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Boas polêmicas

jan 11, 2022 | boas polêmicas

Quais os riscos e os benefícios de se consumir notícias por plataformas de mensagens, como o WhatsApp e o Telegram?

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Por que a mídia de referência não investe em aplicativos de mensagens como WhatsApp e Telegram (onde a desinformação mais circula hoje em dia)?

Giuliander Carpes

As organizações de notícias brasileiras não deveriam enviar boletins para seus leitores no WhatsApp, o aplicativo mais utilizado do país? Não existe uma oportunidade para os meios de comunicação investirem numa rede onde a desinformação é reconhecidamente um problema e a informação de maior credibilidade fornecida pelo jornalismo profissional poderia funcionar como um antídoto? Desde pelo menos a metade da década passada, quando o WhatsApp se descolou de competidores como Viber e Messenger para se tornar o aplicativo de mensagens mais popular do Brasil (e do mundo), essas questões têm fomentado debates nas redações para além de respostas óbvias.

 

Dentro de um projeto de pesquisa financiado pela Comissão Europeia, entrevistei mais de 20 executivos e editores brasileiros (e quase outros 20 espanhóis e franceses) recentemente: todos manifestaram claro interesse em utilizar o WhatsApp para distribuir notícias. A maioria, contudo, não o faz. E quem usa, está longe de fazê-lo de forma ampla, diversificada, como mostra estudo sobre os principais canais de notícias do Brasil na ferramenta. Esses canais raramente recebem divulgação das empresas de notícias em suas outras redes sociais: o leitor precisa fazer uma verdadeira investigação para descobri-los ou, eventualmente, receber um compartilhamento de algum conhecido que já faz parte das listas de transmissão ou dos grupos.

 

O Estado de S. Paulo tem sido um dos veículos de comunicação brasileiros mais consistentes na utilização do aplicativo durante todo esse período. O jornal envia boletins em listas de distribuição pelo menos desde 2015. Mesmo assim, durante todo esse tempo, sua base de usuários não ultrapassou muito a casa dos 20 mil: um número irrisório se comparado as 3,6 milhões de pessoas que seguem a página do Estadão no Facebook, as 7,1 milhões que acompanham o jornal no Twitter e as 2,1 milhões que veem suas postagens no Instagram. O jornal utiliza um formato fixo de mensagem, similar ao de newsletters por e-mail, só que mais curto: cada uma, enviada três vezes ao dia (início da manhã, da tarde e da noite) possui quatro ou cinco notícias com uma breve introdução e seus respectivos links para o site do jornal. Nada de áudios, figuras ou mesmo vídeos, populares formas de comunicação entre os usuários comuns. Afinal, qual é o problema?

 

Os editores e executivos argumentam que as limitações são causadas pela própria ferramenta, que desde dezembro de 2019 ameaça tomar medidas legais contra quem utilizá-la para o envio de mensagens em massa. Assim, cada lista de transmissão ou grupo pode ter, no máximo, 256 integrantes – portanto, se um jornal possui 20 mil pessoas inscritas em seus canais, deve gerenciar mais ou menos 80 listas ou grupos e postar cada mensagem individualmente em cada um deles. Qualquer automatização desse processo também é proibida, então ele deve ser realizado manualmente, o que toma tempo – pelo menos quatro horas do dia de um único profissional da redação, senão mais, segundo os entrevistados. Ao contrário de redes sociais abertas como Facebook e Twitter, o WhatsApp não fornece métricas para que as redações possam entender que tipos de conteúdos ou formatos têm melhor tração com a audiência. Os veículos fazem um acompanhamento bastante rudimentar dos seus links através de parâmetros UTM. A ausência de métricas causa desmotivação nas redações.

 

E nunca se sabe quando as políticas da rede podem mudar e inviabilizar o serviço de uma vez por todas. Essas constantes alterações nunca são discutidas com os editores, até porque o aplicativo de mensagem não disponibiliza um canal direto com a mídia apesar de fazer parte da Meta, a holding dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, entre outros, que mantém programas de colaboração próxima com veículos de comunicação como o Meta (outrora Facebook) Journalism Project. A empresa alemã Messenger People, que automatizava e gerenciava newsletters para diversos meios de comunicação europeus no WhatsApp afirma que perdeu instantaneamente mais da metade de seus clientes de mídia com a mudança do final de 2019. O resto deixou a plataforma logo na sequência quando percebeu a impossibilidade de manter a fluída distribuição de notícias de antes. Le Monde (França) e Deutsche Welle (Alemanha) foram dois desses clientes. Editores de ambas as empresas com quem conversei manifestaram imensa frustração com a mudança e disseram ser inviável fazer o envio manual de boletins na ferramenta. Depender de plataformas em que não se confia não costuma ser uma boa estratégia para a mídia.

 

Essas limitações abrem espaço para um aplicativo de mensagens ainda bem menos popular como o Telegram, utilizado por apenas 27% dos donos de smartphones no Brasil. Cada vez mais veículos de imprensa têm aberto canais na plataforma: O Globo e Folha de S. Paulo, por exemplo, estão lá e não no WhatsApp. Mas o incentivo para essa presença é muito mais a facilidade de utilização da ferramenta, que possibilita a criação de feeds ou timelines semelhantes às do Facebook e Twitter onde as notícias podem ser postadas automaticamente e enviadas para um grande grupo de usuários, do que os números reais de audiência que ela hoje proporciona – o canal do jornal carioca, que ainda nem recebeu verificação do Telegram, possui menos de 7 mil assinantes, enquanto o da Folha tem pouco mais de 8 mil.

 

Por outro lado, o nível de inovação dos veículos de notícias no WhatsApp e no Telegram é bastante limitado. Muito raramente existe a intenção de utilizar a essência de comunicação interpessoal possibilitada por essas plataformas. Os meios de comunicação procuram reproduzir dinâmicas semelhantes às de outras redes sociais focadas numa distribuição de cima para baixo, que não fomenta a interação com os leitores. Frequentemente, um único profissional muito engajado dentro da redação torna-se o principal responsável por tocar em frente o projeto relacionado ao aplicativo de mensagens e convencer seus colegas do seu potencial. Quando essa pessoa é promovida a um novo cargo ou sai da empresa, a iniciativa invariavelmente perde força e, eventualmente, até é descontinuada. Esse parece ter sido o caso do jornal Extra, do Rio de Janeiro, reconhecido como pioneiro no uso do WhatsApp para coleta de informações dos leitores e distribuição de notícias antes mesmo do aplicativo ter sido comprado pelo Facebook em 2014. O então editor de geral Fábio Gusmão passou meses testando emuladores de Android para conseguir utilizar a ferramenta em computadores, cadastrando leitores e treinando estagiários e jornalistas em início de carreira para gerenciar o serviço, que possibilitou ao jornal noticiar diversos furos jornalísticos relacionados à realidade carioca antes de seus concorrentes e criar listas de distribuição voltadas para regiões específicas da cidade. Quando o editor deixou o cargo, o ânimo da redação num trabalho reconhecidamente difícil amainou. A pandemia foi o golpe de misericórdia nos números de telefone do jornal no WhatsApp: os computadores com o emulador permaneceram na redação enquanto os jornalistas mantinham o jornal direto de suas casas.

 

Embora rara, a inovação existe. Normalmente, ela está atrelada a veículos locais ou regionais que não conseguem mais obter o mesmo alcance de outrora em redes já estabelecidas como Facebook, Twitter e Instagram. Por terem uma audiência menor do que veículos grandes nacionais, comunidades relativamente pequenas de leitores engajados num aplicativo de mensagens podem se tornar um ativo fundamental no que acadêmicos costumam chamar de “jornalismo de proximidade”. A Tribuna do Paraná tem diversos grupos onde distribui notícias voltadas para leitores de regiões específicas da capital Curitiba, da sua região metropolitana e do interior, além de canais focados nos principais times de futebol do estado – o serviço é bem divulgado e possui uma página exclusiva no site do jornal. O Correio (Bahia) oferece grupos específicos para assinantes. A GZH, site do Grupo RBS que funciona como versão digital da rádio Gaúcha e do jornal Zero Hora, tem usado seu canal no zap para fomentar colaboração dos leitores em temas específicos que são abordados pela publicação. O Matinal, também de Porto Alegre, até pouco tempo atrás enviava um áudio com uma curadoria das principais notícias do dia na região – o serviço foi interrompido enquanto a empresa tenta viabilizá-lo financeiramente.

 

São – poucas – iniciativas que dão uma mostra otimista de tudo que um bom canal num aplicativo de mensagem poderia ser. Elas demonstram que, apesar das limitações impostas pelas próprias ferramentas, é possível manter canais ativos, importantes e atraentes no WhatsApp e no Telegram. Mas isso demanda esforço, criatividade e um certo nível de desprendimento que muitos meios de comunicação mais bem estabelecidos não têm interesse em ter. Enquanto isso, a desinformação continua a correr solta nessas plataformas – o que, obviamente, não é responsabilidade original dos meios de comunicação. Ainda não está claro que contribuição além da que já dá o jornalismo pode proporcionar para minimizar o problema. Simplesmente lavar as mãos não adianta muito e parece ir contra os mantras que muitos ideólogos do jornalismo ainda repetem de que a profissão é fundamental para a democracia e que ela muda o mundo. É mesmo possível manter esse lugar de autoridade fazendo o mesmo tipo de trabalho que se fazia nos primórdios da Internet e sem um esforço real de adaptação às novas formas de consumo de notícias?

 

 

Giuliander Carpes é  jornalista e pesquisador em comunicação. Faz doutorado na Universidade de Toulouse (França), onde estuda o impacto das plataformas digitais (e, mais especificamente, dos aplicativos de mensagens) no jornalismo dentro do projeto JOLT, financiado pela Comissão Europeia – é fellow das Ações Marie Sklodowska-Curie. Tem mestrado em Mídia e Negócios pela Universidade Erasmus de Roterdã (Holanda). Trabalhou como repórter e editor no jornal O Estado de S. Paulo, nos portais Terra e UOL e colaborou para a Agência Pública e publicações como GQ e Harper’s Bazaar.

 

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Analfabetismo midiático, design adverso e entraves técnicos e financeiros não devem impedir experiências nos apps de mensagens

Marcelo Träsel

Aplicativos de mensagens privadas, como WhatsApp e Telegram, oferecem benefícios e riscos semelhantes a plataformas de redes sociais, à World Wide Web ou a ferramentas como o correio eletrônico, do ponto de vista da comunicação. O consumo de notícias através destes canais, portanto, pode ser uma vantagem para a democracia, ou um obstáculo para a mesma, dependendo tanto da relação estabelecida com os mesmos pelos indivíduos, quanto de fatores técnicos e sociais.

A principal questão relacionada aos indivíduos é como estes entendem o conceito de notícia. A proporção de analfabetos funcionais no Brasil é grande e a quantidade de cidadãos letrados em mídia é ínfima. Mesmo antes da popularização do acesso à internet e dos smartphones, leitores de jornais impressos demonstravam dificuldades para diferenciar informação e opinião. Até hoje, muitos brasileiros pensam que os anúncios são produzidos pelos mesmos jornalistas que apuram, redigem e editam notícias, reportagens, notas e outros textos informativos.

No WhatsApp e Telegram, assim como no Facebook, no Twitter ou no YouTube, a confusão tende a ser maior, porque um comentário do Seu Zé do armazém da esquina sobre as vacinas e uma atualização de um repórter de um jornal ou emissora tradicionais a respeito dos resultados da campanha de imunização têm a mesmíssima aparência. A identidade visual costumava ser um dos primeiros indícios de credibilidade de uma publicação jornalística, mas ela se perde no design das plataformas.

Se no mundo pré-internet nem sempre era fácil, mesmo para uma pessoa letrada, delimitar a fronteira entre informação e opinião com a ajuda de pistas gráficas, no WhatsApp ou no Telegram essa operação cognitiva se torna muito mais difícil. Além disso, as mensagens não costumam apresentar marcações de tempo, lugar e fonte, ou estas podem ser facilmente modificadas, de modo que um texto ou imagem pode vir de qualquer lugar e ser atribuído a qualquer pessoa. Em combinação com os mecanismos de encaminhamento e compartilhamento, esse aspecto torna o equívoco muito comum e a fraude muito fácil de se executar.

O compartilhamento de links para fontes de informação fidedignas é um tanto mais salutar, porque o leitor pode ter contato com a identidade visual do veículo, verificar a data na qual a notícia foi publicada, as fontes consultadas para a apuração, entre outros elementos de avaliação da veracidade – isto é, se a pessoa clicar no link após ver a imagem, ler o título e a primeira meia dúzia de palavras do texto que aparece na pré-visualização.

Além disso, muitos brasileiros aderem a contratos de telefonia conhecidos como zero rating, nos quais o acesso a serviços de mensagens e redes sociais é gratuito, mas o acesso a websites jornalísticos gasta a franquia de dados. Mesmo quando decide investir alguns megabytes de sua franquia para ler uma notícia, o cidadão muitas vezes esbarra num paywall e precisa se perguntar se prefere assinar um jornal ou tomar mais duas a três cervejas naquele mês. A cerveja vence a disputa na maioria das vezes.

Infelizmente, a impossibilidade de mensurar audiência e vender anúncios em serviços de mensagens privadas significa que poucos veículos jornalísticos legítimos investem na produção de conteúdo específico para o WhatsApp ou o Telegram. Mesmo os maiores jornais e emissoras em geral se limitam a compartilhar links e breves resumos em seus canais. Existem alguns bons exemplos, como o Canal Reload, que reempacota conteúdo de diversas redações em vídeos mais atraentes para jovens; o Correio Sabiá, que há alguns anos envia gratuitamente resumos detalhados das notícias do dia para grupos e listas de transmissão; ou o Zap Matinal, que até o final de 2021 oferecia um resumo em áudio do noticiário relacionado à capital gaúcha. No entanto, por serem operações pequenas, seu alcance é limitado e a capacidade de produção é restrita.

A todos os fatores apresentados acima – analfabetismo midiático da população, design adverso dos aplicativos, dificuldade financeira para assinar jornais digitais, incentivos econômicos perversos dos contratos de telefonia e empecilhos à monetização – se soma ainda o contexto político altamente polarizado.

A polarização política tende a exaltar os ânimos de cidadãos comprometidos com alguma ideologia, o que propicia a exacerbação dos vieses cognitivos. Simplificando bastante a ciência a respeito do tema, os seres humanos evitam a dissonância cognitiva como evitam colocar a mão sobre uma chama aberta e, por isso, a mente resiste de várias maneiras a informações que desabonem uma crença arraigada. Assim, quando recebem um conteúdo sobre este ou aquele candidato no grupo de Zap da família, muitas pessoas tendem a atribuir maior ou menor credibilidade ao texto, vídeo, áudio ou imagem conforme o alinhamento a suas próprias crenças.

Ao mesmo tempo, a dinâmica da identificação grupal incentiva o compartilhamento de conteúdo sem uma avaliação prévia a respeito de sua credibilidade, se for favorável a seu candidato preferido ou desfavorável ao “inimigo”. Nem mesmo a educação parece ser uma barreira forte o suficiente contra os vieses cognitivos, pois já vi doutores em Comunicação, em tese plenamente capazes de avaliar informação, compartilhando conteúdo flagrantemente falso, mas favorável a um determinado líder político. A mentalidade de torcida de futebol leva muitas pessoas a encaminharem material falso ou equivocado até mesmo após identificarem se tratar de desinformação, sob a racionalização de que “na guerra vale tudo”.

Muitos grupos de interesse se aproveitam dos obstáculos à circulação de notícias legítimas impostos pelos serviços de mensagens instantâneas, da dependência das plataformas e da inacessibilidade econômica do jornalismo profissional para disseminar desinformação no WhatsApp, Telegram e assemelhados. É uma forma barata e eficaz de se promover agendas, porque depende sobretudo da adesão gratuita de apoiadores dispostos a organizar canais de transmissão para difundir o conteúdo produzido por um pequeno grupo de funcionários ou líderes de opinião contratados.

Uma das poucas vantagens técnicas do WhatsApp e do Telegram é a certeza de que qualquer publicação chegará a todos os participantes de um grupo ou assinantes de um canal, porque nestes aplicativos a distribuição de conteúdo não é regulada por algoritmos, ao contrário do que ocorre nas plataformas de redes sociais. Redações jornalísticas, assessorias de imprensa, universidades e outras instituições que têm entre seus objetivos divulgar fatos e evitar a difusão de crenças equivocadas precisam encontrar maneiras de aproveitar as capacidades e tangenciar os obstáculos impostos pelos serviços de mensagens instantâneas.

 

Marcelo Träsel é jornalista, doutor em Comunicação Social (PUCRS), professor da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) no biênio 2020-2021.

 

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