Lab mostra que, entre 2011 e 2019, o número de denúncias de racismo online ao Disque 100 manteve relativa estabilidade, com exceção de 2015, quando houve um pico de 137 registros.
A partir de 2020, porém, a curva mudou de direção e o canal passou a registrar recordes sucessivos: foram 218 denúncias naquele ano e 452 em 2024, o maior número da série histórica. O estudo indica que essa tendência pode se repetir, já que, em 2025, apenas nos três primeiros meses, foram contabilizados 88 casos.
📞 O papel do Disque 100
O Disque 100 é um canal gratuito e sigiloso, disponível 24 horas, mantido pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Ele permite que qualquer pessoa denuncie violações de direitos humanos, incluindo crimes de racismo e injúria racial cometidos no ambiente digital.
Em números absolutos, os estados que mais registraram denúncias foram São Paulo (248), Rio de Janeiro (178), Minas Gerais (121) e Bahia (66).
O aumento das denúncias, segundo o relatório, pode estar ligado a diferentes fatores:
- Polarização política: o acirramento dos conflitos na esfera pública digital, especialmente em períodos eleitorais.
- Ampliação do debate sobre racismo: maior consciência crítica da população, estimulando registros formais.
- Mudanças nos métodos de denúncia: incorporação de aplicativos de mensagens, que facilitaram o acesso ao canal.
- Deslocamento da violência para o digital: facilidade no acesso e uso massivo das redes sociais ampliam o anonimato, intensificando práticas discriminatórias.

Desafio da responsabilização
A pesquisa evidencia a dificuldade de responsabilizar os autores das violações, já que o anonimato no ambiente digital impede que muitas vítimas forneçam informações sobre cor, idade ou gênero dos agressores.
Essa é uma lacuna que também compromete o aprofundamento das análises desses dados e reforça a necessidade de aprimorar os métodos de coleta e denúncia, conforme evidenciado no estudo.
Alcântara reforça que entender os registros do Disque 100 é essencial para ter uma visão concreta do racismo online. “Muitas vezes, o debate sobre o racismo online fica restrito a casos pontuais que ganham repercussão na mídia, mas o banco do Disque 100 mostra a dimensão real e cotidiana dessa violência”, afirma. Ela ressalta ainda:
“Tornar visíveis as formas e estratégias do racismo online é condição para neutralizar o mascaramento, fortalecer os mecanismos de combate e garantir que a punição seja não apenas possível, mas efetiva.”
Três anos de Observatório: desvendando o racismo online
O Observatório de Racismo nas Redes completa três anos com a publicação do relatório Brasil, Mostra a sua cara. Para Ellen Guerra, coordenadora de pesquisa do Aláfia Lab, o trabalho vai além de mapear casos isolados: “O Observatório revela uma trajetória de aprofundamento no entendimento do fenômeno. Começamos identificando o léxico e os contextos em que o racismo aparece nas redes”.
O estudo também evidenciou padrões discursivos estruturados: “Não se trata apenas de insultos isolados, mas de uma gramática racista que organiza e circula nos ambientes digitais”, explica Guerra.
Ela lembra, ainda, que o racismo online explora a linguagem da cultura digital e as limitações das plataformas, o que reforça “a necessidade de pesquisas contínuas e de mecanismos mais sofisticados de enfrentamento”.